“Eu vi meu marido, o Don mais temido de São Paulo, assinar o fim do nosso casamento com a mesma indiferença glacial que ele normalmente reservava para ordenar uma execução. A ponta da sua caneta Montblanc arranhava o papel, um som que abafava a chuva batendo na janela da cafeteria. Ele não se deu ao trabalho de ler uma única palavra. Ele achava que estava assinando manifestos de transporte de rotina para os negócios da família. Na verdade, ele estava assinando os papéis de "Dissolução de União" que eu havia escondido sob a folha de rosto. Ele estava distraído demais para verificar. Seus olhos estavam grudados em seu celular criptografado, digitando freneticamente para Sofia - a viúva, a beleza trágica, a mulher que assombrava nosso casamento há três anos. "Pronto", ele resmungou, jogando a pilha de papéis em seu SUV blindado sem sequer olhar para mim. "Negócio fechado, Helena. Vamos embora." Momentos depois, o celular dele tocou com o toque especial de emergência dela. Sua postura mudou de chefe frio para protetor frenético instantaneamente. "Motorista, desvie. Ela precisa de mim", ele rugiu. Ele me olhou com zero afeto e ordenou: "Saia, Helena. O Luca te leva para casa." Ele me chutou para fora do carro na chuva torrencial para correr para sua amante, completamente inconsciente de que acabara de me conceder legalmente a minha liberdade. Eu fiquei na calçada, tremendo, mas sorrindo pela primeira vez em anos. Quando o Don perceber que acabou de assinar o próprio divórcio, eu serei um fantasma em Florianópolis. E ele não terá nada além de seus registros de carga e seu arrependimento.”