Entregue Ao Mafioso

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ClaraM

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Cleo era uma modelo famosa, desejada por homens que jamais conseguiram alcançá-la. Até um acidente destruir sua carreira e parte de sua visão. De volta ao Brasil, após a morte da mãe, descobre que o padrasto é um traficante endividado. A dívida precisa ser paga. E ele encontrou a moeda perfeita: Cleo.

Entregue Ao Mafioso Capítulo 1 A Última Noite

ℙ𝕒𝕣𝕚𝕤, 𝔽𝕣𝕒𝕟𝕔̧𝕒 - 𝟚𝟙 𝕕𝕖 𝕆𝕦𝕥𝕦𝕓𝕣𝕠 𝟘𝟚:𝟜𝟟

O flash ainda queimava atrás das pálpebras de Cleo quando ela arrancou o último grampo do cabelo e o atirou contra o espelho do camarim.

"Merde", murmurou, sem saber por que xingava em francês. Talvez porque o cansaço tivesse dissolvido seu português. Talvez porque Paris exigisse performance até no colapso.

O desfile terminara havia quarenta minutos, mas as luzes da passarela ainda pulsavam em sua cabeça.

Saint Laurent. Primavera-Verão.

Ela fora o rosto de encerramento: o vestido preto que cortava a silhueta, os saltos que desafiavam a gravidade, o olhar que dizia eu sei que você me quer e você nunca vai me tocar sem precisar mover um único músculo facial.

Anna Wintour aplaudira de pé. Anna nunca aplaudia de pé.

Cleo puxou o zíper do vestido emprestado -devolveria amassado, que se fodessem - e vestiu a camiseta larga que cheirava a cigarro.

Alguém batera à porta do camarim três vezes nos últimos dez minutos.

A primeira, um jornalista da Vogue Italia querendo uma palavra sobre o futuro da moda brasileira.

A segunda, um fotógrafo implorando por apenas um clique sem maquiagem, para a posteridade.

A terceira...

"Cleo?", A voz era masculina, grave, com o tom de quem estava acostumado a conseguir o que queria. "Sei que está aí. Vi você entrar."

Ela reconheceu o sotaque. Italiano. Milionário. Casado.

"E eu vi você sair da minha lista de prioridades", respondeu, sem abrir a porta. "Arrivederci, Giancarlo."

Os passos dele se afastaram, hesitantes, como se ainda considerasse insistir. Não insistiu.

Eles nunca insistiam depois que ela estabelecia o tom. Esse era o truque: tratá-los como cães. Um comando firme e eles se sentavam.

Os homens que a desejavam formavam uma fila silenciosa que se estendia por continentes, e Cleo aprendera, aos dezessete anos, que o poder não estava em aceitá-los, mas em fazê-los esperar eternamente.

Você é a Gisele Bündchen da nova geração, dissera a Forbes no mês passado, estampando seu rosto na capa. Mas com mais atitude e menos sorrisos.

Cleo não sorria para câmeras. Sorria para sua mãe, quando ninguém estava olhando. Sorria para seu reflexo, às vezes, quando o cansaço não a consumia. Sorria para os poucos amigos que sobraram antes da fama engolir sua agenda.

Porém, para o mundo, oferecia apenas o olhar, o olhar que Anna Wintour aplaudira, o olhar que dizia sou inalcançável e fazia os homens desejarem escalar o impossível.

Pegou o celular.

Trinta e sete notificações. Marcas querendo renovações de contrato. A agência em Milão pedindo confirmação para o voo de amanhã. Uma mensagem de áudio da mãe, enviada às onze da noite, que ela ainda não ouvira.

O estômago revirou. Não era fome, era a vodca barata da afterparty, misturada com o champanhe caro do desfile, formando um coquetel químico que seu corpo ainda processava.

A boca seca. A luz fluorescente do camarim agredindo suas retinas. Latejava uma veia na têmpora direita, insistente, punitiva.

"Idiota", sussurrou para si mesma, massageando as pálpebras com a ponta dos dedos. "Bebeu como uma universitária na noite anterior ao desfile mais importante da temporada."

Mas conseguira. Conseguira porque era Cleo Vasconcellos, e Cleo Vasconcellos não falhava. Nem com ressaca. Nem com três horas de sono. Nem com o coração acelerado pela ansiedade que ninguém via por trás da máscara de confiança absoluta.

O celular vibrou.

MÃE, dizia a tela.

Cleo atendeu no terceiro toque, massageando a nuca com a mão livre.

"Alô?"

"Você chegou?" A voz de Dona Fátima era um calmante, mesmo à distância. Sempre tranquila. Sempre preocupada. Sempre carregando o sotaque mineiro que o tempo no Rio de Janeiro não conseguira apagar.

"Ainda não, mãe. Tô saindo do desfile agora."

"Agora? Filha, são quase três da manhã."

"Três da manhã em Paris", corrigiu Cleo, um sorriso cansado escapando-lhe dos lábios. "Em São Paulo são... onze da noite? Dez? Sei lá. Não me confunde com fuso horário, que minha cabeça já tá confusa o suficiente."

"Você bebeu." Não era uma pergunta.

"Um pouco" admitiu Cleo, porque mentir para a mãe era inútil. Dona Fátima possuía um radar sobrenatural para as fraquezas da filha. "Mas não o suficiente para não conseguir dirigir."

"Cleo..."

"Mãe, eu sobrevivi a três horas de salto agulha numa passarela de quinze metros. Acho que sobrevivo a quinze minutos de carro até o hotel."

Do outro lado da linha, um suspiro. Depois, o silêncio que precedia as perguntas difíceis.

"Filha... você consegue mandar mais cinquenta?"

Cleo franziu a testa. O rubi no dedo indicador, presente de um sheik que tentara cortejá-la em Dubai, brilhou sob a luz quando seus dedos se apertaram ao redor do celular.

"Cinquenta?"

"Mil" corrigiu a mãe, a voz murchando na última sílaba.

Silêncio.

Cleo encostou-se à bancada do camarim, o mármore frio contra as costas.

Cinquenta mil. Mandara cinquenta mil na semana passada. Na semana passada. E vinte mil no mês anterior. E trinta mil antes disso. Para onde estava indo todo aquele dinheiro?

A mansão no Rio de Janeiro estava quitada. A mãe não tinha vícios. Não viajava. Não comprava joias. Vivia uma vida modesta, quase monástica, enquanto a filha acumulava contratos milionários nas passarelas da Europa.

"Mãe...", começou, mas interrompeu-se. Não queria brigar. Não às três da manhã, não com o crânio latejando, não com a boca seca e o estômago embrulhado. "Tá. Eu mando."

"Obrigada, filha. Você não sabe como..."

"Sei. Sei sim." A mentira era automática, ensaiada. Ela não sabia. Não fazia ideia do que estava acontecendo. Mas a exaustão pesava mais que a curiosidade. "Escuta, vou dirigindo pro hotel. Te ligo quando chegar, tá?"

"Cleo?", A voz da mãe hesitou. "Seu padrasto está aqui."

O corpo de Cleo enrijeceu-se.

Padrasto. A palavra sempre lhe causara urticária. Humberto entrara na vida delas quando Cleo tinha quatorze anos, carregando promessas e um sorriso fácil demais. Ele nunca a machucara, não fisicamente. No entanto, havia algo nos olhos dele, algo na forma como observava o sucesso da enteada, que a fazia sentir-se como um ativo sendo avaliado.

"Ele quer falar comigo?" perguntou, a voz perdendo o cansaço e ganhando um fio de alerta.

"Boa noite, Cleo." A voz de Humberto surgiu na linha, grave. Sempre controlada demais.

"Você está com minha mãe?"

"Estou."

"Aconteceu alguma coisa?"

A pausa foi mínima. Quase imperceptível. Porém, Cleo a notou.

"Nada que você precise se preocupar.", E então, como se lesse o desconforto dela através do Atlântico: "Sua mãe só está cansada. Mande o dinheiro quando puder. Boa viagem de volta."

A ligação caiu.

Cleo ficou olhando para a tela por longos segundos, o polegar pairando sobre o contato da mãe.

Algo estava errado. Algo estava muito errado. Contudo, a ressaca pulsava em suas têmporas, e o cansaço pesava em seus ossos, e Paris estava fria e escura lá fora, e tudo o que ela queria era uma cama de hotel e doze horas de inconsciência.

A mensagem chegou quando ela já estava saindo do camarim, a bolsa pendurada no ombro, os saltos na mão.

MÃE: Te amo. Me liga quando chegar.

Cleo visualizou. Guardou o celular no bolso. Não respondeu.

O estacionamento do Grand Palais estava vazio, exceto pelo Audi preto que a agência disponibilizara - um carro bonito demais para uma motorista cansada demais.

Cleo jogou a bolsa no banco do passageiro, atirou os saltos para o banco de trás e sentou-se ao volante com os pés descalços. O couro frio do assento arrancou-lhe um arrepio.

Devia ter pedido um motorista, pensou, girando a chave na ignição. Devia ter deixado o Giancarlo me levar. Devia ter...

Porém, Cleo Vasconcellos não pedia. Não aceitava. Não dependia. Era essa a sua maldição.

O rádio ligou-se automaticamente, alguma estação francesa tocando uma balada melancólica que ela não reconhecia. As ruas de Paris deslizavam pela janela, molhadas pela garoa recente, refletindo as luzes âmbar dos postes. Quase vazias. Quase pacíficas.

A visão estava pesada. Cleo piscou, tentando afastar o cansaço que se acumulava atrás dos olhos. A boca seca. O estômago embrulhado da bebida. A luz dos faróis dos carros na direção contrária agredindo suas pupilas.

"Devia ter dormido no camarim", murmurou para o retrovisor. "Devia ter..."

O celular vibrou no banco ao lado. Ela olhou.

Apenas um segundo.

Apenas uma notificação qualquer, um email da agência, uma mensagem de um contato desconhecido, nada importante, nada que justificasse o gesto. No entanto, foi o suficiente.

Os faróis surgiram na curva.

Pneus cantando no asfalto molhado.

O freio - tarde demais.

Metal. Vidro. Silêncio.

O silêncio era pior que o barulho. Porque o barulho ela podia entender: o estrondo da colisão, o estilhaçar do vidro, o grito que não sabia se era dela ou do outro motorista. Mas o silêncio era um vazio, uma ausência, um nada que a engolia como uma boca escura.

Sirenes. Distantes, depois próximas.

Alguém gritando em francês - appelez une ambulance, vite, elle perd du sang - e Cleo tentava abrir os olhos, mas algo estava errado, algo estava muito errado, porque um lado do mundo respondia e o outro...

O outro era apenas escuridão.

"Mademoiselle? Vous m'entendez?"

Sim, ela ouvia. Porém, não conseguia responder. Sua boca estava cheia de alguma coisa - sangue, talvez, ou vidro, ou o gosto metálico do pânico.

"Minha...", tentou, e a palavra saiu pastosa, deformada. "Minha mãe..."

Alguém pressionava algo contra sua testa. Gaze. Um pano. Ela não sabia. Só sentia o latejar, a dor que explodia em ondas por trás do olho direito, o olho que não enxergava, o olho que...

"Ne bougez pas, mademoiselle. Les secours arrivent."

Só que ela precisava se mover. Precisava pegar o celular. Precisava ligar para a mãe e dizer cheguei, estou bem, não se preocupe, porque a mãe sempre se preocupava, a mãe sempre esperava, a mãe sempre...

A mensagem.

A mensagem que ela visualizara e não respondera. "Te amo. Me liga quando chegar."

Cleo tentou alcançar o banco do passageiro, onde o celular devia ter caído, mas sua mão não obedecia, seu braço estava preso em alguma coisa, e a escuridão estava avançando, comendo as bordas da sua consciência.

"Elle perd connaissance!"

A última coisa que viu - com o olho que ainda funcionava - foi o céu de Paris através do para-brisa estilhaçado. As estrelas estavam apagadas. Ou talvez fosse ela que estivesse apagando.

E então, nada.

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