Minha vida é tua

Minha vida é tua

Regina Alcântara

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Capítulo

Sílvia é uma mulher doce que desde muito cedo aprendeu sobre a dor, sobre o que era ser odiada, subjugada, maltratada, sobre perda, a perda de algo que nem se havia ganhado, e depois de ganhar, perder novamente, e isso não lhe traz revolta mas força, para levantar a cada queda, contudo aprendeu também a ser amada onde menos esperava. Este livro fala sobre uma mulher forte que não se dobrou à dor e fugiu do sofrimento por meios sombrios e sem volta, não fala apenas sobre sofrimento, fome e desigualdade, brutalidade e desafeto por alguém que se espera amar, mas também de força, coragem e fé, não posso esquecer também o mais importante de todos, o amor.

Minha vida é tua Capítulo 1 Prólogo

Ando pela viela da comunidade, passos ligeiros, pernas finas, minhas sandálias gastas não são suficientes para impedir que meus pés toquem a água suja de esgoto a céu aberto que escorre dos barracos de vários moradores, ratos disputam espaço com cachorros, crianças, eu sou mais uma no meio de tantas, a cada passo o coração acelera nos ouvidos, a cada passo me aproximo do inferno, eu preferia não ter nascido ou ter nascido em outra família, mas quem protegeria meu pequeno se eu não existisse? Talvez esse seja meu propósito na vida, impedir que meu irmão passe por tudo que estou passando, ou pel

o menos evitar parte do seu sofrimento.

O Tum... tum... tum... do meu coração não impede que eu escute o choro das crianças dos barracos, a música funk que a Jucélia escuta todos os dias, os gritos de socorro da vizinha que apanha do marido bêbado, mas da mesma forma que para mim, o socorro não vem para ela também.

Meu corpo tem algumas marcas, porém poucas superficiais, o negro da pele esconde algumas, mas as cicatrizes da alma essas nem a melhor maquiagem poderia esconder, eu queria ser igual aquele moleque que acabou de chegar da escola, e não estar chegando do sinal de trânsito sem um centavo no bolso, sei o que me aguarda lá e sei que é algo que eu não desejaria a ninguém.

Dez anos de idade, não lembro a data do meu aniversário, acho que são dez anos, meu corpo começa mudar eu sinto isso, tenho medo de chegar aos onze anos, a mãe da Bruna a vendeu aos onze, e entupiu o nariz de farinha com a Mara, minha mãe, na minha boca esse nome tem um gosto amargo, pior que fel, perdida em pensamentos não percebo que sou encurralada por Josué marido da Patrícia, o mesmo que bate nela todos os dias, a pele branca dela sempre aparece com marcas roxas, sinto um calafrio na alma, sei que ele não quer apenas me assustar, seu sorriso maligno e cheio de malícia me diz isso.

- Que tal a gente brincar um pouquinho ali atrás daquele muro hein Silvinha, vai ser muito divertido, vem.

Não me assusto, fico séria, cruzo os braços, mas não respondo.

- O gato comeu sua língua...

- Você conhece o Martinho Josué? Sabe o que ele faria com você?

Sou firme, não deixo que ele veja o medo tomando conta da minha alma, ele percebe que eu não sou tão inocente, para cair nesse papo de brincadeirinha, mas minha voz infantil não impõe respeito ou medo, pelo contrário, parece diverti-lo.

- Ele não precisa saber, vai ser divertido...vamos.

Ele agarra meu braço e tenta me arrastar, mas ao longe vejo um dos garotos do Martinho e começo a gritar chamando atenção, Josué finge que não escuta mas uma voz o paralisa, Martinho é o traficante da comunidade e todos sabem do seu ódio por pedófilos e estupradores, dizem que ele matou o próprio pai com requintes de crueldade após ficar maior e ter forças o suficiente.

- Eu fiquei sabeno que você é um covarde que bate na muié, até aí até tranquilo, na moral, mais tentá pegá uma criança...

Um rapaz de quinze anos, apelidado de rapadura fala calmamente, ele está parado numa pose despreocupada, nisso Josué me solta sabendo que assinou sua sentença de morte.

- Euu, nã-não estava fazendo nada, era apenas uma brincadeira, não é Silvinha, somos amigos... - Se explica rápido enquanto eu o encaro com o ódio que uma criança de dez anos pode sentir.

- Não era, não sou sua amiga. - Minha voz infantil sai um pouco mais fina, assustada.

- Vá pro seu barraco Sil, com ele a gente se resolve.

O garoto dá um assovio alto e um cara maior chega com dois Pitbull's e eu corro encontrando em duas esquinas depois ela, Mara, minha mãe, primeira vez que a chamei assim nunca vou me esquecer, tenho até hoje os vergões. Sou mais uma no meio de tantas outras, faço parte das estatísticas, e mesmo com a pouca idade percebo que sonhos são vãos, eles não fazem minha barriga parar de doer com o vazio, não fazem ela parar de me bater, muito menos me amar, então não sonho com uma vida melhor, uma família, mas eu sonho em ser alguém melhor que essa mulher estranha que eu deveria chamar de mãe.

Aqui nem a polícia vem, de vez em quando os bandidos usam nosso barraco como esconderijo ou depósito de armas, por algumas gramas de pó ela guarda as armas no teto de madeira puído do que um dia foi um barraco quase decente. De longe escuto o choro do meu irmão Escobar, homenagem ao seu herói, tenho medo, mas preciso cuidar como posso do meu irmãozinho de um ano, que deve chorar de fome, do lado de fora escuto os gritos dela que eu sei que dá para ouvir do outro lado da comunidade.

- Desgraçado deveria ter matado você assim como deveria ter matado a imprestável da sua irmã!

Tenho vontade de sair correndo e ir morar nas ruas, mas o que me aguarda na rua é o mesmo ou talvez pior que o que me aguarda lá dentro. Aos sete anos de idade até que era mais fácil ganhar uns trocados no sinal de trânsito, alguns patrões querendo talvez uma redenção jogasse umas moedinhas, mas aos dez anos, o bico do seio apontando na blusa gasta, não oferecem nada além de cinco reais por uma hora.

Infância? Não sei o que é isso, muito menos inocência depois de ver a Mara com seus clientes, no sofá gasto da sala ou ouvir seus gemidos durante a noite inteira e ela contar para a sua amiga quanto de pó conseguiu com seu trabalho árduo, não há espaço para inocência.

Com minha pouca idade já pedi a Deus várias vezes para morrer, mas acho que ele por ser um velhinho não deve escutar, ela sabe que horas eu chego, parece que sente meu cheiro sujo de longe, não sei como ela ainda pode sentir cheiro com o cheiro podre de dentro do barraco, latinhas de cerveja para todo lado, a louça da pia oferece comida para as batatas e até os ratos, mas nunca sobra para mim, tenho sempre que arrumar um jeito de não morrer de fome.

- Então a putinha chegou... Passa, passa toda a grana, quero meu dinheiro, nem que você tenha que fazer programa... Sua puta dos infernos.

Seu grito é acompanhado de um tapa em meu ouvido que zumbe, ela me puxa pelos cabelos e eu espero o que não demora a chegar, já nem dói mais como antes, estou anestesiada, na segunda chicotada com os fios de energia, cobre roubado envolto por um plástico. Minha mente viaja para o sinal, um garotinho de cinco anos faz uma careta e com a inocência de uma criança bem cuidada pergunta aos pais.

- Mãe, por que ela não toma banho, a mãe dela não gosta de dar banho nela?

Já não me importo mais com os comentários, racismo é crime para aqueles cuja sociedade olham, eu sou invisível, me olham como se eu fosse uma ratazana grande e nojenta, deve ser por isso que ela me chama assim. Sete chibatadas, puxões de cabelo, tapas na cara, meu corpo é arremessado contra o chão, o Escobar continua chorando ao longe, não choro, não peço clemência, misericórdia nem a ela e nem a Deus, não vejo mais nada, a fome, e a dor me apagam, e antes da escuridão me abraçar, escuridão é bem-vinda, ela me tira desse lugar, a dor, nada mais importa.

- Tomara que tenha morrido, vou ligar pra Jucélia para saber o que fazer com o corpo dessa ratinha... Foram suas últimas palavras.

"Me sinto sufocar, balanço a cabeça e me vejo em um lugar totalmente branco, alguém segura minha mão e abre uma porta, assim que entramos passamos por algumas pessoas dormindo em um beco escuro e sujo, algumas crianças não tem com o que se cobrir, outras se cobrem com caixas de papelão, continuamos andando e a pessoa abre outra porta, e agora o cenário é diferente, é tudo muito limpo, branco e tem uma moça negra como eu sorrindo para um bebezinho em uma caixa transparente, ela está toda de branco e parece um anjo."

Acordo com a cabeça doendo, está muito frio, o corpo todo dolorido, as costas em brasas, por incrível que pareça aqui está mais macio que minha cama, abro os olhos assustada, mas não consigo me levantar, meu corpo queima. Abro os olhos e tudo é branco...

No canto vejo uma moça de branco , deve ser um anjo, será que no céu também tem dor?

A porta se abre e uma moça loira, muito bonita também de branco entra.

- Como está nossa paciente Rosa?

- A febre diminuiu.

A moça loira se aproxima e me sorri bondosa.

- Vejo que acordou.

Ela lê algo que está em suas mãos e sorri novamente, parece feliz em me ver, acho estranho, ninguém nunca fica feliz em me ver.

- Apesar da concussão cerebral nada de mais grave, aparentemente, você desmaiou de fraqueza, está me entendendo? Teve febre a noite inteira.

Permaneço calada, mas afirmo com medo de sua reação ao não receber uma resposta.

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Passei quatro horas em pé, fatiando trufas negras importadas para o nosso jantar de aniversário de casamento. Mas o Barro não apareceu. O meu celular vibrou no balcão, iluminando a cozinha escura. Não era um "parabéns". Era uma ordem seca do meu marido: "A Safira desmaiou. Vá para o hospital. Precisamos do seu sangue agora." Logo em seguida, a própria Safira mandou uma foto. A mão do meu marido segurando a dela com uma ternura que ele nunca teve comigo. Minha sogra entrou na cozinha, torceu o nariz para o Bife Wellington que preparei e riu na minha cara. "Você ainda está contando datas? Ele não vem comer esse lixo. Ele está com quem importa. Agora vá aspirar o tapete antes de sair." Naquele momento, o amor cego que senti por três anos morreu. Percebi que eu nunca fui a esposa dele. Eu era apenas um recipiente biológico, mantida por perto apenas porque meu sangue Rh-negativo raro era o único compatível com a "frágil" amante dele. Tirei o avental e o joguei no lixo. Subi as escadas, tirei a aliança barata que ele comprou numa loja de departamento e assinei os papéis do divórcio. Quando saí para a rua fria, o Barro me ligou, provavelmente para gritar pelo meu atraso na transfusão. Bloqueiei o número. Parei sob a luz do poste e liguei para o meu pai, o bilionário dono do Grupo Rocha, para quem eu não ligava há anos. "Sou eu," sussurrei, vendo o comboio de seis Maybachs blindados virar a esquina para me buscar. "Inicie a extração. Eles vão pagar por cada gota."

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Minha vida é tua Minha vida é tua Regina Alcântara Romance
“Sílvia é uma mulher doce que desde muito cedo aprendeu sobre a dor, sobre o que era ser odiada, subjugada, maltratada, sobre perda, a perda de algo que nem se havia ganhado, e depois de ganhar, perder novamente, e isso não lhe traz revolta mas força, para levantar a cada queda, contudo aprendeu também a ser amada onde menos esperava. Este livro fala sobre uma mulher forte que não se dobrou à dor e fugiu do sofrimento por meios sombrios e sem volta, não fala apenas sobre sofrimento, fome e desigualdade, brutalidade e desafeto por alguém que se espera amar, mas também de força, coragem e fé, não posso esquecer também o mais importante de todos, o amor.”
1

Capítulo 1 Prólogo

29/10/2021

2

Capítulo 2 Um

29/10/2021

3

Capítulo 3 Dois

29/10/2021

4

Capítulo 4 Três

29/10/2021

5

Capítulo 5 Quatro

29/10/2021

6

Capítulo 6 Cinco

29/10/2021

7

Capítulo 7 Seis

29/10/2021

8

Capítulo 8 Sete

29/10/2021

9

Capítulo 9 Oito

29/10/2021

10

Capítulo 10 Nove

29/10/2021

11

Capítulo 11 Dez

29/10/2021

12

Capítulo 12 Onze

29/10/2021

13

Capítulo 13 Doze

29/10/2021

14

Capítulo 14 Treze

29/10/2021

15

Capítulo 15 Quatorze

29/10/2021

16

Capítulo 16 Quinze

29/10/2021

17

Capítulo 17 Dezesseis

29/10/2021

18

Capítulo 18 Dezessete

29/10/2021

19

Capítulo 19 Dezoito

29/10/2021

20

Capítulo 20 Dezenove

29/10/2021

21

Capítulo 21 Vinte

29/10/2021

22

Capítulo 22 Vinte e um

29/10/2021

23

Capítulo 23 Vinte e dois

29/10/2021

24

Capítulo 24 Vinte e três

29/10/2021

25

Capítulo 25 Vinte e quatro

29/10/2021

26

Capítulo 26 Vinte e cinco

29/10/2021

27

Capítulo 27 Vinte e seis

29/10/2021

28

Capítulo 28 Vinte e sete

30/10/2021

29

Capítulo 29 Vinte e oito

30/10/2021

30

Capítulo 30 Vinte e nove

30/10/2021

31

Capítulo 31 Trinta

30/10/2021

32

Capítulo 32 Trinta e um

30/10/2021

33

Capítulo 33 Trinta e dois

30/10/2021

34

Capítulo 34 Trinta e três

30/10/2021

35

Capítulo 35 Trinta e quatro

30/10/2021

36

Capítulo 36 Trinta e cinco

30/10/2021

37

Capítulo 37 Trinta e seis

30/10/2021

38

Capítulo 38 Trinta e sete

30/10/2021

39

Capítulo 39 Trinta e oito

30/10/2021

40

Capítulo 40 Trinta e nove

30/10/2021