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No coração de Chimoio, Moçambique, uma morte inexplicável abala o país. Durante uma cerimónia pública, o governador cai diante de jornalistas, policiais e autoridades, vítima de um fenómeno aterrador que ninguém consegue explicar. Enquanto a cidade tenta compreender o que aconteceu, uma mulher observa tudo pela televisão, segurando nas mãos um rato morto marcado por um ritual sombrio. O que ninguém sabe é que aquela morte é apenas o início. Daniel Mucavele, um jovem que sempre acreditou levar uma vida normal, começa a descobrir que sua família guarda um segredo antigo. Os Mucavele fazem parte de um círculo secreto formado por famílias poderosas que, durante gerações, construíram riqueza, influência e autoridade através de pactos sobrenaturais, crimes, roubos e vinganças. Quando Daniel descobre a verdadeira história de sua família, percebe que seus pais esconderam dele uma herança muito mais perigosa do que imaginava. No centro desse segredo está Salvador Mucavele, uma figura misteriosa ligada ao passado da família e ao Círculo. Para alguns, ele é um homem poderoso. Para outros, é algo muito pior. Enquanto Daniel tenta descobrir onde seu pai desapareceu e por que sua mãe passou a vida escondendo a verdade, uma guerra silenciosa começa entre os Mucavele, os Nhamatanda e outras famílias antigas. Assassinatos aparentemente impossíveis começam a surgir. Empresas são roubadas. Documentos desaparecem. Fortunas mudam de mãos. Pessoas que conhecem os segredos do Círculo começam a morrer. E a polícia, liderada por Mateus Nhamatanda, começa a perceber que existe uma ligação entre os crimes que ultrapassa qualquer explicação racional. Daniel, inicialmente dominado pelo medo, descobre pouco a pouco que possui uma ligação sobrenatural com o Círculo. Quanto mais procura respostas, mais próximo fica de um poder que sua própria família tentou esconder. Mas o poder tem um preço. Entre segredos familiares, rituais sombrios, mortes, traições e uma guerra pelo controle da riqueza e da influência, Daniel terá de escolher: destruir o Círculo e acabar com a maldição de sua família... ou aceitar a herança, dominar o poder e tornar-se o mais poderoso membro do Círculo. Porque algumas portas foram fechadas durante gerações. E agora, Daniel Mucavele começou a abri-las. O sangue chamou. O Círculo despertou. E a caça começou.
Chimoio, Moçambique.
A tarde estava estranhamente silenciosa.
O céu sobre a cidade de Chimoio permanecia coberto por nuvens pesadas, quase negras. O vento soprava pelas ruas, levantando poeira e folhas secas.
Em frente a um grande edifício governamental, dezenas de viaturas estavam estacionadas.
Carros da polícia.
Viaturas do governo.
Ambulâncias.
Carros de jornalistas.
Havia agentes de segurança espalhados por todos os lados.
Repórteres seguravam microfones e câmeras, tentando descobrir o motivo daquela reunião extraordinária.
- Sabe por que o governador convocou toda essa gente? - perguntou um jornalista.
- Ninguém sabe - respondeu outro. - Só disseram que seria um anúncio importante.
- Será sobre as eleições?
- Talvez.
- Ou sobre a investigação dos contratos públicos.
O segundo jornalista olhou para os policiais próximos à entrada.
- Seja o que for, parece sério.
Do lado de fora, ninguém percebeu que uma mulher idosa observava o prédio de longe.
Ela estava parada junto a uma árvore.
Vestia uma capulana escura e um lenço cobrindo parte da cabeça.
Em sua mão esquerda carregava algo escondido dentro de um saco.
Um rato morto.
O animal tinha o abdômen aberto.
Dentro dele havia pequenas agulhas, fios vermelhos e pedaços de tecido branco.
A mulher sorriu.
Depois virou-se e desapareceu entre as pessoas.
________________________________________
Dentro do edifício, o grande salão estava completamente lotado.
Jornalistas ocupavam as primeiras filas.
Atrás deles estavam policiais, funcionários públicos, agentes do governo e convidados.
As conversas misturavam-se num enorme murmúrio.
- Será que ele vai renunciar?
- Não acredito.
- Talvez tenha descoberto alguma coisa.
- O governador não convocaria uma reunião dessas por causa de uma simples notícia.
Um homem sentado na terceira fila aproximou-se do colega.
- Você está sentindo esse cheiro?
- Que cheiro?
- Não sei.
Ele respirou novamente.
- Parece ferro.
- Ferro?
- Sim.
O colega riu.
- Deve ser o ar-condicionado.
Mas o homem continuou inquieto.
Havia algo naquele lugar.
Algo que ele não conseguia explicar.
De repente, as portas principais se abriram.
Silêncio.
O governador entrou.
Todos se levantaram.
Ele caminhou lentamente até ao palco.
Usava um terno escuro e segurava alguns documentos nas mãos.
Acenou para os jornalistas.
Depois aproximou-se do microfone.
- Boa tarde.
Algumas pessoas responderam:
- Boa tarde, Excelência.
O governador respirou fundo.
- Excelentíssimos membros do governo, agentes de segurança, jornalistas e todos os cidadãos aqui presentes...
Ele olhou para o salão.
- Agradeço por terem vindo.
As câmeras começaram a gravar.
Um jornalista levantou o microfone.
- Excelência, podemos saber qual é o assunto desta reunião?
O governador sorriu discretamente.
- Dentro de alguns minutos, todos saberão.
O salão voltou a ficar silencioso.
O governador colocou os papéis sobre a mesa.
- Durante os últimos meses, o nosso governo tem enfrentado problemas graves.
Alguns agentes trocaram olhares.
- Corrupção.
- Desaparecimento de fundos.
- Ameaças.
- E pessoas que acreditam estar acima da lei.
Um murmúrio percorreu o salão.
O governador continuou:
- Durante muito tempo, permaneci calado.
Fez uma pausa.
- Mas hoje...
Ele olhou diretamente para as câmeras.
- Hoje venho informar que...
Parou.
Levou uma mão ao peito.
Tossiu.
Uma vez.
Depois outra.
- Excelência? - perguntou um dos seguranças.
O governador levantou a mão.
- Estou bem.
Tentou continuar.
- Como estava dizendo...
Tossiu novamente.
Desta vez com força.
- Excelência!
Ele curvou-se.
Tosse.
Tosse.
Tosse.
Uma gota de sangue caiu sobre o microfone.
O salão ficou completamente silencioso.
O governador olhou para o sangue.
Seu rosto perdeu a cor.
- O que...
Tossiu novamente.
Mais sangue saiu de sua boca.
- Ajudem-me...
Dois seguranças correram para o palco.
- Excelência!
- Chamem uma ambulância!
- Ele está passando mal!
O governador tentou respirar.
Mas começou a engasgar.
- Não...
Ele levou as duas mãos à garganta.
- Não consigo...
Um dos seguranças segurou-o.
- Calma, Excelência. Respire.
O governador abriu a boca.
E vomitou sangue.
Uma quantidade absurda.
O líquido vermelho caiu sobre o palco.
As pessoas começaram a gritar.
- Meu Deus!
- Chamem um médico!
- Afastem-se!
O governador caiu de joelhos.
Seu corpo começou a tremer violentamente.
- O que está acontecendo com ele? - gritou uma jornalista.
Outro segurança aproximou-se.
- Excelência!
O governador levantou os olhos.
Parecia aterrorizado.
- Está... dentro de mim...
- O quê?
Ele começou a tossir novamente.
Tosse.
Tosse.
Tosse.
Algo metálico caiu de sua boca.
CLANG!
Uma agulha.
Todos ficaram paralisados.
- Que diabos...?
Outra caiu.
Depois outra.
O governador começou a vomitar novamente.
Agulhas.
Pequenas lâminas.
Tesouras enferrujadas.
Pedaços de pano branco.
Os objetos caíam misturados ao sangue.
Uma mulher gritou.
- Tirem isso de dentro dele!
- Isso é impossível!
- Meu Deus!
O governador agarrou o braço de um segurança.
- Eles me mataram...
- Quem?
O governador tentou responder.
- A mulher...
Tossiu.
- Qual mulher? - perguntou o segurança.
O governador arregalou os olhos.
- A mulher do...
Não conseguiu terminar.
Seu abdômen começou a inchar.
Primeiro lentamente.
Depois rapidamente.
A camisa começou a esticar.
- Meu Deus! - gritou alguém.
- Afastem-se!
- O que está acontecendo?!
O corpo do governador continuava a aumentar.
Seu abdômen ficou enorme.
Parecia o ventre de uma mulher grávida de nove meses.
Ele gritava.
- Tirem isso de mim!
- Socorro!
- POR FAVOR!
Um policial tentou segurá-lo.
- Excelência, fique calmo!
- EU ESTOU MORRENDO!
O salão entrou em pânico.
Pessoas corriam para as portas.
Alguns jornalistas continuavam filmando.
Outros deixaram as câmeras cair.
O governador olhou para o teto.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Por quê?
Ninguém respondeu.
Ele sussurrou:
- Eu devia ter ficado calado...
De repente...
BOOM!
O corpo explodiu.
Sangue espalhou-se pelo palco.
As luzes piscaram.
O microfone caiu no chão.
TUM.
O corpo do governador caiu imóvel.
Durante alguns segundos...
Ninguém se mexeu.
Então o salão explodiu em gritos.
- CORRAM!
- MEU DEUS!
- ELE ESTÁ MORTO!
- CHAMEM UMA AMBULÂNCIA!
- FECHEM AS PORTAS!
- NINGUÉM SAI!
Policiais apontaram armas para todos os lados.
Agentes do governo tentavam controlar a multidão.
Jornalistas gritavam.
Alguns choravam.
Uma câmera permanecia ligada no chão.
Filmando o sangue que escorria pelo palco.
E, no meio daquele caos, ninguém percebeu uma coisa.
No peito do governador havia uma pequena marca.
Um círculo.
Dentro dele, três linhas cruzadas.
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Algumas horas depois
Muito longe dali...
Numa pequena casa afastada da cidade, uma televisão permanecia ligada.
A notícia era transmitida ao vivo.
"Governador de Manica morre durante pronunciamento público..."
Uma senhora estava sentada diante da televisão.
Era a mesma mulher que havia sido vista perto do edifício.
Ela tinha cabelos completamente brancos.
O rosto estava marcado pela idade.
Mas seus olhos eram firmes.
Ela segurava um rato morto na mão esquerda.
O abdômen do animal estava aberto.
Dentro dele havia agulhas.
Pequenas lâminas.
Fios vermelhos.
E um pedaço de pano branco.
Ao redor da mulher havia dezenas de velas.
Algumas já estavam apagadas.
No chão havia sangue formando círculos.
Panos brancos estavam espalhados por toda parte.
Agulhas estavam espetadas em pequenas figuras feitas de barro.
Havia ossos.
Garrafas.
Ervas secas.
Lâminas enferrujadas.
E símbolos desenhados no chão.
A casa inteira parecia ter sido preparada para um ritual.
Na televisão, a imagem mostrava o corpo do governador sendo retirado do edifício.
A mulher sorriu.
Passou lentamente o dedo pelo rato morto.
Depois espetou uma agulha no coração do animal.
Na televisão, um jornalista dizia:
- As autoridades ainda não explicaram o que provocou a morte do governador. Testemunhas afirmam que ele começou a vomitar objetos metálicos antes de sofrer uma ruptura abdominal...
A senhora soltou uma pequena gargalhada.
- Testemunhas...
Ela aproximou-se da televisão.
- Vocês não entendem nada.
A jornalista continuou:
- A polícia isolou o local e iniciou uma investigação...
A velha aproximou o rosto da tela.
- Investiguem.
Sorriu.
- Procurem.
Colocou o rato sobre uma pequena tigela.
Depois pegou uma lâmina.
- Mas nunca vão encontrar.
Ela olhou novamente para a televisão.
Seu sorriso desapareceu.
- Eu avisei você, governador.
Silêncio.
Ela inclinou a cabeça.
- Pedi para ficar calado.
Pegou outra agulha.
- Mas você falou demais.
Cravou a agulha no rato.
- Agora pagou.
Uma vela apagou-se sozinha.
Depois outra.
E outra.
A mulher olhou para o corredor escuro atrás dela.
Por um instante, pareceu ouvir passos.
Toc.
Toc.
Toc.
Ela ficou imóvel.
- Já chegou?
Ninguém respondeu.
Os passos pararam.
A velha sorriu.
- Então começou.
Na televisão, a imagem do governador desapareceu.
A tela ficou preta.
E, por um breve instante, uma palavra apareceu no ecrã:
MUCAVELE.
A mulher arregalou os olhos.
O sorriso desapareceu.
- Não...
A palavra sumiu.
Ela aproximou-se da televisão.
- Não pode ser.
Olhou para o ritual.
Depois para a escuridão.
- O sangue voltou.
A chama de todas as velas se apagou ao mesmo tempo.
A casa mergulhou na escuridão.
E uma voz masculina, profunda e quase sussurrada, veio de algum lugar dentro da casa:
- O herdeiro despertou.
A velha ficou imóvel.
Então sorriu.
- Finalmente.
Lá fora, um trovão rasgou o céu.
E, naquela mesma noite, sem que ninguém soubesse, uma guerra antiga voltou a respirar.
Uma guerra que havia começado muito antes do nascimento de Daniel.
Uma guerra que agora chegaria até ele.
E desta vez, o sangue seria apenas o começo.
MAGIA NEGRA
Alexandre683
Fantasia
Capítulo 1 Prólogo - O Último Discurso
27/08/2026
Capítulo 2 O PRIMEIRO SANGUE
27/08/2026
Capítulo 3 A CASA DOS SETE
27/08/2026
Capítulo 4 A NOITE DOS SETE
27/08/2026
Capítulo 5 A CAÇA
27/08/2026
Capítulo 6 O HERDEIRO
27/08/2026
Capítulo 7 O REFÉM
27/08/2026
Capítulo 8 A QUARTA PORTA
27/08/2026
Capítulo 9 A CASA DOS MORTOS
28/08/2026
Capítulo 10 O ROSTO NO ESPELHO
28/08/2026
Capítulo 11 O SANGUE DA FAMÍLIA
28/08/2026
Capítulo 12 O HOMEM QUE MORREU DUAS VEZES
28/08/2026
Capítulo 13 O SEGUNDO HERDEIRO
28/08/2026
Capítulo 14 A CASA DOS MORTOS
28/08/2026
Capítulo 15 A PROPRIEDADE SEM NOME
28/08/2026
Capítulo 16 O JULGAMENTO DO HERDEIRO
28/08/2026
Capítulo 17 A MULHER DA SEPULTURA
28/08/2026
Capítulo 18 O HOMEM QUE DEVERIA ESTAR MORTO
29/08/2026
Capítulo 19 A PEDREIRA
29/08/2026
Capítulo 20 A DÍVIDA DE SALVADOR
29/08/2026
Capítulo 21 O HERDEIRO
29/08/2026
Capítulo 22 A CHAVE
29/08/2026
Capítulo 23 O TERCEIRO HERDEIRO
29/08/2026
Capítulo 24 A VOZ DE AMÉLIA
29/08/2026
Capítulo 25 O QUARTO
29/08/2026
Capítulo 26 A QUARTA PORTA
31/08/2026
Capítulo 27 SARA
31/08/2026
Capítulo 28 O PRIMEIRO MORTO
31/08/2026
Capítulo 29 O CADÁVER DE JOAQUIM
02/09/2026
Capítulo 30 DEBAIXO DA CASA
02/09/2026
Capítulo 31 OS QUE ESTAVAM MORTOS
02/09/2026
Capítulo 32 A AVÓ
02/09/2026
Capítulo 33 A VOZ DE BALTAZAR
02/09/2026
Capítulo 34 O SANGUE QUE NÃO ERA SEU
02/09/2026
Capítulo 35 O IRMÃO ESQUECIDO
02/09/2026
Capítulo 36 O IRMÃO DAS SOMBRAS
21/09/2026
Capítulo 37 ENTRE UMA PORTA E OUTRA
21/09/2026