“No leilão, meu marido levantou sua placa e ofereceu vinte e cinco milhões de reais pela única lembrança que me restava da minha falecida mãe. Mas ele não comprou o colar de safiras para mim. Ele entregou a caixa de veludo para sua amante grávida, Mia, bem na frente de toda a elite do submundo de São Paulo. Quando tentei pegar, Mia fingiu um tropeço. Dante se moveu com a velocidade de um predador. Ele me empurrou com força para abrir espaço para ela. Meu corpo se chocou contra um pilar de mármore, quebrando meu quadril, enquanto ele a pegava no colo e a carregava para fora, pisando no meu vestido sem sequer olhar para trás. Aquilo foi só o começo. Ele me forçou a doar meu sangue para salvá-la durante uma falsa emergência. Ele me exilou em uma cabana gelada sem aquecimento em Campos do Jordão, deixando-me para ser soterrada viva por um deslizamento de terra enquanto ele a consolava por causa de uma mentira. Deitada na cama do hospital depois de sobreviver à avalanche, percebi que não o odiava mais. Ódio é paixão. Ódio implica que ele ainda importa. Eu não sentia nada além de um silêncio frio e pesado. Então, quando ele finalmente saiu de casa para descobrir a verdade sobre o bebê de Mia, eu não esperei por seu pedido de desculpas. Deixei minha aliança de casamento na bancada do banheiro. Joguei meu celular em um bueiro. Quando o Dragão de Sampa percebeu que sua esposa havia desaparecido, eu já estava em Florianópolis, pintando uma nova vida onde monstros não poderiam me encontrar.”