“Carreguei a primeira palavra que pronunciei em dez anos como se fosse uma oferenda sagrada, pronta para surpreender o homem que salvou minha vida. Mas, pela fresta da porta do escritório, ouvi Jonas dizer ao seu Subchefe que eu não passava de uma corda no pescoço dele. - A Grazi é um fardo - disse ele, com a voz gelada. - Não posso me tornar o Don sendo babá de uma fantasma muda. A Letícia traz poder. A Grazi não traz nada além de silêncio. Ele escolheu se casar com a Princesinha da Máfia pelas rotas comerciais do pai dela, me descartando como se eu fosse entulho. Mas a verdadeira traição não aconteceu naquele escritório. Aconteceu na mata, durante uma emboscada. Com balas voando e a lama deslizando sob nossos pés em direção a um barranco, Jonas teve que fazer uma escolha. Eu estava ferida, presa no fundo. Letícia gritava no topo do cume. Ele olhou para mim, murmurou "Sinto muito" e virou as costas. Ele puxou Letícia para a segurança para garantir sua aliança. Ele me deixou para morrer sozinha na lama congelante. Fiquei deitada lá no escuro, percebendo que o homem que jurou um pacto de sangue para me proteger havia trocado minha vida por uma cadeira política. Ele achou que o silêncio finalmente me engoliria por inteira. Ele estava errado. Eu rastejei para fora daquela cova e desapareci do mundo dele completamente. Três anos depois, voltei para a cidade, não como sua protegida quebrada, mas como uma artista de renome mundial. Quando Jonas apareceu na minha galeria, parecendo destruído e implorando por perdão, eu não usei a língua de sinais. Olhei no fundo dos olhos dele e falei. - A garota que te amava morreu naquele barranco, Jonas.”