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FUGITIVOS DO INFERNO 01 - O CICLO DA ERA

FUGITIVOS DO INFERNO 01 - O CICLO DA ERA

Brenda Guedes

4.7
Comentário(s)
6.6K
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43
Capítulo

Pensa ser algo louvável uma pessoa condenada fugir do inferno? Deveria saber que não há paz quando se está em ciclo eterno de reencarnações. Eloísa tenta ter uma vida normal após a separação dos pais, mas uma série de pesadelos que a atormentam começam a roubar sua sanidade. Em outro continente, um homem busca uma forma de livrar sua alma e a de sua melhor amiga dos calabouços do inferno, mas se vê em uma rua sem saída quando uma profecia antiga retorna para testá-lo. Lorenzo sabe onde está se enfiando? Graças a colares feitos de fios do cabelo de um ser poderoso, eles se encontram. Existem coisas que não podem ser evitadas. Um ciclo que liga algo muito maior do que a terra ou o inferno está recomeçando. Embarque nessa mistura de teorias e religiões, com anjos, demônios e romance. ATENÇÃO: descrição gráfica de tortura, leia por sua conta e pesadelos em risco.

Capítulo 1
PRÓLOGO dos fugitivos

México, 1823

Ele estava de bruços na areia quente do deserto fumegante, os grãos excederam os limites de sua pele, mas a dor não era nada comparável àquela com a qual ele havia se acostumado. Seus olhos ousaram se abrir, mas não teve capacidade de mantê-los assim por mais de dois segundos. O rapaz forçou suas mãos no solo e tentou se erguer, mas inevitavelmente caiu. Sentia-se fraco e forte ao mesmo tempo. Na realidade, ele não tinha tanta vontade assim de se levantar. Rolou, voltando sua face contra o sol e pôs seu braço direito frente ao rosto. Sentou-se e suspirou. Estava nu e os raios penetravam sua pele enquanto ele sorria. Seus olhos negros e intensos se abriram calmamente, dando a ele o prazer de enxergar algo que não a escuridão que habitou por intermináveis anos. Ele havia conseguido. Naquele instante, Enzo teve certeza de que realmente havia dado certo. O calor do deserto era desafiador, mas como um nevoeiro se comparado ao lugar onde estivera.

Gritou o mais alto e forte que pôde, sentindo sua garganta fraquejar quando parou. Estava alucinado de felicidade. Jogando-se contra a areia, tapou o rosto com as mãos. Seu coração batia de novo. Como era bom sentir algo que não fosse desespero e dor.

Pobre Enzo, em êxtase, mal sabia que nem tinha começado ainda.

Ouviu passos e virou a cabeça para trás, enxergando a mulher que se aproximava. Também estava despida e seu corpo era tão claro quanto o sol e suas curvas pareciam ter sido desenhadas pelo mais talentoso pintor.

— Lorenzo! — gritou, o corpo dele se contraiu.

Correndo em direção ao rapaz com um sorriso reto estampado e não parecendo se importar com o quanto a areia podia queimar seus pés, ela o alcançou. Ele demorou alguns segundos para reconhecê-la.

— Teo... — sussurrou quando ela fez sombra sobre ele. Estranhou-se, não reconhecia o som da sua própria voz. Teodora estendeu sua mão, o oferecendo ajuda para se levantar.

Lorenzo a abraçou quando ficou de pé, como quis fazer durante tanto tempo. Teo passou os dedos finos por seus cabelos e ele retribuiu o afeto em seus fios vermelhos como sangue. Depois sorriu, segurando o rosto dela entre suas duas mãos e encarando seus reconhecíveis olhos coloridos. Conseguia sentir a euforia da amiga.

— Nós conseguimos — as palavras deixaram os lábios finos da mulher.

— Nós... — Enzo não conseguia falar. Não existiam palavras até então criadas que pudessem ser boas para descrever o que passava dentro dele naquele instante. Apenas mantinha o sorriso.

Após o êxtase inicial, os dois caminharam por horas até encontrar algum lugar no meio daquele deserto, mas não estavam cansados. Descobriram ali algumas vantagens de serem quem são. Adentraram o bar acinzentado que se mantinha como a única estrutura em quilômetros e apenas um homem de cabelos grisalhos e chapéu amassado jazia ali. Ele arregalou os olhos ao vê-los.

— Oh! Céus... — retirando o chapéu da cabeça — morri e cheguei no céu?

— Precisamos de ajuda — declarou ela.

— Tudo o que quiser — disse, mantendo os olhos fixos em seus seios pequenos.

— Em que ano estamos? — questionou Lorenzo, tentando parecer o menos estranho possível.

O homem o encarou confuso e deu um sorriso desconfortável.

— 1823 — respondeu. — Olha, rapaz — parecia desconfiado –, vocês parecem longe de casa, não é mesmo? Do que precisam?

— Roupas...— disse a única mulher no espaço de poucos metros quadrados — e uma forma de sair daqui. Seja lá onde é aqui — seus olhos caminharam para a janela de madeira aberta que mostrava o deserto.

Ele saiudetrás do balcão de madeira velha com seu macacão azul e levou o chapéu cinza de novo à cabeça, colocou as mãos sobre a cintura.

— Tento sair daqui faz cinquenta anos — zombou. Sua pele queimada pelo sol estava suja e ele deu um passo a mais até os forasteiros –, mas eu tenho algumas roupas.

Os dois amigos nus se olharam. O velho, cuja boca mal tinha dentes quando sorriu, olhava o corpo de Teodora a cada segundo.

— Espera um minuto — falou o dono do bar, caminhando em direção à uma porta de madeira quase apodrecida próxima ao balcão.

— Tudo bem — sussurrou a mulher, que recebeu um olhar apreensivo do amigo. — Estamos bem — tentava se convencer.

— Não sei...— Lorenzo falou. — Tudo mudou tanto — disse olhando para o espaço ao seu redor. — Ele... fala espanhol, não é? Não lembro de um dia ter aprendido para entender ou falar.

Ela respirou fundo, realmente muitas coisas tinham mudado. Colocou as mãos na cintura fina, se olhando e mal reconhecendo o próprio corpo, confessou:

— Eu também não. — Teodora suspirou alto.

Ela olhou as prateleiras de madeira empoeiradas atrás do balcão, poucas garrafas estavam muito espaçadas entre si, indicando que aquele espaço não era tão frequentado.

O outro voltou com tecidos em suas mãos e os lançou para os dois antes de indicar uma sala na qual eles poderiam se vestir, como se já não estivessem despidos. A mulher abriu as roupas, velhas e amareladas, e não conseguiu evitar a careta. Lorenzo sorriu.

— Isso é horrível — reclamou a de cabelos vermelhos, lançando um olhar desgostoso ao amigo.

— Se quiser permanecer nua não será desagradável — intrometeu-se o velho, mostrando que podia ouvi-los. Enzo balançou a cabeça negativamente, estava desconfortável com aquele homem.

Dentro da pequena sala, na qual mal cabiam as mesas e cadeiras velhas empilhadas até o teto, começaram a se vestir. A mulher olhava feio sua saia entre a cintura e as canelas feita de retalhos e Enzo não conteve o riso. Contra o corpo muito branco dela, o tecido parecia ainda mais amarelo, mas ele não ousaria contar isso a Teodora, não sabia bem o porquê. Ela ficou confusa e pediu ajuda para fechar o espartilho azul claro de tamanho muito maior que ela e o amigo fez isso antes de vestir o macacão cinza acima da blusa branca, também amarelada demais. O homem apareceu na sala quando ele prendia a segunda fivela de seu macacão que notou ser igual ao do dono do local.

— Como pretendem pagar? — questionou em um tom muito menos amigável que antes. Os dois amigos, vestidos, se olharam confusos.

— Nós... — tentou o rapaz.

— Não temos como pagar — confessou a mulher. — Não temos nada, você viu. Não temos nada — repetiu.

Enzo respirou fundo. Às vezes odiava a sinceridade dela, mas nem se lembrava onde havia aprendido que essa era uma de suas características mais marcantes. E ele discordava da mulher, tinham muita coisa. Tinham um ao outro e acabado de sair do lugar mais temido por todos os habitantes da Terra. O velho fez uma careta e então passou a língua esbranquiçada pelos lábios murchos.

— Você tem... — sussurrou e olhou em direção às pernas, cobertas, de Teodora. Enzo sabia que ela se sentia ansiosa sem um manto que não fosse tão transparente e a cobrisse completamente daqueles olhares nojentos.

— Não tem — falou Lorenzo, rindo sem medo do velho, cansado de seus pensamentos nojentos. — Não tem nada para você aqui.

— Esperem — ordenou o senhor, que saiu batendo os pés em direção à parte central do bar.

Lorenzo suspirou ofegante, dedu

zindo que tinha sido uma péssima ideia entrar ali. Aquele velho asqueroso não parecia ter honra nenhuma e as coisas estavam prestes a ficar muito ruins.

— Teo... — sussurrou, lhe lançando um olhar preocupado — vamos sair daqui.

A mulher assentiu com um gesto e segurou forte sua mão esquerda, que a puxou para fora da sala. Estava muito quente, mas ele sabia que não suava pelo calor e sim pela tensão. Desafiar aquele homem foi um erro, mas Enzo não pensava em nada mais coerente. Quando estavam prestes a atravessar a porta de saída, um barulho de gatilho os fez parar. O coração dele batia acelerado e sua testa estava quente demais por um motivo que desconhecia. Os dois se viraram lentamente e enxergaram o homem com uma carabina em mãos apontada e pronto para atirar.

Merda. Enzo sentia que seu coração ultrapassaria seu peito a qualquer momento.

— Vão ter que pagar — ordenou. Lorenzo e Teodora caminharam lentamente em direção ao homem munidos de medo.

Já sabiam o que existia além da morte e não era um local para o qual gostariam de voltar. E, pior, os torturava o fato de não saberem o que aconteceria se eles morressem de novo. Ergueram as mãos em rendição.

— Agora, tire as roupas — balançava a arma para Teo.

— Por favor... — Enzo implorou, hesitante, olhando Teodora começar a soltar seu espartilho. — Não faz isso — pediu a ela.

A mulher respirou fundo enquanto os olhos nojentos do velho focavam nela sem piscar. Lorenzo, inevitavelmente, pensou em reagir. Uma vibração percorria seu corpo enquanto ele pensava no que fazer. Ofegante, cogitou que talvez aquele homem só estivesse blefando.

— A moça vem comigo — afirmou o desdentado. — Nós vamos nos divertir...

Os olhos claros e de diferentes tonalidades de Teodora encararam Enzo assustados, o que o fez tremer de medo por ela. Mais uma vez se arrependeu amargamente de terem entrado ali. Fechou a mão direita com força quando uma onda de fúria o atingiu.

— Agora — o velho gritou. Enzo o fuzilou com o olhar abaixo das grossas sobrancelhas que quase se uniamem uma só e conseguiu sentir seu punho na face daquele homem.

O dono do bar tinha cometido um erro. Não sabia que a lealdade daqueles dois ia muito além do medo de morrer. Um, de fato, se sacrificaria pelo outro sem ter a mínima chance de pensar sobre isso. Enzo tentou lembrar quando aquele sentimento havia nascido, mas não conseguia. Sabia apenas que estava ali e que não deixaria aquele desconhecido, ou nenhum outro, tocar em Teodora sem que ela quisesse.

— Não — gritou, encarando o homem com a arma em mãos na sua frente. O velho mirou no rapaz. Enzo não teve medo naquele instante. — Nós vamos embora — olhou a mulher, que parecia ainda mais assustada.

— Está com sorte hoje? — questionou o velho, dando um passo para frente e engatilhando o objeto em suas mãos.

— Para falar a verdade — suspirou –, sou o cara mais sortudo que conheço — respondeu, mesmo sabendo que aquele de chapéu não tinha a menor capacidade de entendê-lo.

— O que está fazendo? — sussurrou Teodora com pânico na voz, prevendo o que iria acontecer a seguir.

— Tudo b... — Tentou responder, mas o som soltado no momento do disparo da arma o interrompeu, assim como o tiro direto em seu peito esquerdo.

Foi lançado alguns metros para trás antes de cair de costas no chão feito com placas retangulares de madeira escura. Os olhos abertos cheios de pavor e um buraco pelo qual sangue começou a deixar seu corpo. Lorenzo levou as mãos ao ferimento, não sabia o que fazer. O grito de Teodora foi o próximo som a invadir o espaço quando seus olhos arregalados, e que deixavam lágrimas caírem ocuparam a visão dele. Ela levou a mão trêmula à boca e Enzo queria conseguir falar, mas seus lábios não se mexiam mesmo que ele se esforçasse.

Ela estava com um pavor quase maior do que estaria se fosse si mesma naquela posição. Suas mãos tremiam e seus dentes se apertaram em uma fúria que nascia no estomago e se espalhava por todos os membros.

— Enzo — segurava sua mão com força quando a visão dele começou a se embaçar e a escuridão passou a invadir tudo. Ele rezava tanto para não voltar para lá, que nem notou quando tudo realmente acabou.

Abriu os olhos em um impulso e se sentou logo depois. A visão ainda era turva e sentiu tudo girar. Teodora não estava mais ao seu lado. Olhou o sangue que tinha manchado a camiseta e o buraco do disparo, mas sem agora qualquer sinal em seu peitoral. Buscou pela amiga à sua frente e viu os cabelos com leves ondulações alcançando sua bunda enquanto Teo olhava para cima. Ela estava na parte interna do balcão e erguia o velho pelo pescoço com apenas uma mão. Enzo arregalou os olhos enquanto assistia tudo, confuso demais para impedir. Ele podia sentir a vibração do ódio dela quando Teodora passou a dar sequências de socos certeiros na face do dono do bar e sacudiu a mão direita completamente ensanguentada quando o soltou, deformado, no chão. Atônito, se sentou sobre os joelhos e a chamou:

— Teo... — sussurrou, assustado, e ela se virou com velocidade.

Em seus olhos, só existia desgosto antes que o reconhecesse. Então, as sobrancelhas relaxaram e seus lábios se abriram. O rosto manchado por um sangue que não era seu perdeu toda tensão que antes o conduzia. Lorenzo estava começando a se colocar de pé e sentia seu corpo molhado pelo seu próprio sangue, mas estava... vivo.

— Enzo? — disse baixo, em choque ao vê-lo levantar. Olhou sua própria mão, trêmula — Eu achei que você estivesse... — Teodora deu dois passos e apoiou as mãos no balcão. — Como você...

— Estou me perguntando o mesmo...— olhava a mão dela e depois encarou a perna do velho que parecia morto no chão atrás do balcão. — Eu não sei...— sussurrou, olhando o resultado de sua fúria.

— Eu achei que... — ofegante, suas sobrancelhas franziram e lágrimas que molharam seu rosto.

— Tudo bem agora — sussurrou Enzo, começando a ir até Teo. — Eu estou bem e não vou a lugar nenhum — atravessou o balcão e enxergou o velho cujos olhos estavam abertos. A real pessoa a morrer naquele fatídico dia. — Tudo bem — repetiu e abraçou-a, tentando entender o que tudo aquilo significava. Teodora aceitou o gesto e ele sentiu o peso dela quando a mulher relaxou.

De costas para as portas do bar, ele a soltou, mas a face dela refletia novamente o medo e seus olhos se arregalaram olhando para algo atrás dele. Lorenzo não entendeu e virou-se de imediato. Sua boca se abriu em um pânico avassalador. Aquele era um ser de asas negras e pele negra, portando olhos que eram amarelos como o sol e com algo que brilhava intensamente em amarelo ao redor de seu corpo. Tinha grandes chifres e uma lança dourada em mãos.

Eles haviam escapado do inferno, mas aquilo estava bem longe de ser um fim para o sofrimento eterno ao qual foram condenados. E, sequer se lembrariam com clareza o que de fato haviam acabado de presenciar. O conhecimento passado por aquele ser se repetiria dentro de suas cabeças pelos anos seguintes.

Nunca podem estar perto um do outro, os demônios os estão caçando pela eternidade.

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