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Sinopse No Rio de Janeiro de 2024, Aurora Valentina precisa proteger o império do pai. Dante Henrique precisa de um casamento estratégico. Um acordo de fachada une dois mundos opostos, mas segredos, traições e desejos proibidos transformam contratos em escolhas perigosas. No fim, o que ninguém esperava é que o verdadeiro risco não estava no poder... mas no coração.
Eu não estava em condições emocionais de ouvir a palavra casamento, muito menos de levá-la a sério, mas Dante não era o tipo de homem que dizia algo por impulso; ele falava como quem já havia calculado todas as variáveis possíveis, enxergando o tabuleiro inteiro enquanto o resto das pessoas ainda tateava em busca das peças. O corredor do Hospital Lacerda estava silencioso demais naquela manhã, sob um céu de Botafogo que
permanecia pesado e úmido, enquanto uma névoa fina encobria o
Pão de Açúcar ao longe. Eu segurava a pasta com os documentos do inventário do meu pai como se aquele pedaço de couro fosse a única coisa capaz de me manter de pé, sentindo o peso de cada decisão que agora recaía exclusivamente sobre os meus ombros.
- Precisamos conversar - ele disse, mantendo aquela voz controlada de sempre, mas notei uma gravidade que ultrapassava a mera negociação empresarial.
Respirei fundo antes de responder, tentando sustentar o tom firme para que a exaustão não transparecesse em cada sílaba.
- Se for sobre o contrato de fornecimento, Dante, este realmente não é o momento.
Ele negou com a cabeça lentamente, observando meu rosto com uma atenção que chegava a ser irritante, como se estivesse mapeando cada microexpressão de cansaço ou dúvida que eu tentava esconder.
- É sobre sucessão - ele esclareceu, e eu estreitei os olhos, questionando se ele se referia ao hospital, mas ele foi direto ao ponto: - Da presidência do Grupo Bastos & Albuquerque.
Aquilo não fazia sentido imediato e, quando algo não faz sentido, eu prefiro o silêncio, pois ele costuma encurralar o outro a se explicar melhor. Dante percebeu a tática e continuou, explicando que seu avô havia deixado uma cláusula específica no testamento determinando que apenas um herdeiro legalmente casado poderia assumir a presidência executiva. Soltei uma risada curta e amarga, perguntando o que eu tinha a ver com as excentricidades da família dele, mas ele sustentou meu olhar por segundos longos demais antes de disparar a frase que pairou no ar como uma provocação absurda:
- Eu preciso casar.
- Fala sério - retruquei, cruzando os braços em um gesto automático de defesa. - Você escolheu o pior timing possível para fazer uma piada dessas.
- Não estou brincando - ele respondeu, baixando o tom de voz.
O jeito como ele falou removeu qualquer margem para ironia, o que me irritou ainda mais, pois significava que ele estava realmente propondo um negócio matrimonial ali, no mesmo corredor onde eu havia perdido meu pai, tratando a instituição do casamento como uma solução corporativa aceitável. Quando o questionei se ele havia enlouquecido, lembrando-o de que meu pai morrera há menos de vinte e quatro horas, Dante não alterou a expressão e pontuou que o hospital agora estava vulnerável.
A palavra me atingiu como um tapa físico, porque era a mais pura verdade. Eu odiava admitir que qualquer conselho administrativo poderia tentar absorver ou diluir o que meu pai construiu em trinta anos. Ele se aproximou um passo, não o suficiente para invadir meu espaço, mas o bastante para que eu sentisse o cheiro discreto de seu perfume cortando o odor de éter do ambiente. Ele me revelou que Murilo já estava movimentando o conselho e que, se ele não assumisse a presidência nas próximas semanas, o Grupo cairia em mãos erradas, tornando o hospital o primeiro ativo estratégico a ser pressionado e desmantelado.
- E casar comigo resolveria isso como? - perguntei, tentando manter a voz estável.
- A fusão se torna oficial e o hospital passa a integrar o conglomerado sob minha presidência direta. Você mantém a gestão administrativa total e eu bloqueio qualquer tentativa de interferência externa. É uma aliança estratégica, com prazo, cláusulas de proteção patrimonial e liberdade individual. Nada além do necessário.
A frieza da proposta era, ao mesmo tempo, desconfortável e solidamente atraente. Quando perguntei "por que eu?", ele hesitou por uma fração mínima de segundo antes de dizer que eu era competente e que ele confiava que eu não tentaria derrubá-lo pelas costas. Eu o observei, buscando qualquer traço de arrogância ou mentira, mas encontrei apenas cálculo e um respeito inesperado que me desarmou.
- Isso é loucura, Dante.
- É estratégia - ele rebateu com a segurança de quem nunca perde um leilão.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, ouvindo apenas o murmúrio distante do hospital, enquanto eu avaliava o peso de carregar aquele legado sozinha versus a proteção de um homem que parecia um tanque de guerra em forma de executivo. Eu não seria uma figurante, deixei claro, e ele me assegurou que não precisava de uma, mas sim de alguém que aguentasse a pressão.
Aceitei dois dias depois. Aceitei pela lógica, pelo hospital e pelo orgulho de não ver o nome do meu pai ser pisoteado por abutres corporativos. No entanto, quando fui à sede do Grupo no Centro para assinar os papéis e encontrei Dante em sua sala envidraçada, sem o blazer e com as mangas da camisa arregaçadas revelando braços fortes e uma tensão latente, percebi que a linha que eu estava cruzando não era apenas profissional.
- Está certa da decisão? - ele perguntou enquanto eu fechava a porta.
- Não dramatize, Dante. É só um contrato.
Ele deu um meio sorriso quase imperceptível, repetindo as palavras como se provasse o sabor de uma mentira conveniente. Assinamos os documentos com o som da cidade pulsando lá embaixo e, ao sair do prédio naquela noite, sentindo o vento frio do
Rio no rosto, percebi que havia me tornado esposa de Dante
Albuquerque. Eu só não sabia que estratégia nenhuma prepara alguém para uma guerra familiar onde as armas não são apenas contratos, e onde o maior perigo não era o mercado, mas o homem que agora dormia sob o mesmo sobrenome que eu.
Contrato de esposa - Guerra de herdeiros
Autor Emerson S.
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