“O mundo voltou em um borrão de metal retorcido e o som apavorante de pneus cantando no asfalto. Em um momento, estávamos dirigindo. No seguinte, um caminhão havia furado o sinal vermelho. No banco do passageiro, com a cabeça latejando, observei meu namorado, Adriano, se apressar para confortar seu primeiro amor, Cássia, que chorava no banco de trás. Ele nem sequer olhou para mim, sua namorada de cinco anos, enquanto a ajudava a sair do carro destruído. Os paramédicos chegaram. Em meio à névoa de dor, vi Adriano pairar sobre Cássia, recusando-se a deixá-la por um segundo. Era como se eu nem estivesse mais ali. Ele não se lembrava do meu aniversário, nunca soube minha comida favorita e nunca se importou que eu fosse alérgica às flores que comprava para mim, as mesmas que Cássia amava. Eu tinha sido uma coadjuvante na história de amor deles, um tapa-buraco até que a verdadeira estrela de sua vida retornasse. Eu tinha sido obcecada por Adriano Paes, mas não era amor; era uma doença, um vínculo traumático que eu confundi com devoção. Por que eu fiz isso? Por que deixei que ele me moldasse em alguém tão submissa, tão diferente de mim? Parecia que eu estava sendo controlada por alguma força invisível, uma trama que não era minha. O feitiço se quebrou. A obsessão desapareceu. Tudo o que restou foi um sentimento frio e vazio e um desejo súbito e desesperado por outra pessoa: Kael Campos, meu amor de infância, o garoto que eu deixei para trás cinco anos atrás. Comprei a primeira passagem para o Rio de Janeiro.”