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Na pior noite da vida dela, Anastasia descobriu que humilhação também pode ter plateia. Entre luzes neon, música ensurdecedora e homens perigosos escondidos atrás de ternos caros, Anastasia tenta sobreviver trabalhando como atendente em uma das boates mais exclusivas da cidade enquanto cursa veterinária com uma bolsa que mal cobre suas despesas. Órfã desde adolescente, ela vive sozinha na pequena casa deixada pela mãe, carregando o peso de contas atrasadas, noites sem dormir e um futuro que depende apenas dela. Até a noite em que tudo desmorona. Durante um dos dias mais movimentados da boate, Anastasia esbarra em um homem misterioso na área VIP e derruba bebida sobre ele. O silêncio que se instala dura apenas segundos antes da humilhação começar. O gerente a expõe diante de todos, clientes riem, mulheres empoleiradas nos colos de mafiosos debocham dela, e Anastasia foge tentando conter as lágrimas. O que ela não sabe... é que o homem que observou cada segundo daquela cena não era apenas um cliente qualquer. Dmitry Volkov é o temido Don da máfia russa. Um homem frio, calculista e conhecido por transformar cidades inteiras em campos de guerra silenciosos. Homens o temem. Mulheres o desejam. E ninguém ousa encará-lo diretamente. Exceto ela. Pela primeira vez em anos, Dmitry se vê incapaz de esquecer alguém. Não pela beleza. Não pela inocência. Mas pelos olhos absurdamente azuis da garota que tremia enquanto era destruída em público - e que ainda assim encontrou coragem para encará-lo. Agora, Anastasia chamou a atenção do homem mais perigoso da cidade. E Dmitry nunca abandona aquilo que desperta sua obsessão.
Anastasia
A pia da cozinha estava cheia de louça.
De novo.
Eu encarei os pratos por alguns segundos enquanto prendia o cabelo em um coque malfeito, usando a boca para segurar o elástico porque minhas mãos estavam ocupadas equilibrando uma caneca rachada e uma panela pequena. A torneira fazia aquele barulho irritante de sempre, como se reclamasse toda vez que eu a abria.
A casa inteira parecia cansada.
As paredes antigas tinham pequenas rachaduras perto das janelas, o sofá da sala afundava no meio e o piso de madeira rangia sempre que eu passava rápido demais pelo corredor estreito. Mas ainda era minha casa. A única coisa realmente minha naquele mundo.
A casa que minha mãe deixou.
Respirei fundo.
Ainda tinha cheiro dela em alguns lugares. Principalmente no quarto. Lavanda e livros antigos. Às vezes eu odiava perceber isso porque fazia meu peito doer de um jeito silencioso.
Peguei os pratos da pia e comecei a lavá-los rapidamente.
- Ótimo, Anastasia... veterinária durante o dia, garçonete durante a noite e empregada doméstica na madrugada.
Minha própria voz ecoou na cozinha vazia.
Ninguém respondeu.
Nunca respondia.
Sorri sem humor e continuei esfregando a panela enquanto meus olhos viajavam pela pequena cozinha iluminada pela luz fraca da manhã. Sobre a mesa havia apostilas abertas de anatomia animal, contas atrasadas e um pacote de macarrão instantâneo pela metade.
Vida glamourosa.
Muito glamourosa.
Desliguei a torneira e enxuguei as mãos na calça moletom larga. Olhei o relógio pendurado perto da geladeira e praguejei baixo.
Atrasada.
De novo.
Corri pelo corredor estreito até meu quarto. As roupas estavam espalhadas na cadeira porque eu não tive energia para guardar nada durante a semana. Peguei a primeira calça jeans limpa que encontrei e uma blusa preta simples.
Enquanto vestia a roupa, meus olhos pararam no espelho rachado encostado perto da cômoda.
Os mesmos olhos azuis de sempre me encararam de volta.
Minha mãe costumava dizer que eles eram "azuis demais para esse mundo".
Quando eu era criança, adorava ouvir isso.
Agora só me faziam chamar atenção sem querer.
Peguei minha mochila da faculdade, enfiei os livros lá dentro e saí correndo de casa depois de alimentar Misha, minha gata cinza mal-humorada que me observava em cima da geladeira como se eu fosse uma decepção constante.
- Eu sei que estou atrasada.
Ela miou.
- Você parece minha consciência peluda.
Outro miado.
Fechei a porta antes que começasse a conversar seriamente com um gato. O que provavelmente era um sinal preocupante sobre minha saúde mental.
O vento frio da manhã bateu no meu rosto enquanto eu caminhava rápido pela rua. O bairro onde eu morava era antigo, simples e silencioso demais naquela hora. Algumas pessoas já estavam saindo para trabalhar, outras abriam pequenos comércios enquanto eu praticamente corria até o ponto de ônibus.
Minha vida era sempre uma corrida.
Correr para estudar.
Correr para pagar contas.
Correr para sobreviver.
E mesmo assim parecia que eu nunca alcançava nada.
---
A faculdade estava um caos.
Assim que entrei no prédio principal, ouvi gente falando alto, passos apressados e o som irritante de alguém arrastando cadeira pelo corredor. Ajustei a mochila no ombro enquanto tentava não parecer uma pessoa completamente destruída pelo cansaço.
- Anastasia!
Virei o rosto e vi Clara vindo na minha direção segurando um copo de café.
- Você parece morta.
- Obrigada. Você também está linda hoje.
Ela riu.
- Você dormiu?
- Tecnicamente? Sim.
- Quantas horas?
Pensei por alguns segundos.
- Duas... talvez três se eu contar o cochilo no ônibus.
Clara fez uma careta.
- Você vai acabar desmaiando em cima de uma vaca qualquer durante a aula prática.
- Pelo menos seria uma morte memorável.
Entramos juntas na sala.
As próximas horas passaram em um borrão de anotações, explicações sobre procedimentos clínicos e tentativas desesperadas minhas de manter os olhos abertos. Eu amava veterinária. Amava de verdade. Era a única coisa na minha vida que fazia sentido.
Quando eu estava estudando animais, sentia que ainda existia alguma parte boa no mundo.
Pessoas mentiam.
Pessoas abandonavam.
Pessoas destruíam umas às outras sem culpa.
Animais não.
Eles apenas sentiam.
No intervalo, sentei no chão do corredor com um salgado barato e comecei a revisar minhas anotações enquanto ignorava a dor nas costas.
Meu celular vibrou.
BECK:
"NÃO ATRASA HOJE."
Revirei os olhos imediatamente.
Eu:
"Boa tarde pra você também."
BECK:
"Boa tarde nada. O inferno vai lotar hoje."
Franzi a testa.
Eu:
"Evento?"
Ela demorou alguns segundos para responder.
BECK:
"Só vem."
Ótimo.
Isso nunca significava coisa boa.
---
Quando saí da faculdade já estava escurecendo.
Corri literalmente até o ponto de ônibus, quase tropeçando no meio-fio enquanto tentava colocar o casaco ao mesmo tempo. Meu cabelo escapava do coque e o vento gelado fazia meus olhos lacrimejarem.
O ônibus demorou uma eternidade.
E, quando finalmente chegou, veio lotado.
Perfeito.
Fiquei em pé o trajeto inteiro enquanto revisava mentalmente tudo que ainda precisava pagar naquele mês.
Energia.
Internet.
Material da faculdade.
Remédio da Misha.
Talvez comida também fosse importante.
Quando desci perto da boate, a primeira coisa que percebi foi a quantidade absurda de carros luxuosos parados na entrada.
Mercedes.
BMW.
SUVs pretos enormes.
Homens de terno espalhados do lado de fora.
Seguranças demais.
Meu estômago apertou automaticamente.
A boate já era frequentada por gente rica normalmente, mas aquilo estava diferente.
Parecia... mais pesado.
Mais perigoso.
A música vibrava tão forte que dava para sentir no peito antes mesmo de entrar.
Empurrei a porta dos funcionários e fui recebida pelo caos habitual dos bastidores. Gente correndo, garçons carregando bandejas, maquiagens sendo retocadas às pressas e ordens gritadas de um lado para o outro.
- Anastasia! Finalmente! - Beck apareceu prendendo o próprio cabelo escuro em um rabo de cavalo.
- Eu literalmente cheguei no horário.
- Milagre histórico.
Ignorei o comentário e comecei a colocar o avental preto do uniforme.
- O que vai ter hoje?
Beck olhou rapidamente por cima do meu ombro antes de se aproximar um pouco mais.
- Nada confirmado... mas ouvi dizer que tem homens muito ricos vindo.
- Isso não é novidade aqui.
- Não. Mas esses são diferentes.
Franzi a testa.
- Diferentes como?
Ela abaixou ainda mais a voz.
- Perigosos.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa-
- NÃO ESTÁ NA HORA DE FOFOCA!
A voz do gerente ecoou pelo salão dos funcionários como um tiro.
Todo mundo se calou imediatamente.
Virei o rosto e encontrei Augusto vindo na nossa direção com aquela expressão amarga de sempre.
- Se vocês terminarem de conversar talvez consigam trabalhar antes do amanhecer.
Beck revirou os olhos discretamente.
Eu apenas abaixei a cabeça e terminei de ajeitar o avental.
- Área VIP vai exigir atenção máxima hoje - Augusto continuou. - Quero sorriso no rosto, agilidade e ninguém fazendo merda.
Os olhos dele pararam em mim por um segundo maior do que o necessário.
- Principalmente você, Anastasia.
Engoli seco.
- Sim, senhor.
Ele saiu logo depois, gritando ordens para outra pessoa no corredor.
Beck soltou o ar devagar.
- Um dia eu juro que coloco veneno no café desse homem.
- Você fala isso todo sábado.
- Porque todo sábado ele merece.
Acabei rindo baixo.
Mas, mesmo tentando ignorar aquela sensação estranha no meu peito... alguma coisa naquela noite parecia errada.
Como se o ar estivesse anunciando uma tempestade antes dela começar.
E eu ainda não fazia ideia de que minha vida estava prestes a mudar no momento em que eu colocasse os pés na área VIP daquela boate.
Escolhida pelo Don
Verônica Cardoso
Máfia
Capítulo 1 Luzes que Não Me Pertencem
18/05/2026
Capítulo 2 Acidente
18/05/2026
Capítulo 3 Olhos azuis(Dmitry)
18/05/2026
Capítulo 4 Boa noite, Dmitry
18/05/2026
Capítulo 5 A Garota dos Olhos Azuis
20/05/2026
Capítulo 6 Atrasada
20/05/2026
Capítulo 7 Prioridades
20/05/2026
Capítulo 8 Perguntas
20/05/2026
Capítulo 9 O que foi perdido(Dmitry)
20/05/2026
Capítulo 10 Coisas que escapam
20/05/2026
Capítulo 11 Escolhida (Dmitry)
20/05/2026
Capítulo 12 Convite
20/05/2026
Capítulo 13 Aceitou sim
20/05/2026
Capítulo 14 Bonitão
20/05/2026
Capítulo 15 Encontro
20/05/2026
Capítulo 16 Finalmente(Dmitry)
20/05/2026