o de dois cômodos que cheirava sempre a café e a pão do dia anterior. A casa ficava no fim de um beco sem saída, apertada entre outras duas iguais, com uma por
ma máquina Singer antiga, herdada de ninguém - comprada, dizia ela, "com o suor de muito mês apertado" -, que rodava até tarde da noite, ajustando bainhas, remendando t
mesma pressa que Beatriz Vilaça mudava de assunto quando o tema era sonhos. Havia, na casa deles, um álbum de fotos fino demais para uma vida inteira - poucas páginas, poucas imagens, quase ne
luxo para existir. Rosa dava duro para pagar as contas, mas nunca deixou faltar carinho. Nos aniversários, mesmo quando o dinheiro era curto, aparecia sempre um bolo simples, feito em casa, com uma vela emprestada da vizin
ro, sempre que ele passava numa prova, sempre sem motivo aparente algum. Dizia isso ao v
a ele. Só mais tarde entenderia o quanto aquelas palavras eram, na verdade, literais - não uma figura de linguagem, mas um
a lidar com motores emperrados. Ademar tinha assumido Noah como aprendiz aos catorze anos, quando o garoto apareceu perguntando se havia algum serviço - varrer o chão, carregar peças, qualquer coisa - em troc
dele com a força de quem não sabe medir a própria mão. - Um dia aind
r - respondia Noah, sério. - Foi aq
uia comprar no sebo perto de casa - livros com páginas amareladas, anotações de outros estudantes nas margens, capas remendadas com fita adesiva. Estudava na mesa da cozinh
sempre, sempre, uma conversa boa para acompanhar. Mas havia também, escondido bem no fundo, um peso que ele nunca soube nomear - uma sensação estranha, antiga, de que faltava algo em sua história, uma peça que ele não sabia
na, olhos redondos, cabelo crespo que ela prendia num coque simples desde que Noah tinha memória. Noah era alto, de traços mais finos, olhos claros que destoav
endeu a não questionar. Era o único assunto diante do qual a voz sempre firme de Rosa va
dona Efigênia, que certa vez, tomando café na varanda, disse baixinho para outra vizinha "que menino bonito esse, nem parece ser filho da Rosa", e riu, sem perceber que Noah, senta
três vezes na pia dos fundos. O céu estava daquele azul quase alaranjado que só aparece no fim das tardes de fim de inverno, e Noah sentiu vontade de
ga que dava sombra havia mais tempo do que qualquer morador do bairro conseguia lembrar. Era ali que ele organizava os pensamentos, que planejava o pr
a viu pela
eiro, sentada na outra ponta do banco, olhando para os pombos com uma expressão que ele reconheceu de imediato - a expressão de quem está, pela primeira vez em muito tempo, resp
e motor, não de gente". Talvez fosse a forma como ela sorria sozinha, sem perceber que estava sendo observada, um sorriso pequeno e genuíno direcionado
dois palmos mais perto, num tom leve, quase sem pensar
nha ouvido - nada da risada contida e educada que ele imaginava ser padrão em famílias como a que a roupa del
de praça haviam sido trocados havia dezoito anos, numa noite de hospital que nenhum dos
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