“A vaga está te esperando há três anos, Elisa. É só dizer sim. A voz no telefone era calma, profunda e familiar. Era Heitor Montenegro, seu antigo mentor, agora um arquiteto de renome mundial. Uma hora antes, ela havia assinado os papéis para que seu irmão mais novo, Caio, fosse transferido para os cuidados paliativos. O tratamento experimental que poderia salvá-lo exigia um depósito de duzentos e cinquenta mil reais que ela não tinha. Suas economias tinham acabado, e sua empresa, construída do zero com seu namorado, Breno Vargas, era um sucesso, mas ele a havia bloqueado de todas as contas. Quando ela se levantou para penhorar seu relógio Rolex, uma comoção explodiu. Breno irrompeu pelas portas, amparando Daniela Chaves, que se queixava dramaticamente de um tornozelo torcido. Ele nem sequer olhou na direção dela. Ele a viu, a puxou para dentro de um almoxarifado e sibilou: "O que você está fazendo aqui? Isso tudo faz parte do plano. Estou fazendo ela pensar que venceu." Ele enfiou dois mil reais na mão dela, dizendo para ela sair antes que Daniela a visse. Ele achava que ela estava ali por dinheiro, por uma merreca. Ela deixou as notas caírem no chão. Ele era tão bom em mentir, em atuar. Ele não via sua dor, seu luto, apenas um inconveniente para seu grande esquema. Tinha acabado. Ela soube com uma certeza que era ao mesmo tempo aterrorizante e libertadora. Era hora de ir para Curitiba.”