“Deitada na cama do hospital, agarrei meu ventre vazio, as palavras do médico sobre o meu aborto ainda ecoando na minha mente como um pesadelo sem fim. Liguei para o meu marido, desesperada por qualquer migalha de conforto, mas a voz dele soou irritada, quase agressiva. "Alice, agora não", Érico retrucou, impaciente. "A cachorra da Babi está vomitando. A Babi está histérica. Pegue um táxi e pare de ser tão dramática." Ele desligou na cara da esposa que acabara de perder o filho deles para consolar o Lulu da Pomerânia da amante. Quando arrastei meu corpo quebrado para casa, ele não me abraçou. Ele me forçou a pedir desculpas para a cachorra. Então veio o golpe final: assisti pela TV enquanto ele presenteava sua amante com todo o meu portfólio de fotografia, alegando ser trabalho dela, enquanto me entregava um frasco de perfume ao qual ele sabia que eu era mortalmente alérgica. Destruída, fui a uma clínica radical para ter minhas memórias dele apagadas para sempre. Mas o procedimento não me deixou em branco. Ele destrancou uma porta que eu nem sabia que existia. Eu não era a órfã Alice Dias. Eu era Alice Albuquerque, a herdeira bilionária desaparecida. E eu cansei de pedir desculpas.”