“Por sete anos, eu fui os olhos de Dante Vitiello, o Capo cego de São Paulo. Eu o arranquei da beira da loucura, cuidei de suas feridas e aqueci sua cama quando todos os outros já tinham desistido dele. Mas no momento em que sua visão retornou, os anos de devoção viraram pó. Em um único telefonema, ele decidiu se casar com Sofia Moretti por território, me descartando como apenas "a filha da empregada" e um "consolo" que ele pretendia manter como amante. Ele me forçou a vê-lo cortejá-la. Em uma festa de gala, quando um acidente caótico fez uma torre de taças de champanhe se estilhaçar, Dante se jogou sobre Sofia para protegê-la. Ele me deixou lá, parada, sangrando com os cacos de vidro, enquanto a carregava para longe como se ela fosse de porcelana. Ele nem sequer olhou para trás, para a mulher que tinha salvado sua vida. Percebi então que eu havia adorado um deus quebrado. Eu lhe dei minha dignidade, apenas para ele me tratar como um curativo descartável agora que estava inteiro. Ele acreditava, em sua arrogância, que eu ficaria na cobertura, grata por suas migalhas. Então, enquanto ele estava fora comemorando seu noivado, eu me encontrei com a mãe dele. Assinei o acordo de rescisão por cinquenta milhões de reais. Fiz minhas malas, apaguei meu celular e embarquei em um voo só de ida para a Austrália. Quando Dante chegou em casa e encontrou uma cama vazia, percebeu seu erro e começou a virar a cidade de cabeça para baixo para me encontrar, eu já era um fantasma.”