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Flávia,
Tranquilidade, saúde mental e família é tudo que eu quero para minha vida. Esses cinco meses em que fiquei presa, me fizeram refletir sobre o meu passado, presente e futuro… definitivamente eu não quero passar tanto tempo sem liberdade novamente, além de eu sofrer ainda faço as pessoas que amo sofrerem também.
Só fazem dois dias que saí daquele inferno, a vida ainda está confusa, o corpo ainda está no ritmo da prisão, mas minha mente está certa do que realmente quero, todos vão ter de entender que já não caibo nessa vida e que estou saindo de tudo isso, definitivamente eu não quero mais nada vindo do corre.
Sentada na sala, reflito um pouco mais e então quando penso que estou certa da minha decisão, levo minha mão ao telefone que está sobre a mesinha de centro, digito um texto breve, já explicando sobre o desejo de afastamento e envio como a mensagem ao quadro final da facção, solicito uma reunião (R), o irmão me confirma que será feita à noite e pede que eu me organize.
Ansiosa com a bendita reunião, não tenho concentração para absolutamente nada, ainda assim tento separar alguns currículos e minha documentação, tenho uma entrevista de emprego às 14:30, preciso muito que dê certo, meu pequeno grande passo rumo a uma nova vida. A entrevista é em um hotel, faz alguns bons anos que não trabalho CLT e sei que não será fácil essa adaptação.
Me arrumo de modo simples e formal, meu pai é quem vai me levar ao hotel, estou muito ansiosa, não sei o que me deixa mais tensa, se a reunião com a facção ou se a entrevista. Entro e sou recepcionada por uma moça muito gentil, ela me oferece uma água e pede que eu aguarde sentada junto aos demais candidatos.
A espera é de aproximadamente uma hora, a cada pessoa que sai da sala uma nova descarga de adrenalina é lançada em meu corpo, finalmente é minha vez, já me levanto pedindo ao universo proteção para que tudo possa dar certo. entro em uma sala muito bonita e arejada, decoração harmoniosa e bem clean.
Um casal está sentado à mesa, eles sorriem e indicam que eu sente-me na cadeira logo à frente, em uma conversa tranquila exponho minhas experiências, expectativas, habilidades e tudo mais que me foi perguntado, apesar de estar a um bom tempo fora do mercado, sinto que estou preparada para assumir o cargo.
Meu coração se enche de alegria, um rio de esperança lava a minha alma, não há palavras que mensuram a importância de conseguir esse emprego, primeiro que é o primeiro passo para uma nova fase e segundo que o pouco de dinheiro que eu tinha a cadeia levou, como não vou voltar para o crime, estou “na lona”, por baixo mesmo.
Confiante de que as coisas vão dar certo, chego em casa com um misto de ansiedade e felicidade, a resposta do hotel deve vir em até 24 horas, e a reunião será logo mais, comemoro meu progresso pessoal, enquanto faço um lanche com minha família.
À noite, janto e me preparo para a reunião, exatamente na hora marcada o telefone vibra notificando uma chamada por vídeo em grupo. em meu corpo corre um formigamento, consequência do nervosismo que estou sentindo, respiro fundo e atendo, meu segundo passo para uma vida em paz, sem medo ou preocupação.
Começamos a conversa fazendo uma breve apresentação de todos os presentes, o irmão faz uma introdução falando da minha “caminhada” dentro do crime e sobre a pauta da reunião que é meu afastamento, me dando em seguida espaço de fala.
Sem rodeios, exponho meu desejo de sair do crime, ressalto que minha passagem pela organização não deixou manchas e que eu respeito e entendo todas as restrições que essa escolha pode me trazer, ainda assim tentam me fazer mudar de ideia e outra vez friso as dores que senti enquanto estive na prisão.
— Olha aqui mana, seu marido está preso, certo? Onde ele está não tem sintonia, certo? — Ele pergunta.
Ouço essas perguntas e apenas friso nossa separação, todos já sabem, mas no crime não é bem aceito essa questão de que o casal separe sendo que um está preso. Sabendo disso, reafirmo que nosso vínculo é de amizade e que é dentro desse parâmetro que o fortaleço na cadeia.
— Correto mana, agora me responde outra coisa, como a mana pretende fortalecer o seu ex marido estando afastada? A senhora compreende que a caminhada é até o final? E sem "vacilação"! — um deles fala em tom ríspido.
— Nós tamo ligado que o mano mesmo preso e sem sintonia fez o corre e deu assistência para mana os meses que a senhora ficou privada, agora a mana quer rasgar? O mana a senhora acha certo? Entendemos que não são mais casados, porém continuam tendo laços e esse vínculo depende do corre, do seu corre. — outro irmão fala me deixando sem palavras, eu já havia esquecido quão difícil é sair, entrar é tão simples agora sair é bem difícil mesmo. — Outro complementa no mesmo timbre.
— Irmãos, a assistência para ele é claro que vou dar, cumprirei meu papel, e honrarei minhas obrigações, mas para isso eu não preciso estar no crime, quantas e quantas mães e esposas visitam, dão auxílio e nunca praticaram nenhum crime. — Rebato já cansada de tudo isso.
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