“O zumbido fluorescente do DETRAN era a trilha sonora da minha vida entediante, até o dia em que tentei tirar a segunda via da minha carteira de motorista. - Seu estado civil. Aqui diz que você é divorciada - disse a atendente, estilhaçando meu casamento de cinco anos com Heitor Bastos com uma única e seca frase. Meu marido, Heitor, o homem que jurou me amar, havia se divorciado secretamente de mim há três anos. E não era só isso. Ele se casou no dia seguinte com Cândida Camargo, a mulher que tentou me assassinar no dia do meu casamento e me deixou infértil. E eles tinham um filho de dois anos, o Joca. Voltei para casa cambaleando, meu mundo um borrão, apenas para encontrar Heitor e Cândida discutindo na nossa sala de estar. - Eu odeio ter que fingir por causa daquela mulher patética! - Cândida gritava. Heitor, meu marido, implorava: - Eu te amo. Eu sempre te amei. O homem por quem sacrifiquei tudo, que jurou destruí-la, agora estava brincando de casinha com a minha assassina, e eu era a tola vivendo na casa dele, dormindo na cama dele, acreditando nas mentiras dele. A dor no meu abdômen, uma dor fantasma de cinco anos atrás, ardeu com força, espelhando a ferida aberta na minha alma. Eu não seria mais a vítima dele. - Hamilton - eu disse ao telefone, minha voz clara e firme. - Preciso da sua ajuda. Preciso que você me ajude a morrer.”