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Ele conquistou milhões de corações. Mas nunca conseguiu esquecer aquele que perdeu. Sung-Ji é um dos maiores astros da Coreia do Sul. Famoso, admirado e cercado de luxo, ele parece ter a vida perfeita. Entretanto, por trás dos holofotes, existe uma lembrança que nem o tempo conseguiu apagar: Bae-TeMi, a garota que conhecia seus sonhos antes mesmo de o mundo conhecer seu nome. Separados por uma mentira que mudou seus destinos, os dois seguiram caminhos diferentes. Longe de Seul, uma mulher que agora atende pelo nome de Isabela construiu uma nova vida. Tornou-se uma respeitada designer de joias e aprendeu a proteger aquilo que tem de mais precioso. Mas existem segredos que nem a distância, nem uma nova identidade conseguem esconder para sempre. Quando o passado começa a se aproximar perigosamente do presente, uma descoberta ameaça destruir todas as certezas de Sung-Ji. Quem é, afinal, a mulher por trás da marca Byeol? E por que seu nome parece estar ligado ao maior segredo da vida do astro? Algumas histórias de amor terminam com uma despedida. Outras apenas esperam o momento de revelar a verdade. E quando essa verdade vier à tona, ninguém estará preparado para suas consequências.
Sozinha no apartamento silencioso da Barra da Tijuca, senti as primeiras dores do parto naquela madrugada. Era uma noite atípica, abafada demais para o mês de junho. O ar parecia parado dentro dos cômodos, pesado, difícil de respirar. Eu havia despertado com uma pressão incômoda no ventre, mas, ainda sonolenta, pensei que fosse apenas mais um desconforto da gravidez. Tentei mudar de posição na cama, puxei o travesseiro para debaixo da barriga e fechei os olhos novamente.
Então, a dor veio.
Começou nas costas, atravessou minha coluna e se fechou ao redor do ventre como um cinturão de ferro. Prendi a respiração, apertando o lençol entre os dedos. O corpo inteiro se enrijeceu. Por alguns segundos, não consegui pensar em nada. Quando a contração diminuiu, soltei o ar devagar e procurei me convencer de que ainda não era a hora. Foi quando senti o líquido quente e pegajoso escorrer por minhas pernas e encharcar o pijama.
Olhei para baixo, assustada. Meu coração disparou de tal maneira que parecia bater dentro da garganta. A bolsa havia rompido. Eu estava sozinha, sem minha mãe, sem telefone celular, sem ninguém por perto que pudesse ouvir se eu gritasse. Outra dor me dobrou antes que eu conseguisse sair da cama.
Apoiei uma das mãos na parede e a outra sob a barriga. Meu corpo parecia não me pertencer. Cada passo até a sala exigiu um esforço que eu não sabia possuir. O ventre estava pesado, duro, e a bebê se movia dentro de mim, como se também procurasse uma saída. Não consegui evitar o medo de que alguma coisa desse errado. Eu havia sobrevivido a um acidente, passado três meses em coma e acordado do outro lado do mundo carregando aquela criança em meu ventre. Agora, depois de tudo, temia não conseguir trazê-la à vida.
Sem pensar, alcancei o telefone da sala e liguei para pedir ajuda.
- Tia, por favor, me ajude. Acho que o nenê vai nascer.
Minha voz saiu entrecortada, quase irreconhecível. Eu respirava pela boca e tentava não chorar.
- Onde está sua mãe?
- Viajou para São Paulo, tratar de negócios.
Ouvi minha tia soltar uma exclamação do outro lado da linha.
- Deus! Você já está de nove meses e só tem seis que saiu de um coma. Estou indo, mas devo demorar uns vinte minutos. Como estão as contrações? De quanto em quanto tempo?
Fechei os olhos, tentando calcular, mas outra pontada subiu pelas costas e explodiu no baixo ventre. O telefone quase escapou da minha mão.
- Não sei, tia. Só sinto dor... É como se uma faca estivesse saindo de dentro de mim e me apunhalando na coluna.
- Já estou pegando o carro. Sabe o hotel onde sua mãe está ou o celular dela?
- Ela não quer celular e eu também não tenho um. O que faço?
Minha voz falhou. Naquele instante, senti-me pequena, frágil e abandonada, apesar de carregar uma vida dentro de mim.
- Espere-me. Não faça esforço. Respire. Estou indo o mais rápido que puder.
A ligação terminou, mas eu continuei segurando o aparelho junto ao ouvido, como se aquela voz ainda pudesse me proteger. Depois o deixei cair sobre o sofá e me apoiei no encosto. Não vi o tempo passar.
Entre uma contração e outra, eu tinha a impressão de que adormecia por alguns segundos, não por cansaço, mas porque a dor roubava minha consciência. Quando melhorava, eu respirava fundo, tentando reunir forças. Porém, o intervalo se tornava cada vez menor. Meu ventre endurecia, pressionava meus quadris e fazia minhas pernas tremerem. O suor escorria pelas têmporas, embora eu sentisse frio. Queria minha mãe. Queria alguém segurando minha mão. Queria ouvir que tudo ficaria bem.
A campainha tocou. Tentei caminhar até a porta, mas uma contração violenta me derrubou. Atendi com um grito de dor, de joelhos no chão, agarrada à maçaneta.
- Isabella!
Minha tia entrou e se abaixou ao meu lado. Seu rosto perdeu a cor quando me viu.
- Meu Deus, você está encharcada. Há quanto tempo a bolsa rompeu?
- Não sei... Não sei de nada, tia. Só faça isso parar.
- Vai ficar tudo bem. Olhe para mim. Respire.
Ela me ajudou a levantar, passou meu braço por seus ombros e me conduziu até o sofá. Depois correu para o quarto, fez uma mala para mim e para o bebê, pegando roupas quase ao acaso. Enquanto ela se movimentava pelo apartamento, eu ouvia gavetas abrindo, portas batendo e sua voz repetindo que tudo daria certo, embora o pânico estivesse estampado em cada palavra. Saímos em disparada para o hospital.
No carro, o trajeto pareceu interminável. Cada lombada fazia meu corpo se romper um pouco mais. Apertei o cinto, cravei as unhas no banco e tentei controlar a respiração. Minha tia dirigia depressa, lançando olhares preocupados em minha direção.
- Fique comigo, Isa. Não feche os olhos.
- Eu não aguento mais.
- Aguenta, sim. Sua filha precisa de você.
Aquelas palavras me fizeram levar as mãos ao ventre. Minha filha. Eu precisava resistir por ela. Já havíamos sobrevivido juntas a coisas que pareciam impossíveis. Não seria naquela madrugada que eu desistiria. Quando chegamos ao hospital, minha tia pediu ajuda, mas a recepcionista ainda olhou para mim com desconfiança. Meu rosto jovem enganava; todos pensavam que eu era menor de idade. Eu mal conseguia permanecer em pé. A dor vinha em ondas, arrancando o ar dos meus pulmões.
- Quem é a responsável por você?
- Ela é maior, só tem essa carinha de bebê asiática. O documento dela está aqui - minha tia quase enfiou a identificação no colo da atendente.
- Eu tenho um nome brasileiro. Isabella - consegui dizer, irritada e ofegante.
- Obrigada, mas não dou conta de ler esse nome, não. Tem outra Carteira de Identidade que seja brasileira? A senhora me entregou o documento errado.
Minha tia bateu a mão no balcão.
- Senhora, faça o que tem que fazer! Essa criança vai nascer aqui se não agilizarmos. A médica dela é a doutora Beatriz. Tem como ligar para ela?
Titia falava com a voz brava, mas o medo fazia suas mãos tremerem.
- Ela está de plantão. Já mandei chamar.
Uma enfermeira apareceu com uma cadeira de rodas. Sentei-me com dificuldade e fui levada às pressas para a sala de avaliação. Quando a médica examinou a dilatação, arregalou os olhos.
- Essa bebê está com pressa. Vamos levá-la para a sala de parto.
- Doutora, eu estou com medo.
A doutora Beatriz segurou meu rosto entre as mãos e me obrigou a encará-la.
- Eu sei, Isa. Mas você não está sozinha. Escute minha voz. Quando a contração vier, respire e faça força apenas quando eu mandar.
As duas horas seguintes pareceram uma vida inteira.
A dor já não tinha começo nem fim. Ela tomava meu corpo, queimava minhas costas, esmagava meus quadris e rasgava meu ventre por dentro. A cada contração, eu acreditava ter chegado ao meu limite. Então vinha outra, ainda mais intensa, provando que existia uma dor maior. Eu gritava, chorava e pedia para parar, mas ninguém podia interromper aquele processo.
Titia permanecia ao meu lado e deixava que eu apertasse sua mão.
- Eu não consigo! - gritei.
- Consegue, sim. Você já enfrentou a morte. Fez essa menina sobreviver dentro de você enquanto estava em coma. Não pare agora. A doutora pediu que eu fizesse força. Obedeci. Senti o corpo se abrir, uma pressão insuportável, como se eu estivesse sendo partida ao meio. Gritei o nome de minha mãe. Gritei que não queria mais. Gritei pelo homem que não estava ali e que talvez nem soubesse que sua filha estava nascendo.
- Mais uma vez, Isa! Ela está quase aqui!
Reuni o que restava de mim. Segurei o ar, fechei os olhos e empurrei com toda a força que ainda possuía. A dor atingiu o ponto máximo e, de repente, transformou-se em um grande vazio. Por um segundo, houve silêncio. Meu coração parou junto com o tempo. Então, o choro da bebê ocupou a sala. Era um som pequeno e forte, indignado, vivo. Abri os olhos e comecei a chorar antes mesmo de vê-la. A doutora Beatriz a ergueu por alguns instantes. Ela estava avermelhada, com os cabelos escuros grudados na cabeça e os olhos puxadinhos quase fechados. Linda. Perfeita. Minha.
Quando a colocaram sobre meu peito, o calor de seu corpo afastou toda a dor. Toquei suas costas com a ponta dos dedos, com medo de que fosse um sonho. Ela se acalmou ao ouvir minha voz e procurou se aninhar junto a mim.
- Oi, meu amor - sussurrei. - A mamãe está aqui.
A linda bebê de olhos puxados nasceu duas horas depois de minha chegada ao hospital. A doutora Beatriz, que vinha cuidando de mim desde o início de minha vida no Brasil, ficou emocionada.
- Isa, ela é linda, perfeita. Você ficou em coma durante três meses, do outro lado do mundo. Acordou, se curou, e essa bebê sobreviveu em seu ventre, mesmo enquanto você estava adormecida e doente. Ela veio para completar sua vida. Só falta o pai para pegá-la nos braços.
Minha tia, ao meu lado, apertou minha mão com força. O momento de paz se desfez. A lembrança dele atravessou meu peito com uma dor diferente, que nenhum remédio poderia aliviar.
- Depois do acidente, nunca mais me lembrei de nada referente ao cara que é pai de minha filha. Quero me esquecer, senhora. Essa criança não o merece como pai. É só o que posso dizer.
Minha voz saiu amarga. Eu não sabia se mentia para a médica ou para mim mesma. Às vezes, lembrava-me de seu sorriso com tanta nitidez que chegava a doer. Em outras, desejava apagar tudo o que havíamos vivido.
- Desculpe, não queria me intrometer. Achei que tivesse sido um relacionamento com amor. Vejo que não.
Olhei para minha filha sobre meu peito. Ela respirava tranquila, sem conhecer rejeição, saudade ou abandono.
- Até foi. Mas ele, capacho do pai e da irmã, não lutou por mim. Cortou-me da vida dele sem nem olhar para trás. Deixe-me ficar com minha filha, por favor.
A doutora a acomodou melhor em meus braços.
- Como ela vai se chamar?
Passei o dedo pela pequena bochecha. O nome já vivia dentro de mim havia meses.
- Byeol. Significa estrela.
- Mas não é um nome brasileiro.
- Aqui ela se chamará Estrela.
Ao dizer o nome em voz alta, percebi que era perfeito. Ela havia brilhado dentro de mim quando tudo era escuridão. Sobrevivera ao coma, ao acidente, à viagem e à minha tristeza. Agora iluminava meus braços.
- Hoje você ficará no hospital. Foi parto normal, então, logo cedo, ao final do meu plantão, eu a libero. Agora essa nenê vai para o berçário, para que a mamãe possa descansar.
Apertei minha filha contra o peito, tomada por um medo irracional de que pudessem levá-la e não a trouxessem de volta.
- Estrela, doutora.
A médica sorriu.
- Estrela.
- Vamos, Estrela. A mais linda do céu e de sua mãe - falou a enfermeira, saindo com a médica.
Acompanhei minha filha com os olhos até a porta se fechar. O quarto pareceu vazio demais sem ela. Todo o cansaço caiu sobre mim de uma vez, mas, ainda assim, não consegui dormir.
Passei a noite em claro. Quando trouxeram Estrela para mamar, senti uma emoção indescritível. Seu rostinho procurou meu peito por instinto, e eu chorei ao perceber a confiança com que ela se aconchegava em meus braços. Eu era tudo o que ela tinha. E, a partir daquele instante, ela também se tornava tudo para mim.
Depois que minha tia adormeceu na cama ao lado, virei o rosto para a janela e chorei em silêncio. Era uma saudade mesclada com decepção, raiva e amor. O nascimento de Estrela deveria ter preenchido todos os espaços dentro de mim, mas havia um lugar ferido que ainda pertencia ao passado. Enquanto tentava conter os soluços para não acordar minha tia, relembrei os momentos lindos de um grande amor. Vi o sorriso dele, o jeito como me olhava e as promessas que fizemos quando acreditávamos que nada poderia nos separar.
Olhei para o berço ao lado da cama, colocado depois de todos os procedimentos realizados no berçário. Estrela dormia com uma das mãos fechadas junto ao rosto. Na delicadeza de seus traços, havia muito dele. Aquilo me feriu e me consolou ao mesmo tempo.
- Nós duas vamos ficar bem - sussurrei. - Eu prometo.
Mesmo sem saber como, naquela madrugada fiz minha primeira promessa como mãe. Criaria minha filha cercada de amor. Ela jamais sentiria que fora abandonada. E, ainda que meu coração continuasse preso às lembranças de alguém que não lutara por nós, eu encontraria forças para construir uma nova vida. Por Estrela, eu sobreviveria outra vez.
A FILHA SECRETA DO ASTRO COREANO
Cinthya Amaral
Romance
Capítulo 1 SOLIDÃO DO PARTO
14/10/2026
Capítulo 2 Bae-Te-Mi
16/10/2026
Capítulo 3 Bae-Te-Mi
17/10/2026
Capítulo 4 Sung-Ji
18/10/2026
Capítulo 5 Bae-Te-Mi
20/10/2026
Capítulo 6 Sung-Ji
20/10/2026
Capítulo 7 Bae-TeMi
22/10/2026
Capítulo 8 Sung-Ji
22/10/2026
Capítulo 9 Bae-Te-Mi
24/10/2026
Capítulo 10 Bae-TeMi
25/10/2026
Capítulo 11 Sung-Ji
25/10/2026
Capítulo 12 Bae-TeMi
27/10/2026
Capítulo 13 Sung-Ji
29/10/2026