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Ele tinha tudo sob controlo, até ela entrar na vida dele. Após a morte da esposa, Dário tornou-se um homem fechado, frio e totalmente focado no filho pequeno que ficou sob a sua responsabilidade. Entre reuniões, contratos e a pressão de manter a empresa da família, ele não acredita que alguém possa realmente cuidar do seu filho, muito menos tocar no seu mundo cuidadosamente blindado. Até que surge Helena, a nova babá. Jovem, determinada e com uma forma inesperada de se conectar com a criança, ela rapidamente conquista o menino e começa a romper as barreiras que Dário construiu durante anos. Mas Helena não entrou naquela casa apenas para trabalhar, ela tem motivos próprios para aceitar aquele emprego, e alguns deles podem ser perigosos demais para permanecerem escondidos. Enquanto a convivência diária transforma a casa em algo vivo novamente, a tensão entre patrão e babá cresce de forma inevitável, o que começa como desconfiança vira atração, o que era apenas rotina vira conflito e o que parecia cura pode se tornar uma destruição silenciosa. Porque amar alguém que ainda está a sangrar do passado nunca é simples e quando segredos começam a vir à tona, nenhum deles estará realmente seguro.
A chuva caía com violência sobre a cidade, transformando as avenidas iluminadas em rios escuros e reflexivos. O som constante das gotas contra os vidros enormes da cobertura misturava-se ao silêncio pesado que dominava o apartamento. Não havia televisão ligada, música ambiente ou vozes ecoando pelos corredores luxuosos. Apenas o som da tempestade e o tic-tac discreto do relógio preso à parede da sala principal.
Dário Vasconcelos permanecia sentado no sofá há mais de uma hora, imóvel, os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar perdido no chão de mármore escuro. A gravata afrouxada pendia torta no colarinho aberto da camisa social, e o copo de whisky intocado sobre a mesa de centro já perdera metade do gelo.
O apartamento inteiro parecia frio demais agora, grande demais, vazio demais.
Os olhos dele deslizaram lentamente até o pequeno carrinho vermelho abandonado perto da estante. O brinquedo continuava ali desde a manhã, exatamente no lugar onde tinha sido deixado.
Ele ainda não tivera coragem de tirá-lo dali.
Na cozinha, uma funcionária falava ao telefone em voz baixa. Outra caminhava cuidadosamente pelos corredores, como se qualquer ruído pudesse provocar uma explosão invisível dentro daquela casa.
E talvez pudesse mesmo, porque desde o enterro, há apenas três dias, tudo parecia prestes a desmoronar.
Dário fechou os olhos por alguns segundos e respirou fundo, tentando controlar a pressão latejante na cabeça, mas era impossível. Toda vez que fechava os olhos, a mesma imagem surgia.
O carro destruído, as luzes vermelhas da ambulância, o sangue, a mão fria de Bianca escorregando da dele.
Seu maxilar travou imediatamente. Não!
Ele não podia pensar naquilo agora, não quando ainda havia alguém dependendo dele.
- Papá?
A voz pequena surgiu atrás dele, fazendo Dario abrir os olhos imediatamente.
Henrique estava parado na entrada da sala, abraçado ao seu urso de pelúcia azul. O menino usava um pijama cinzento com pequenas estrelas e tinha os cabelos castanhos completamente bagunçados. Os olhos grandes, idênticos aos da mãe, estavam inchados de sono.
E tristeza.
Aquilo destruía Dário de uma forma que ele não conseguia explicar.
O menino tinha apenas cinco anos, cinco.
Era injusto demais.
- O que foi, campeão? - a voz dele saiu baixa, rouca.
Henrique hesitou antes de caminhar lentamente até o pai.
- Eu tive um sonho mau.
Dário observou o filho subir no sofá com dificuldade antes de se aproximar dele devagar, como se estivesse inseguro. Como se não soubesse mais até onde podia ir.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Porque antes Henrique corria.
Antes ele ria.
Antes aquela casa parecia viva.
Agora o menino falava baixo, caminhava devagar, olhava em volta como quem esperava que alguém fosse surgir a qualquer momento.
Mas ninguém surgiria, Bianca não pisaria novamente naquela sala.
Nunca mais.
Dário puxou o filho cuidadosamente para perto e Henrique imediatamente se aninhou contra o peito dele, apertando o urso pequeno entre os braços.
- A mamã estava no sonho - o menino murmurou.
O peito de Dário endureceu, ele passou a mão lentamente pelos cabelos do filho.
- E o que ela dizia?
Henrique levantou o rosto devagar.
- Eu não lembro... mas ela estava indo embora outra vez.
O silêncio caiu entre os dois.
Dário sentiu algo esmagar seu peito violentamente.
Ele lidava bem com negócios, com pressão, com crises milionárias, com ameaças.
Mas aquilo?
Aquilo o destruía completamente.
Porque não existia contrato, dinheiro ou poder capaz de ensinar um homem a explicar a morte para o próprio filho.
Henrique fungou baixo.
- A mamã vai voltar?
A pergunta entrou como uma faca.
Dário fechou os olhos rapidamente antes de responder.
- Não, filho.
A criança abaixou a cabeça.
- Nunca?
Ele demorou alguns segundos.
- Nunca.
Henrique ficou quieto.
Quieto demais.
Era isso que mais assustava Dário, o silêncio do menino. A forma como ele parecia tentar entender uma dor grande demais para a idade dele.
Depois de alguns instantes, Henrique ergueu os olhos outra vez.
- Então eu vou esquecer a voz dela?
Dário sentiu o corpo inteiro tensionar.
Droga.
Droga.
Ele puxou o menino imediatamente para os braços, abraçando-o com força.
- Não vai, ouviu? Nunca vai esquecer.
Mas ele próprio já estava começando a esquecer algumas coisas.
O perfume exato dela, o som da risada ecoando pela casa.
O jeito como Bianca mexia distraidamente no cabelo enquanto lia alguma coisa.
As memórias começavam a escapar lentamente e isso o aterrorizava.
Henrique enterrou o rosto no peito dele.
- Eu não quero esquecer a mamã...
Dário respirou fundo, olhando a chuva do lado de fora.
Nem eu.
Duas semanas depois.
- Ela pediu demissão.
Dário levantou os olhos lentamente dos documentos espalhados sobre a mesa do escritório.
- O quê?
Marta, a governanta da casa, suspirou discretamente.
- A babá.
Ele fechou a pasta devagar.
- Por quê?
A mulher hesitou.
- Henrique tem estado muito difícil. Não dorme direito, chora muito durante a noite. Faz birras e ontem teve uma crise porque ela tentou arrumar os brinquedos da senhora Bianca.
Dário apertou a mandíbula imediatamente.
Claro.
Claro que isso aconteceria.
Tudo naquela casa parecia desmoronar um pouco mais a cada dia.
Ele levantou-se lentamente da cadeira e caminhou até a enorme janela do escritório. Lá embaixo, os carros cruzavam as avenidas movimentadas enquanto a cidade seguia viva, indiferente à tragédia dele.
O mundo não parava, nunca parava, mesmo quando alguém perdia tudo.
- Arrume outra.
Marta ficou em silêncio por um instante.
- Senhor Dário, talvez Henrique precise de alguém mais preparado desta vez.
Ele virou parcialmente o rosto.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que ele não precisa apenas de uma babá comum agora.
Dário respirou fundo, impaciente.
- Então encontre alguém qualificado.
- Já encontrei.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
Marta aproximou-se devagar da mesa e colocou uma pasta sobre ela.
- Helena Duarte, vinte e quatro anos. Tem experiência com crianças e referências excelentes.
Dário nem tocou na pasta.
- Se tem boas referências, contrate.
- Ela quer conversar consigo antes.
Aquilo o irritou imediatamente.
- Não tenho tempo para entrevistas.
- Ela insistiu.
Dário soltou um suspiro cansado, mais uma complicação, mais uma exigência e mais uma pessoa entrando naquela casa como se soubesse o que era melhor para o filho dele.
Mas Henrique precisava de ajuda e ele sabia disso.
Nos últimos dias, o menino quase não sorria mais e Dário mal conseguia ficar em casa sem sentir que estava sufocando.
- Marque.
***
Helena observava discretamente o enorme portão preto enquanto o táxi se afastava da mansão, olugar parecia ainda maior pessoalmente.
Luxuoso, intimidante, frio.
Ela apertou levemente a alça da bolsa contra o ombro enquanto o segurança abria passagem, seu coração batia rápido demais.
Talvez porque aquela entrevista significasse muito mais do que um simples emprego.
Muito mais.
Helena respirou fundo antes de atravessar o jardim impecavelmente cuidado, o salto baixo afundava ligeiramente entre as pedras molhadas pela chuva recente.
Ela tentava parecer calma, mas não estava porque aquele lugar trazia lembranças demais e ela odiava lembrar.
A porta principal foi aberta por uma mulher elegante de meia-idade.
- Helena Duarte?
- Sim.
- Entre, por favor.
O interior da mansão era ainda mais impressionante, tons neutros, móveis sofisticados, lustres enormes e um silêncio desconfortável dominando tudo.
Uma casa bonita sem vida.
Helena percebeu isso imediatamente.
Ela acompanhou a governanta até a sala principal e tentou ignorar o nervosismo crescendo dentro dela.
- O senhor Dário já vem.
Helena assentiu.
Assim que ficou sozinha, seus olhos percorreram o ambiente lentamente até pararem numa fotografia sobre o piano.
Um casal sorrindo e uma criança pequena no meio dos dois, o ar pareceu fugir por um segundo.
Bianca.
Mesmo depois de tantos anos, Helena reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.
O mesmo sorriso doce, os mesmos olhos claros.
Seu peito apertou instantaneamente, ela desviou o olhar rápido demais.
Não, não podia pensar naquilo agora.
Passos ecoaram pelo corredor, Helena ergueu a cabeça e então viu Dário Vasconcelos pela primeira vez.
Ele era exatamente como aparecia nas revistas de negócios, alto, elegante e intimidador, mas pessoalmente havia algo diferente, algo mais pesado.
Os olhos escuros pareciam permanentemente cansados. O rosto bonito carregava tensão suficiente para endurecer completamente a expressão dele.
Dário parou diante dela por alguns segundos, analisando frio.
Helena levantou-se imediatamente.
- Senhor Vasconcelos.
Ele assentiu levemente.
- Helena.
A voz grave saiu seca.
Sem simpatia e sem esforço nenhum para parecer agradável.
Ela já esperava isso.
Homens como ele raramente tentavam ser gentis.
- Sente-se.
Helena obedeceu.
Dário permaneceu em pé por alguns instantes antes de finalmente sentar-se na poltrona à frente dela.
O silêncio instalou-se rapidamente.
Ele abriu a pasta com as informações dela.
- Trabalhou três anos com a família Albuquerque.
- Sim.
- E saiu por quê?
- Mudaram-se para Portugal.
Dário continuou lendo.
- Curso técnico em desenvolvimento infantil...
- Sim.
Ele ergueu os olhos lentamente.
- Sabe lidar com crianças difíceis?
Helena sustentou o olhar dele.
- Crianças magoadas não são difíceis.
Aquilo pareceu pegá-lo desprevenido por meio segundo, mas só por meio segundo.
- Meu filho não aceita estranhos facilmente.
- Eu sei.
- E não tolero erros.
O clima esfriou imediatamente.
Helena cruzou as mãos sobre o colo.
- Então talvez devesse me explicar exactamente o que espera de mim.
Os olhos dele estreitaram-se discretamente.
Ela tinha coragem, interessante.
A maioria das pessoas parecia intimidada perto dele, mas ela não.
- Quero alguém que cuide do meu filho.
- Isso é o básico.
Dário inclinou-se ligeiramente para frente.
- E o que mais acha que existe?
Helena sustentou o olhar dele sem hesitar.
- Uma criança perdeu a mãe há poucas semanas. Isso muda tudo.
O silêncio caiu novamente, pesado.
Dário encarava-a de forma quase calculista agora, como se tentasse entender alguma coisa.
- Marta contou-lhe isso?
- Não precisava contar.
Ele fechou a pasta lentamente.
- Acha que consegue lidar com isso?
Helena demorou alguns segundos para responder.
- Acho que crianças precisam de estabilidade quando o mundo delas desaba.
A mandíbula dele travou discretamente, porque aquela frase atingiu mais do que deveria, muito mais.
Antes que pudesse responder, passos pequenos ecoaram pelo corredor e os dois viraram o rosto ao mesmo tempo.
Henrique apareceu abraçado ao urso azul e parou assim que viu Helena.
Os olhos curiosos analisaram-na em silêncio, Helena sentiu algo apertar no peito. Porque ele era a cópia perfeita da mãe.
Meu Deus!
Ela não estava preparada para aquilo.
Dário levantou-se imediatamente.
- Henrique, volta para o quarto.
Mas o menino ignorou completamente a ordem e continuou olhando para Helena.
Depois de alguns segundos, caminhou lentamente até ela.
Helena permaneceu imóvel, o coração acelerado.
Henrique parou diante dela e apertou o urso contra o peito.
- Você vai embora também?
A pergunta saiu tão baixa que quase pareceu um sussurro, o ambiente inteiro pareceu congelar.
Helena levantou os olhos lentamente para Dário.
A dor estampada no rosto dele foi rápida, mas ela viu.
Viu claramente.
Henrique continuava esperando resposta e naquele instante, Helena percebeu uma coisa perigosa.
Ela já estava emocionalmente envolvida naquela casa antes mesmo de entrar nela oficialmente.
O menino aproximou-se mais um passo.
- Vai?
Babá do meu filho
Poio
Romance
Capítulo 1 Prólogo
15/05/2026
Capítulo 2 Primeiro
15/05/2026
Capítulo 3 Segundo
15/05/2026
Capítulo 4 Terceiro
16/05/2026
Capítulo 5 Quarto
16/05/2026
Capítulo 6 Quinto
17/05/2026
Capítulo 7 Sexto
17/05/2026
Capítulo 8 Sétimo
17/05/2026
Capítulo 9 Oitavo
17/05/2026
Capítulo 10 Nono
17/05/2026
Capítulo 11 Décimo
19/05/2026
Capítulo 12 Décimo seg.
19/05/2026