“ACORDO DESNORTEADO E SENTINDO COMO SE MINHA CABEÇA fosse explodir. Recuso-me a abrir os olhos, mas a fresta de luz atravessando o vão, entre as cortinas da janela em meu quarto, vem direto aos meus olhos. Eu gemo e viro para o outro lado. Mas o martelar em minha cabeça é tão forte que dificilmente conseguiria dormir outra vez. Raramente eu bebo. Um estudante de Medicina não tem tempo para esses luxos. O curso é cansativo e requer muito empenho e dedicação. Eu só me permito relaxar nas férias. O que não vem sendo algo fácil, também. Minha vida tem sido uma grande merda. Culpa disso é Cecília, noiva do meu irmão. Crescemos praticamente juntos. O quarteto feliz: Adam, Katty, Cecilia e eu. Nunca a tinha visto além de uma irmã, e o sentimento só se confirmou quando me rendi às suas investidas e fomos para a cama uma vez. Achei que Adam também não nutrisse nenhum sentimento por ela, além de amizade. Foi um choque voltar para casa no semestre passado e descobrir que estavam noivos. Ele não a amava, disso tenho certeza. Não dessa forma. Acho que Adam só estava acostumado à brincadeira que nossos pais faziam quando éramos jovens, de casar os dois. Na verdade, foi a mãe dela a impulsionar essa ideia absurda. Nunca vi mal nisso, até agora. E deixaria tudo quieto se, há dois dias, Cecilia não tivesse me procurado chorando e confessado, outra vez, que na verdade me ama. Que o namoro com Adam foi apenas uma tentativa de chamar minha atenção.”