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QUEBRANDO BARREIRAS

QUEBRANDO BARREIRAS

lucystar

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41
Capítulo

Eu só coloquei esse livro como FANTASIA porque ele se trata de uma loucura de uma fã enlouquecida e apaixonada há quase cinquenta anos por um cantor pop conhecidíssimo mundialmente que vocês só saberão quem é se lerem e depois vão me ajudar a decidir se devo continuar com essa sandice ou se não. Já adianto que cinquenta por cento do que vão ler É FICÇÃO e o resto é a verdade que eu conheço dele. Vamos ler?

Capítulo 1
QUEBRANDO BARREIRAS

Oi, estou aqui de novo!

Sou Velucy.

Eu não sei se vocês perceberam que eu sou bem antiga. Nasci na década de quase 60, finzinho de 59.

Minha adolescência foi vivida na década de setenta, oitenta e afins. Meu gosto pela música foi baseado nos gênios dessas décadas que foram muitos, de "Beatles", que meu tio curtia, a "The Monkeys", um pouquinho de "Elvis Presley" que minha mãe amava e por aí vai...

Mas em 1972 (eu tinha doze anos) eu fui apresentada a um cara que tinha tudo pra ser rejeitado por mim. Eu era atraída pelos gatinhos da vez, claro, não era besta nem nada. Eu tinha um gosto bem apurado por meninos TDB, como o Marco Antônio e outros personagens meus que vocês já conhecem.

Mas o Elton, apesar de meus olhos adolescentes virem um gatinho na foto da revista, não era assim... bem um gatinho. Ele era mais um ursinho de pelúcia inglês, loiro de cabelos compridos.

Resumindo: esse cara virou a minha vida de cabeça pra baixo e eu me apaixonei por ele e pelas suas músicas de maneira quase mágica. Eu passei a reconhecê-lo pelo toque no piano (que ele tocava e toca magistralmente), mesmo sem conhecer a canção que ouvia pela primeira vez no rádio!

Eu estava maluca? Com absoluta certeza! E essa insanidade dura até hoje, senhoras e senhores!

No final da década de setenta, eu já tinha dez pastas catálogo pretas cheinhas de fotos e recortes dele de tudo quanto era tipo. Todos os discos (comprei cinco de uma vez só, por uma ninharia de alguém que não os queria mais, por não ter mais nas lojas), trocentas revistas Bizz, Contigo e toda revista adolescente de música pop que saísse aqui no Brasil que tivesse a cara dele estampada.

Como eu comecei a escrever em 70 por conselho da minha professora do quarto ano primário, e eu já tinha pegado gosto pela coisa, tive a mirabolante ideia de começar a escrever a história... dele!

E lá fui eu! Reuni em sequência, depois de um ano ou mais de pesquisa acirrada, os fatos mais relevantes da vida dele e comecei a escrever a biografia super não autorizada de Elton Hercules John e seu parceiro lindo (Bernie Taupin era lindo mesmo, gente!) Bernard John Taupin, que já era casado com 21 anos!

Resumindo de novo: escrevi o “Torre de Babel”, que é o nome de uma canção deles de 1975, “Tower of Babel” (vão na internet e pesquisem, vale a pena!). E ele foi finalizado e editado na década de oitenta. Ele conta a história do Elton de 1947 até o ano de 1977. E por tabela, a do Bernie também!

O que eu vou postar agora é a confirmação da loucura que eu fiz depois. Escrevi a continuação do “Torre” de 1977 até os últimos tempos, ou seja, 2019. Ele se chama “Quebrando Barreiras” (“Breaking down Barriers”) que é uma canção dele, Elton, de 1981.

Quer enlouquecer comigo?

Então vem... e depois me ajudem a decidir se devo continuar com essa loucura ou não, se devo parar. Vai depender só de vocês.

*************************************

QUEBRANDO BARREIRAS (QB) - RESSURREIÇÃO - CAPÍTULO 1

...Alguém está com problemas em algum lugar esta noite...

... O vento levou para longe todas as notícias de ontem...

***

Nigel Olson jogou o jornal do dia sobre o colo de Bernie e perguntou:

- Já leu?

Estavam no apartamento de Bernie Taupin, em Los Angeles. Um lugar amplo e aconchegante que ele havia escolhido para viver sozinho, já que estava apaixonado pela cidade de Los Angeles e havia se separado de Maxine Fiebelman já há quase três anos.

Era Novembro de 1977, o dia seguinte do show de Elton John em Wembley, Inglaterra, que ele havia anunciado ser seu último, depois de oito anos de carreira.

Bernie, sentado no sofá com os pés sobre a mesa de centro, abriu o jornal e leu a manchete em letras grandes “Elton John dá seu último show no estádio de Wembley, Inglaterra!” O letrista deu um suspiro e olhou para Nigel com a mesma tranquilidade anterior como se não percebesse a intenção do baterista.

- Já, respondeu sério.

- Só? - perguntou Nigel, esperando complemento.

- A manhã inteira eu fiquei ouvindo isso nas FMs e na TV e, se eu não tivesse ouvido, a população inteira de Los Angeles e da América teria me telefonado ou vindo tocar minha campainha pra me avisar.

- Ele não pode levar isso a sério, cara... disse Nigel, olhando com tristeza para a manchete no jornal.

- Eu acho bom que ele leve, disse Bernie, levantando-se, ainda tranquilamente. - Quer beber alguma coisa?

A frieza do letrista deixou Nigel perplexo.

- Um pouco do tranquilizante que você tomou! Você está bem?

Bernie esboçou um leve sorriso cínico e não respondeu imediatamente. Foi até o bar, preparou duas bebidas e voltou para junto de Nigel, que havia se sentado numa poltrona. Entregou um dos copos a ele, sentou-se no mesmo lugar onde estava antes e perguntou:

- Que é que você quer que eu faça? Chore?

- Não é isso, mas pelo menos...

O letrista o interrompeu:

- Nigel, o Elton já fez esse tipo de coisa outras vezes e não cumpriu. Tem que parar com isso! Se fez isso só pra se promover de novo, vai quebrar a cara. Ele não está com essa bola toda dessa vez.

- Agora ele não tem mais você... disse Nigel quase que para si mesmo.

Tomando um gole da bebida que tinha na mão, Bernie continuou:

- A menos que ele encontre outro letrista, não vai ter como manter mais uma gracinha com a imprensa, falou esboçando um suspiro olhando para o líquido no copo. - Acho que dessa vez é sério...

Deu uma risada quase sem querer e levantou-se de novo indo até a janela e olhando para a vista do mar que ficava do outro lado da avenida em frente ao prédio. Depois ficou sério de novo.

- Não estou te entendendo, disse Nigel. - Isso quer dizer...

O letrista voltou para perto dele e sentou-se na mesinha diante de Nigel.

- Para de me olhar como se eu estivesse matando minha mãe, por favor. Eu imagino o que deve estar se passando por esta cabecinha maravilhosa, batera... mas eu já levei tanta cacetada da vida nestes últimos dois anos que o sentimento que me fazia sentir pena de quem quer que fosse simplesmente... secou.

Uma ruga de espanto apareceu na testa de Nigel que ficou sem saber o que falar.

- Eu não sei mais nem sentir pena de mim mesmo, Nigel. Se eu fizer isso... eu volto a um, dois anos atrás... que era como eu me sentia.

- Foram os melhores anos pra vocês... pelo menos profissionalmente. Eu pensei que tivesse sido uma época boa...

- Boa demais! Foi maravilhoso! Foi uma viagem com a melhor cocaína que você pode provar na vida, amigo... mas sabe o que acontece depois que você volta dessa viagem?

- Você ficar pior que antes...

- É isso aí, Bernie disse, erguendo-se e voltando para a janela. - Se eu voltar a sentir pena... ou ser bonzinho com os outros e... principalmente com o Elton, eu vou cair no velho 67 novamente e seria ridículo, já que estamos em setenta e sete.

- Não estou te pedindo para sentir pena dele nem ser bonzinho, só que... vocês são amigos quase irmãos, poxa!

- Tá, você quer que eu faça o quê?! Que vá até lá e peça pra ele não fazer isso, me candidate novamente a letrista dele como fiz com Reg Dwight e comece tudo de novo? Pois bem... Eu sinto muito, sinto tanto quanto você ou qualquer um que tenha estado na vida do Capitão Fantástico desde o Troubadour/70. Imagino como deve ter sido horrível pra ele tomar uma decisão assim, abertamente, em frente ao público dele. Só que eu não consigo ter pena disso, mesmo que eu queira. Se eu estivesse lá, no Wembley, teria sido o primeiro e o único a me levantar e aplaudir Elton John por essa decisão. Fique certo, amigo, seria o aplauso mais sincero que eu teria dado a ele em toda minha vida... como letrista e como amigo/irmão dele...

- Então ele fez bem na sua opinião?

Bernie ficou olhando para ele por alguns segundos e respondeu, balançando a cabeça afirmativamente.

Nigel respirou fundo e ficou olhando para o copo, depois, ergueu a cabeça e falou:

- Pode parecer contraditório, mas... começo a achar que você tem razão...

Bernie sorriu.

- Gente inteligente costuma se contradizer com mais frequência porque tem capacidade de pensar pra trás, além de pra frente, sabia? E você ama o Elton, apesar do que ele fez pra você e pro Dee e... fez e faz parte da família dele. Sabe o que é melhor praquele porra louca.

Nigel sorriu embora achasse estranho o jeito de Bernie se referir ao amigo e completou:

- Eu penso nele às vezes como fã. Eu admiro e curto o Elton demais... Estou magoado com ele sim, mas...

- Eu sei.

- E você?

Bernie baixou os olhos e ficou em silêncio olhando as pontas das botas de couro. Nigel, não ouvindo resposta, continuou para provocá-lo:

- Eu não sei se voltaria a ser baterista dele com outro letrista...

Bernie ergueu os olhos para ele rapidamente e exclamou:

- Que é isso? Pelo amor de Deus, não estou ouvindo isso do profissional Nigel Olsson!

- Porque eu não acredito que ele queira ter outro...

Bernie falou em voz baixa:

- Ele vai encontrar um em cada esquina de Londres ou de Nova Yorque ou de Pequim, se procurar... E vai voltar com mais força e melhor do que antes porque talento não acaba com ingestão de álcool ou drogas... eu sou prova viva disso. E talento ele tem de sobra. Você ainda vai ver e me dar razão.

Nigel sorriu e colocou as duas mãos nos ombros dele, olhando-o bem nos olhos.

- É esse o Bernie Taupin que eu conheço e sei que ele torce por Elton John!

Bernie fechou os olhos e mordeu o lábio inferior com vontade de proferir um palavrão.

- Eu tenho que parar de receber na minha casa o fã-clube desse cara!

Nigel afastou-se dele e correu para a porta apanhando a jaqueta em cima do sofá no caminho, depois voltou e completou, sorrindo:

- Nós somos mais fortes! Já imaginou como está a cabeça deles? Um ano e meio sem um álbum novo, sem uma notícia a não ser essa bomba de ontem?...

- Vou te dar um soco no nariz, se você não parar com isso, Nigel! - falou Bernie, fingindo zanga.

Ainda rindo, Nigel já na porta de saída, continuou:

- Já estou indo, calma!

- Não estou te mandando embora.

- Eu sei, mas tenho que ir. Vou voltar pra Londres amanhã, no avião das sete! E você? Quando volta pra Inglaterra?

- Eu? Sei lá... Nunca, pode ser?

Ainda na porta, segurando a maçaneta, Nigel quis saber:

- Eu não entendi ainda. Por que você está nesse apartamento, sem tem uma casa linda em Beverly Hills?

Bernie baixou os olhos novamente e depois respondeu, olhando em volta:

- Também estou esperando alguém que me explique. Aquela casa me traz fantasmas antigos. Lembranças que eu não quero ter.

- Ainda pensa nela?

O letrista sentou-se no braço de uma poltrona e respondeu:

- O tempo todo... mas não como antes. Não tenho mais o direito de estar... apaixonado. Ela tem... outra pessoa na cama agora, esqueceu? Foi ela que me deixou. Depois de um ano e meio já deu pra arrancar muita coisa daqui de dentro. E talvez não ter voltado a Lincoln novamente e não ter voltado à casa de Beverly Hills tenha ajudado um pouco. Ter ficado nômade por um tempo deve ter me feito bem. Mas não é lembrar de Maxine que me faz mal... É lembrar das coisas que eu passei naquela época. Trabalhar em dois álbuns do lado... do Passarelli fingindo que estava tudo bem, querendo matá-lo... sendo que ele nem tinha tanta culpa. Foi escolha dela.

- Há coisas que você não pôde evitar... ou pôde?

- Não... falou Bernie com um suspiro. - Mas eu não quero mais pensar nisso, Nigel. Ela está em outra e deve estar bem e eu estou tentando ficar do mesmo jeito pra poder encontrar com ela na rua e dizer “oi” sem lembrar que a gente já colocou uma argolinha no dedo da mão esquerda que acabou me enforcando...

O baterista suspirou longamente e como se acordando, disse:

- Isso me dá uma vontade de voltar pra minha! Vou nessa! Estou indo ver o Elton, quer notícias dele?

Bernie deu de ombros e meio displicente falou:

- Ele não quer saber de mim... Vou retribuir o desejo.

Nigel voltou para perto dele, estendeu a mão que Bernie apertou, e pediu a sério agora:

- Te cuida, garoto. Juízo... e você sabe do que eu estou falando...

Bernie sorriu.

- Pode deixar, já plantei uma mudinha dele no canteiro da minha sacada. Cada vez que chegou lá e me dá vontade de pular, eu como uma folhinha e a vontade passa.

- Piada sem graça! Tchau, amigo!

- Tchau, batera! Manda um sinal de fumaça quando chegar lá.

Nigel sorriu, assentindo e saiu em seguida.

*****************************************************

Bernie fechou a porta, olhou em volta do apartamento pensativo e disse a si mesmo:

- Já estou cheio disso aqui também! Estou com saudade do meu rancho...

Foi até o bar e pegou uma bebida e um cigarro. O telefone tocou. Atendeu:

- Clínica de Reabilitação White Powder! - brincou com um riso cínico.

- Pensei que estava em Los Angeles, disse uma voz bonita e tranquila de mulher do outro lado.

- Foi inaugurado ontem... continuou ele, não reconhecendo a voz, mas gostando do que ouvia. - Quem fala? Loree?

- Já esqueceu minha voz?

- Você não é a Loree...

Ele deitou-se no sofá, querendo ouvir aquela voz a tarde inteira.

- Quem é Loree?

- Quem é você?

- Estou muito ofendida. Conversei com você no lançamento do “It’s a little bit funny! seu livro não faz nem seis meses!

- Não era meu livro...

- Do Elton John, mas vocês não são parceiros? As letras nele são suas, não são?

Bernie pensou um pouco e não respondeu.

- Você está aí ainda? Não vai adivinhar quem sou eu?

Ele coçou a ponta do nariz e arriscou:

- Repórter da Rolling Stone?

- Não... ela disse provocativa.

- Caroline de Mônaco? – ele brincou.

- Hum... Errou de novo.

- Branca de Neve? - perguntou sorrindo.

Ela riu também do outro lado.

- Ela costuma ligar pra você também?

- Com a sorte que eu estou, só depois de tentar alguma coisa com cada um dos sete anões. Se bem que eu me acho mais bonito e mais alto que eles, mas... Ah, desisto! Quem está falando?

- Toni Russo!

- Toni... Russo... Toni Russo! A irmã da Renné! Claro! Eu pensei que aquilo tivesse sido só uma nuvem azul que passou pelo meu céu cinzento. Oi!

- Que lindo isso! Digno de um poeta, mas você esqueceu que deu seu telefone pra nuvem azul depois que a deixou no hotel?

- Dei, é? - ele perguntou, cínico de novo.

- E pediu pra ela ligar.

- Pedi sim. Desculpa a brincadeira. É muito bom ouvir sua voz novamente. Eu estava pensando... no que ia fazer com o resto da minha tarde... Podíamos fazer o mesmo programa do 1º. de novembro, pelo resto da tarde, que tal?

- Com a diferença de que estamos em Los Angeles...

- Maravilhosa diferença! O que você está fazendo aqui. Você não mora em Nova Yorque?

- Trabalhando. Sou modelo, esqueceu? Você soube do último show do Elton?

Bernie fechou os olhos e respirou fundo, mudando de humor.

- Toni...

- Hum?

- Por telefone não, por favor. Fala onde você está e eu te apanho em... uma hora, disse, consultando o relógio.

- Esse assunto te aborrece, não é? Perdão!

- Não, não, não me aborrece, mas não é meu assunto favorito... Dá pra entender? Nem eu estou sabendo direito o que está acontecendo com o Elton...

- Ok, desculpe. Mas... quem é Loree?

- Minha... namorada.

- Hum... Você não disse que tinha namorada no lançamento do livro.

- Eu não disse muita coisa pra você naquele dia.

- Acho melhor deixar o segundo 1º. de novembro pra depois então...

- Não! Se eu dei a ideia é porque não tem problema nenhum.

- Ela não vai se incomodar? Isso não seria muito... ortodoxo...

- Ela está na Inglaterra...

- Mas ela ainda existe... na Inglaterra. Você costuma fazer essas coisas só por estar longe dela?

Bernie pensou e viu que ela tinha razão, mas como há vários meses não falava com Loree, deu-se o benefício da dúvida.

- A gente não está mais junto há algum tempo...

- Certeza? Você disse com tanta certeza que ela era sua namorada.

- Não tem nada muito concreto na minha vida ultimamente, Toni. Como a gente faz?

- Eu passo aí pra te pegar?

- Mas... você sabe onde eu estou? - estranhou ele.

- E você acha que um dia vai conseguir se esconder do mundo, Bernie Taupin?

- Bem, eu esperava pelo menos...

- Do mundo, da imprensa, dos paparazzi, quem sabe, das mulheres, nunca!

- Olha, se você tinha intenção de levantar meu astral, garota, conseguiu!

- Posso ganhar aplausos por isso no futuro, garoto! Até já!

Ela desligou o telefone, Bernie fez o mesmo e apoiou o rosto na mão, pensativo. Deu um leve sorriso e balançou a cabeça.

- Desta vez, a culpa não foi minha...

Foi até o bar de novo e apoiou-se nele. Atrás do bar havia um espelho grande e Bernie olhou-se passando a mão no rosto.

- Que diabo! Vinte e sete anos, homem! Você ainda não está senil! Loree... depois a gente conversa...

Correu para o closet para trocar de roupa e foi fazer a barba. Toni estaria ali em pouco tempo.

**********************************************************

Elton John havia feito seu “último concerto” naquele 1º de novembro.

Sem dúvida aquela notícia repercutiria estrondosamente em todo cenário artístico e seria o marco de várias mudanças para música na década de setenta. Se, há dez anos passados, ele estava subindo os primeiros degraus em direção ao enriquecimento do som no mundo, naquele novembro poderia estar abrindo caminho para outros jovens como Reg Dwight, enquanto fechava seus próprios caminhos.

O fato era que ele precisava urgentemente parar para se encontrar profissionalmente e descobrir novos valores dentro de si mesmo. A crítica não estava facilitando essa busca ao enriquecimento moral que, como ser humano, Elton estava precisando desesperadamente. Quanto mais aumentava seu desejo de se sentir menos falado, menos em evidência, mais o colocavam na berlinda e criticavam seus atos como se ele não tivesse mais direito de agir como pessoa, como gente.

Só o próprio Elton poderia dizer o significado daquele último concerto, e só ele poderia avaliar o que aquele último show significaria para o resto de sua vida como astro pop da música internacional, já dezenas de vezes consagrado.

Quem acompanhou toda a jornada de Elton John no cenário artístico e notou sua importância como músico e como “showman”, sabia que não iria ser fácil sair de cena, como não havia sido fácil entrar.

Elton passou o resto daquele setenta e sete trancado em sua mansão londrina. Queria se isolar ao máximo e evitar o contato com qualquer tipo de coisa que pudesse lembrá-lo de que era um astro.

As poucas vezes em que saiu de casa, foi para ir ao Watford, onde passava horas treinando com os atletas, jogando ou mesmo discutindo com os dirigentes sobre o futuro do time, tornando verdade as manchetes que diziam que Elton John estava afastando definitivamente dos palcos para se dedicar exclusivamente ao futebol.

A vaidade sempre foi tida como uma das grandes características da mulher. Ela faz parte do mundo feminino como o Código Penal faz parte da vida de um advogado. No homem, a vaidade talvez exerça uma influência ainda mais forte, justamente por não ser tão comum.

Elton começava a tentar mudar de visual e mostrava nitidamente que ele tinha necessidade urgente de satisfazer sua vaidade. Se, antes, era engraçado usar botas tremendamente altas, óculos absurdamente estranhos, roupas extravagantes, coloridas e audaciosas e toda a fantasia própria de um palhaço pop, agora, toda confusão criada pela súbita depois de quase dois anos de afastamento o faziam querer mudar por fora.

Primeiro foram as roupas, agora mais contidas e sóbrias, depois os óculos que foram substituídos por lentes. Surgiu então um novo problema: o exagero com o uso de tinturas de cabelo no início da carreira haviam lhe causado problemas e a calvície começava a amedrontá-lo e já o apavorava perceber que estava ficando precocemente calvo!

A calvície fere a vaidade de um homem de um modo crucial e Elton estava decidido a livrar-se dela o mais rápido possível. Tentou o implante.

Submeteu-se a duas operações de uma hora e meia cada, em Paris. Depois disso, era só esperar os resultados.

Para manter a forma, passou a cuidar mais de sua saúde e policiar-se na alimentação. Um rigoroso regime e menos álcool, o tornaram mais elegante e mais leve. Mas, apesar de tudo isso, a apatia não o deixava. Teve até um começo de bulimia e as coisas pareciam não ter muito sentido.

No entanto, ele pretendia ainda continuar gravando. A ideia de Clive Franks, produtor da Frank N. Stein Productions de levantar Elton John, musicalmente falando, havia surtido algum efeito.

Elton havia entrado em contado com Gary Osborne, um cantor inglês que também compunha muito bem e sempre fora muito ligado à música, fazendo traduções de várias canções sob encomenda para vários cantores de várias línguas para o inglês. Ambos, ele e Elton, estavam preparando um lote de canções a serem gravadas no início do ano seguinte (78) e, em casa ou nos estúdios da Rocket Records, sua gravadora, criada no começo da década, Elton trabalhava com as letras de Osborne, que não tinham menos força que as de Bernie, sendo apenas um pouco mais românticas, falavam de decepções de amor, solidão e saudade. Seu modo de colaboração era diferente do que Elton tinha com Bernie. Elton desta vez fazia o contrário do que fazia com Bernie: passava canções já feitas por ele para que Gary colocasse a letra. Gary havia captado mais ou menos as emoções de Elton e isso ajudava bastante.

Houve tentativas frustradas de Elton no que se referia a escrita de letras. Ele compôs alguma coisa, mas não gostou do que escreveu. Seu enorme talento para as notas musicais não dava margens às palavras e ele ficava impaciente e frustrado com isso.

Certa tarde, após mais uma tentativa de escrever um conjunto de versos, num dos estúdios da Rocket, ele amassou a folha e a jogou longe, com raiva. Esfregou os olhos, levantou-se e foi ligar o tape com a canção “Shine on Trough” que ele havia gravado no mês de outubro na sessão com Thom Bell. Voltou ao banco e sentou-se, encostando a cabeça sobre os braços cruzados apoiados no piano.

A canção triste não animava nada, mas ele parecia estar curtindo uma tristeza tão grande que mesmo ela não ultrapassava a depressão. Ele andava bebendo muito ainda quando ficava sozinho, mas isso aliado ao consumo de drogas o mantinha alerta e sempre acordado, mas não menos deprimido.

Gary entrou no estúdio. Ao vê-lo de cabeça baixa, tão desolado, ia sair, mas algo lhe pediu para ficar e conversar com Elton. Sentia que era essa a sua missão ao se aproximar do velho amigo. Aproximou-se do piano e arriscou:

- Posso ajudar?

Elton levantou a cabeça rapidamente e olhou para ele.

- Algum problema? - Gary perguntou.

- Não... Elton respondeu com um leve sorriso. - Estava só ouvindo a música...

- Ficou bárbara.

- É, ficou.

- Você está aqui há um tempão. Não cansa?

- Cansa... quando eu não consigo criar nada. Às vezes, dá um branco no cérebro e parece que nunca mais eu vou conseguir fazer mais nada em se tratando de música... disse ele, olhando para o teclado do sintetizador. - É uma sensação tão ruim.

- Bloqueio... disse Gary, apoiando no piano. – Se você parasse um pouco de beber, não ajudaria?

Elton olhou para ele e intimamente concordou, mas não deu o braço a torcer.

- Preciso ficar ligado...

- Eu nunca imaginei isso acontecendo com você.

- Ninguém é perfeito... Elton disse, sorrindo sem jeito, dedilhando algumas notas a esmo.

- Bloqueios acontecem quando a gente não quer aceitar alguma coisa que interfere na criação... e geralmente isso vem de fora, é externo.

- Será?

- Eu... ouvi a música que você colocou em “Ego", do Bernie... É... uma crítica pra você, não é?

- Não... respondeu Elton, ainda olhando para o teclado, meio incomodado com o rumo que a conversa tinha tomado. – Ela foi uma crítica sim, mas... a vários caras que chegam ao mundo da fama e se acham maiores do que todo mundo. Bowie... Sedaca... Gente que não consegue viver sem ser paparicado pela mídia. É uma letra que ele escreveu em cima da música já feita. Uma das letras mais especiais que ele já fez pra mim.

- Errei então... A letra parece muito com você.

- É assim que você me vê?

- O Bernie vem passando mensagens subliminares pra você há tanto tempo que eu pensei...

- Pra quem não tem disco nenhum meu em casa, você está bem informado.

- Eu tenho o “Good bye yellow brick road". Não é o seu melhor álbum? Nele a própria música título diz muito.

Gary começou a cantar, com sua voz doce:

- “When are you gonna come down? When are you going to land? I should have stayed on the farm. I should have listened to my old man. You know you can't hold me forever. I didn't sign up with you. I'm not a present for your friends to open. This boy's too young to be singing the blues”. (“Quando você vai descer? Quando você vai aterrisar? Eu devia ter ficado na fazenda. Devia ter ouvido meu velho. Você sabe que não pode me segurar pra sempre. Eu não assinei nenhum contrato com você. Não sou um presente pros seus amigos abrirem. Esse garoto é muito jovem pra estar cantando o blues.")

Elton sentiu-se incomodado ao ouvir a canção que já havia cantado mais de mil vezes no palco.

- Eu odeio essa música... sussurrou.

- E musicou por quê? Por autopunição ou... porque musicar letras do Bernie é instintivo... fácil? - perguntou Gary, quase correndo dali, pois sabia que tinha ido muito longe com aquele tema que ainda deixava Elton constrangido.

Elton fechou as mãos sobre o teclado, soltou um longo suspiro e olhou para ele, respondendo em um tom de voz baixo, pois não queria ser grosseiro com Gary. Foi uma promessa que tinha feito a ele antes de iniciarem aquela colaboração. Gary queria ajudá-lo, mas não seria rebaixado pelos maus humores de Elton.

- Por respeito a ele e... eu estava muito doido naquele dia. Nem pensei muito no que ela significava. Eu nunca penso no que as letras do Bernie dizem. Só faço as músicas pra elas como se isso fosse a coisa mais natural do mundo pra mim... É automático... instintivo...

- Fácil...

- Muito fácil.

- Sem bloqueios...

Elton ficou calado e levantou-se, foi até o painel e desligou o tape; depois, voltou-se para Gary e continuou em tom ainda mais grave.

- Meu bloqueio não é por causa de letras ou do Bernie ou suas, Gary. É por causa das minhas letras, porque eu não consigo compor nada que valha a pena. Não consigo escrever letras. E isso me frustra, me deixa... nervoso. Eu não tenho o dom pra isso, como ele tinha... ou aliás, tem.

Elton voltou a sentar-se ao piano e continuou.

- Nosso jeito de trabalhar é diferente. Você já fez as músicas quando eu coloco as letras... Não dá pra ter bloqueio. Você não gostaria de fazer a música, se eu te desse uma letra minha?

- Eu gosto do que você escreve, gosto um bocado... O tipo de emoção que você me passa é diferente, mas... isso não significa que eu não tenha facilidade de compor em cima de suas letras como tinha com as dele.

- Desculpe, disse Gary. - Eu pensei que...

- Vamos esquecer um pouco Bernie Taupin, ok? Eu já tenho problemas demais, pra enfrentar mais este. Vocês não são rivais. Ninguém está aqui competindo com ninguém... entendeu. Quero seu apoio nessa ideia, ok?

- Não precisa nem pedir, falou Gary, sorrindo.

- Eu sei que não, Elton continuou, dedilhando no teclado o início de “Ego”. - Eu vou gravar “Ego”, como vou gravar “I cry at night”, que ele também compôs pra mim, há um tempo atrás, mas elas não vão se misturar com meu trabalho com você. O álbum que vai ser gravado no final do mês que vem vai ter só Elton John e Gary Osborne. “Ego” vai ser um compacto.

- “I cry at night” como lado B?

- Não sei ainda. Ele está lá em Los Angeles e não tem me mandado nada...

- Não vai ter nada dele no álbum?

- Acho que não... Se o Bernie está zangadinho... pior pra ele. Esse álbum vai ser um chute no traseiro dele.

Elton bebeu o resto de vodca que havia no copo sobre o piano.

- Nisso eu penso depois com o Clive ou ele vê o que faz, não sei... disse ele pensativo, olhando a partitura sobre o piano e coçando a nuca.

Gary foi pegar a guitarra, que ele tocava também, além de cantar, e sentou-se na banqueta da bateria, dedilhando algumas notas a esmo.

- É verdade que você vai ao Rio de Janeiro em fevereiro? - perguntou meio que só para puxar conversa, já que o clima tinha ficado meio tenso.

- Acho que sim... respondeu Elton, acertando alguma nota na partitura.

- Vai te fazer bem, alguma coisa diferente assim.

- Espero... o cantor continuou, ainda distante.

Clive Franks e John Reid, o empresário de Elton, entraram no estúdio momentos depois.

- Que caras fúnebres! - exclamou Clive. - Gary, não anda sendo bom negócio ficar perto do Elton ultimamente. Ele é uma injeção de desânimo na veia de qualquer mortal.

- Só não consigo atingir você, falou Elton.

- Claro que não! Eu sou a estaca que te põe e mantém em pé! - brincou ele, animado, apoiando-se nos ombros de Elton com todo o peso do corpo, para acorda-lo.

- Muito nobre, Clive. Minha vida em suas mãos. John, vou mudar de empresário.

John franziu as sobrancelhas e colocou a valise sobre o sintetizador, dando um sorrisinho sem graça, mas sem dizer palavra. Foi sentar-se numa poltrona do outro lado do estúdio.

- Como vão indo as canções? - perguntou Clive, esfregando as mãos, animado, olhando a partitura por cima do ombro de Elton.

- Gozando de boa saúde. Acho que já dá pra começar a gravar o álbum, no final do mês que vem.

- Isso é ótimo! - disse o produtor, apanhando a partitura nas mãos.

- Tão perto da viagem ao Brasil? - John perguntou. - Você vai chegar lá...

- Cansado, Elton completou. - Mas é pra isso que eu vou pra lá, pra descansar e espero que você tenha providenciado o maior sigilo possível. Não quero ninguém atrás de mim todo o tempo que eu estiver lá.

- Eu fiz o possível, mas não sei se vai ser fácil pra você, passar despercebido num país onde fez e faz um sucesso enorme ainda hoje.

- Fazia!

- Você é que pensa! “Greatest Hits II” estourou lá, o “Here and There” também. “Skyline Pigeon” faz sucesso lá, até hoje! Você não está morto, meu caro, só está apagado, fechado para balanço. Sempre será Elton John, queira você ou não, descendo do avião no aeroporto internacional do Rio de Janeiro.

- Também acho, comentou Gary.

- Contrataram guarda-costas brasileiros pra te acompanhar o tempo todo, além dos nossos seguranças.

Elton olhou para Clive e fez um ar divertido de interesse e riu com ele. Gary balançou a cabeça.

- E o hotel onde eu vou ficar? - quis saber Elton, vendo que John não tinha achado graça da brincadeira.

- Fiz reservas num dos melhores de Copacabana. Só falta você chegar. Só que ainda acho um pouco difícil você se livrar de fãs e repórteres quando souberem que você está lá.

- Os seguranças falam por mim. Estarão sendo pagos para serem minha voz, não é? Serão gentis e educados, mas teimosos como eu. Se eu tiver que atender repórteres, acho que não respondo por mim.

- Ainda mais num país de língua diferente... comentou Clive.

- Não é bicho de sete cabeças, continuou John. - Você vai ter intérpretes lá, se quiser.

- Não quero! - falou Elton, taxativo, levantando-se do piano e dando uns passos até a mesa de som, sentando-se diante dela, mexendo nos botões. – Não quero falar com ninguém. Não vou mais ser acessível a nenhum tipo de imprensa, ainda mais num país com quem eu não tenho intimidade nenhuma. Eu vou pra descansar e conhecer um pouco da música brasileira que já me disseram que é muito quente e sensual. Pode ser uma experiência nova.

- O sol vai te fazer bem, disse Clive. - Lá deve estar um calor de quarenta graus à sombra.

- É isso que eu quero, finalizou Elton. - Sair da geladeira da minha vida nem que seja por dez dias.

Davey Johnstone, o guitarrista, e Ray Cooper, o percursionista, entraram no estúdio.

- Chegou o famoso séquito! - brincou Clive, com as mãos em concha diante da boca.

- Ou o que restou dele, disse Davey, batendo na mão que Clive estendeu aberta. - Como vai, Clive? Oi, Gary, John... Oi, patrão! - disse, olhando para Elton e lhe apertando a mão demoradamente. - Como é que você está?

- Tudo bem, grandão. E vocês? Oi, Ray!

- Quando é que se começa a trabalhar nesse álbum, afinal de contas? - perguntou Ray, apertando também a mão de Elton. - Eu já estou começando a sentir os dedos enferrujarem.

- Pode deixar, Ray. Logo, logo, vai ter muito que fazer pra desenferrujar seus dedos, não é, Elton?

- É... suspirou Elton, dedilhando o início de uma nova canção feita com Gary: “Georgia”.

Davey e Ray trocaram um olhar significativo. Eles conheciam o velho Capitão muito bem. Aquilo não parecia o início de um futuro muito reluzente, não para Elton. E eles, mais do que qualquer um ali, lamentavam tudo que acontecia com Elton e o que o havia deixado tão diferente e soturno.

Nos dias que se seguiram, Elton, Gary, Davey, Ray, Clive, Paul Buckmaster e Herbie Flowers, que havia sido convidado para participar do álbum, começaram a ensaiar. No final do mês de janeiro daquele mil novecentos e setenta e oito, iniciaram-se as gravações do novo álbum.

Dois dias antes de embarcar para o Rio de Janeiro, ele e os músicos passaram o tempo inteiro no estúdio, gravando algumas das faixas já prontas, dia e noite, praticamente sem descanso nenhum. Chegaram a varar uma noite de sábado para domingo, sem dormir.

Na madrugada de primeiro de fevereiro, ele dispensou os músicos e ficou sozinho no estúdio com Davey e Ray, que não quiseram ir embora sem antes falar com ele. Enquanto Ray tirava umas notas, sentado ao piano que Elton usara na gravação, este, deitado no sofá ali perto perguntou:

- Chega, Ray, vá descansar! Não aguento mais nem ouvir som nenhum de música. Já basta.

Ray sorriu displicente e parou, tomando um gole de água do copo sobre o piano. Davey, abraçado à guitarra, sentado num banquinho, só olhava para ele. Elton voltou os olhos para ele e disse:

- Uma libra pelos seus pensamentos...

Davey sorriu e falou, com voz cansada:

- Desta vez parece que sai, hein?

Elton esfregou o rosto e massageou a nuca, tentado relaxar. Virou-se de lado apoiando o rosto na mão, fechando os olhos, como se quisesse dormir ali. Davey continuou:

- Por que essa pressa de fazer tudo correndo, Elton? Por que esse desespero? Você está correndo atrás de quem, ou do quê?

- Sei lá... Elton falou, ainda de olhos fechados. - Eu devo isso a muita gente, Davey, embora saiba que vou receber críticas por voltar diferente. Esse álbum está muito diferente de tudo que eu já fiz.

- Isso é verdade! Não tem o Bernie nele... falou Ray, mas não quer dizer que não esteja bem feito.

Elton fechou os olhos e sentiu os pelos do braço se eriçarem. Não disse nada.

- Para um pouco de pensar nos outros, cara.

- Não, Davey! Agora é que eu tenho que começar a pensar, e muito, nas pessoas que trabalham comigo e que compram meu trabalho, disse Elton, sentando-se no sofá. - Foi por não pensar que eu perdi tanta coisa... Foi por me colocar no centro do mundo como se ninguém existisse que acabei assim. O que acontece é que... não sei se vou continuar ouvindo quem fala mal de mim gratuitamente... e ficar calado... Eu sempre fui meio lerdo pra umas coisas e... acelerado demais pra outras. Nunca fiz nada pra me defender quando e como devia quando tinha que fazer isso. Ninguém me levava a sério... porque eu não me levava a sério. Não queria ferir ninguém. Não queria ferir as pessoas e acabei me machucando e machucando a quem não devia. Nigel... Dee... Agora eu tenho que fazer o contrário... ouvir quem realmente me ama, quem está a meu lado todo o tempo me dando a mão... mesmo quando eu, teimoso como sou, me recuso a aceitá-la...

Davey colocou a guitarra no suporte ali perto e foi sentar-se do lado dele.

- E o Bernie, Elton? Não tem mais volta? Seria maravilhoso e ele voltasse, com você pensando assim...

Os olhos de Elton brilharam, ficando mais redondos que de costume. Ele levantou-se e foi sentar-se ao piano, arrumando a boina na cabeça e ajeitando o cabelo curto sob ela.

- Eu preciso libertar por uns tempos meu cowboy, Davey, disse ele, encostando a cabeça na mão, apoiada no piano. - Ele precisa respirar... Saiu muito machucado disso tudo. E, mesmo que eu quisesse, não tenho coragem nem moral pra pedir nada a ele agora. Ele está zangado comigo... e com tudo a minha volta. Está cansado e triste... Precisa de um tempo e de férias... de mim. Contentem-se com “Ego”. Por algum tempo, vai ser a única coisa que vocês e o público que ama a gente vai ouvir de nós dois.

Começou a tocar a música sem a letra.

Os três ficaram em silêncio por algum tempo e Elton finalmente parou de tocar, olhou para os dois e falou:

- Vão pra casa, meninos. Já judiei demais de vocês. E Deus sabe que eu só faço isso com vocês, porque vocês deixam. Nenhum ser vivente deveria trabalhar tanto tempo sem pedir água nunca!

- A gente ama tocar, falou Davey, sorrindo triste.

- Tanto quanto você, concordou Ray, sério, como de costume.

Elton sentiu os olhos encherem de água e sorriu também, erguendo-se.

- Dêem o fora daqui, eu tenho que ir pra casa tomar um banho e me despedir dos velhos pra embarcar daqui a pouco da França! Vou estar chegando no Rio à tardinha, amanhã.

Davey e Ray apertaram a mão de Elton, levantaram-se, indo para a porta.

- Boa viagem!

- Obrigado! Bom descanso!

Exausto, ainda naquela manhã, Elton tomou um jato até Paris e de lá seguiu no Concorde até o aeroporto internacional do Rio de Janeiro. Mas, ao contrário do que ele esperava, do que havia sido prometido a ele, o aeroporto estava lotado de repórteres e fãs histéricos que ele avistou logo que desceu as escadas do jato.

- Meu Deus! - murmurou, apavorado. - Eu mato o John quando voltar! Esse foi o sigilo que ele me prometeu?

Foi recebido por Alex, o guarda-costas contratado pela EMI-Odeon, no topo da escada.

- Seja bem vindo, Elton. Sou Alex. É um prazer recebê-lo no Brasil!

- Oi! - disse ele, com um sorriso amarelo, olhando em seguida para a multidão aos gritos, lá embaixo. - Acho que ainda sou Elton John por aqui!

- Claro que é! Você duvidava disso? - perguntou Alex com um sorriso. - Seu empresário nos avisou que você não queria alarde e nada foi dito sobre sua vinda, mas sabe como é a imprensa... Eles captam os astros a quilômetros de distância!

- É, eu sei o que é isso... disse Elton num suspiro, enquanto descia as escadas, sob os flashes.

- Mas não se preocupe, sua segurança está garantida. Fique tranquilo.

Foram necessários seis policiais e mais os seguranças que já acompanhavam Elton, além de Alex, para afastar os fãs, que empunhavam discos na ilusão de vê-los autografados pelo cantor que no país ainda era um ídolo; mas nada conseguiram, e Elton entrou semi-ileso no Galaxie marrom que o levou até o Leme Palace Hotel.

Ao entrar no hotel rapidamente e depois na suíte presidencial, especialmente preparada para ele, jogou-se num sofá e desabotoou a jaqueta, fechando os olhos, já morrendo se calor. Deitou-se.

- Acho que na cama é melhor! - disse Alex, sorrindo.

- Se eu conseguir chegar até ela... Como está quente aqui! - gemeu, tirando a jaqueta e jogando-a longe.

Ergueu-se, sentou-se e olhou em volta.

O quarto estava todo enfeitado com flores e frutas tropicais como ele havia pedido. Ele sorriu.

- Gostou? - perguntou Alex.

- Bonito... Para quem está enxergando tudo cinza ultimamente, está maravilhoso.

Levantou-se e foi até o quarto de solteiro onde havia duas camas enormes sobre as quais foram escritas as letras E e J com capas discos dele.

- Uau! – disse, sorrindo mais uma vez. - Há dois anos, eu teria começado a chorar...

Alex, logo atrás dele, não entendeu, mas não fez perguntas.

- Bem, vou estar à sua disposição vinte e quatro horas por dia. Imagino que queira tomar um banho, descansar agora...

- Com todas as letras bem maiúsculas, falou Elton, sentando-se em uma das camas e começando a tirar as botas de verniz azul marinho.

- Quer comer alguma coisa antes?

- Não, não daria. Eu dormiria em cima de qualquer prato.

Tirou nas botas e a camisa e voltou à sala, chegando até perto da janela. Admirou o pôr do sol por alguns instantes, era quase seis da tarde, e voltou ao quarto, indo tomar um banho. Depois do banho, jogou-se na cama e dormiu até o dia seguinte.

Na manhã seguinte, depois de um laudo café, ele pediu a Alex que fosse instalado um aparelho de som na suíte e que lhe trouxesse discos de cantores brasileiros. Quando chegaram, começou a olhar os discos, muito curioso pela música do Brasil.

- Milton... Na...

- Nascimento, completou Alex. - É um grande cantor mineiro aqui no Brasil. Não tem nada a ver com rock, mas é muito popular, muito bom.

- Nas...cimento... falou o cantor, olhando a capa com atenção. - E quais são os roqueiros mais populares por aqui?

- Rita Lee... Raul Seixas... Erasmo Carlos... a banda Bixo da Seda... Há vários deles aí...

O telefone tocou. Elton olhou para o aparelho, depois para Alex e declarou:

- Não vou atender ninguém. Não é possível que tenham acesso ao meu telefone até aqui...

- Não, fique tranquilo. Deve ser alguém da recepção do hotel. Eu atendo.

- Por favor! - falou, continuando a examinar os discos.

Alex atendeu ao telefone. Elton não entendeu nada do que ele falou, pois falou em Português com a pessoa do outro lado da linha. O rapaz se livrou da pessoa e desligou o telefone, voltando-se para Elton:

- Repórteres... disse Alex meio sem graça. - Eles vão perturbar um pouco, mas posso dar um jeito nisso.

- Espero que sim! A partir de agora, não sei atender telefone nem porta. E não sei mesmo, não é questão de frescura. Eu não falo uma vírgula em Português. Não vou nem saber dizer “Espere um momento”. Encargo seu, certo?

- Claro! Algum plano pra hoje?

- Não... Escolhe um disco que você curte mais destes que você trouxe e coloca no aparelho de som. Alguma coisa bem alegre.

- E se você não gostar?

- Bem, se te contrataram para me acompanhar vinte e quatro horas por dia, é porque você deve ter treinamento e paciência suficiente pra suportar gênio de cantor de rock estafado... completou Elton, sorrindo maroto, deitando-se no sofá.

- Mais ou menos, Alex disse, rindo.

- Se você tem paciência suficiente pra isso, deve ter a cabeça muito fresca e saudável...

- Também...

- Então deve entender de música pra acalmar Elton John. Confio no seu gosto.

Elton fechou os olhos e pareceu começar a dormir. Alex colocou um disco bem animado de Rita Lee e deixou tocando. Ou Elton já estava dormindo de novo ou estava gostando, porque não esboçou nenhuma reação. Ficou então atendendo a porta ou atendendo ao telefone que tocava em outra sala contígua para não atrapalhar o descanso do cantor e o dia passou tranquilo. Elton havia realmente dormido por seis horas ali mesmo no sofá e quando acordou já eram três da tarde.

Abriu os olhos e olhou em volta como se estranhando tudo. Perguntou meio assustado:

- Onde é que eu estou?

- No Brasil, Rio de Janeiro... respondeu Alex, calmamente, sentado numa poltrona lendo uma revista, ali próximo dele. - São três da tarde, dia dois de fevereiro...

Elton se localizou e sentou-se, esfregando os olhos. Brincou:

- Quem sou eu?

- Um roqueiro estafado, cansado chamado Elton John, falou Alex, sorrindo.

- Esse sou eu, disse Elton, encolhendo-se no sofá feito criança no útero materno. - Algum recado, telefonema...

- Quer ouvir primeiro...?

- Muita coisa?

- Convites pra jantar hoje, coquetéis, passeios pela praia de lancha e mil e uma...

- Não, não! Eu não estou a fim de nada agora. Realmente não dá! Não vou confirmar nada ainda. Não me ache antipático, pernóstico ou coisa que valha, é que minha mente veio pro Brasil porque meu corpo queria estar em Marte e esse país e a coisa mais diferente da Inglaterra e dos Estados Unidos que existe. Não me leve a mal...

- Tudo bem... Rod Stewart ligou, disse o rapaz sorrindo. - Dou o recado?

- Claro! O que aquele doido queria comigo, me encher o saco?

- Não, ele só pediu... pra você não se jogar da janela do hotel sem falar com ele antes.

Elton riu.

- Ele não perde a chance... Eu esqueci que ele também está aqui. Só que hoje eu não quero sair daqui nem pra pular da janela! Estou com vontade...

Ele parou no meio da frase, pensando. Sentiu vontade de beber algo forte, mas ponderou se seria prudente.

- Vontade do que...? – Alex perguntou.

- Tem alguma bebida aqui?

- No quarto não, mas eu posso...

- Não, não, esquece. Não quero que você saia de perto do mim, ok?

- Ok...

E não saiu mesmo! Mas recebeu a visita de Peter Frampton, atacado de um resfriado. Os dois conversaram algumas horas e jantaram na própria suíte.

Mesmo depois que Peter se foi, Elton caiu na cama de novo e só foi acordar às duas da tarde seguinte. Tinha dado a ordem de não ser acordado nem para fugir de um incêndio e Alex cumpriu a ordem à risca.

A estadia de Elton no Brasil era pura e simplesmente para descansar, o que significava: nada de entrevistas, muitas horas de sono e alguma diversão.

Conseguiu se divertir passeando de lancha com Rod Stewart, com Peter Frampton e outros cantores brasileiros, como Fafá de Belém; foi à praia, assistiu aos desfiles das grandes escolas de samba do Rio, curtiu música brasileira e dormiu muito. Mas, nos bailes, não teve muita sorte...

A imprensa o assustou um pouco e, ávida por manchetes, o assediou a toda hora, por onde quer que ele fosse.

Elton chegou a sair de alguns salões, muito irritado e chegou a ser expulso do Copacabana Palace por estar, juntamente com seus guarda-costas, vestido de marinheiro(!).

Recusou alguns convites, aceitou outros e acabou voltando à Inglaterra talvez mais cansado do que havia saído, além de muito irritado.

Dois dias depois da volta à Londres, já refeito do cansaço da viagem, voltou a compor mais algumas canções, inclusive uma cuja letra era dele mesmo: “Flintstone Boy”, lançada como Lado B de “Ego”, composta por Bernie, em 21 de março. Outro compacto foi lançado de “Part time love”, composta por Gary Osborne, com Lado B de “I cry at night”, feita por Bernie, na mesma época que havia feito “Ego”.

Elton tinha ainda a necessidade de cantar coisas feitas por Bernie, mesmo que as letras depusessem contra ele, ainda que o chamassem de egocêntrico, orgulhoso, idiota, pretensioso ou que parecessem que Bernie o estava mandando se afastar, sumir... Ou mesmo que, como cartas dizendo: “Estou sofrendo... e muito...” que era como ele se sentia em 1975, 1976...

QUEBRANDO BARREIRAS - RESSURREIÇÃO - PARTE 1

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