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Gabriela foi prometida a Beto antes mesmo de nascer. Unidos por uma promessa entre suas mães, os dois cresceram juntos e viveram um amor de infância que todos acreditavam terminar em casamento. Mas uma traição foi apenas o começo. Mentiras, ciúmes e segredos destruíram o futuro que Gaby acreditava estar escrito para ela e a fizeram abandonar sua cidade natal. Dez anos depois, uma nova ferida a leva de volta às suas origens, movida pelo desejo de vingança. Entre antigos sentimentos, verdades escondidas e uma inesperada segunda chance, Gaby descobrirá que talvez tenha passado a vida acreditando no homem errado. Porque algumas promessas escondem segredos. E alguns destinos escondem o verdadeiro amor.
Minaçu/Goiás - 1.989.
Glória passou a mão devagar sobre a barriga, como se o simples gesto fosse capaz de proteger a criança que carregava.
Alice percebeu. Percebia quase tudo quando se tratava da amiga.
- Você está fazendo isso de novo.
Glória ergueu os olhos.
- Isso o quê?
- Fingindo que não está com medo.
Um sorriso pequeno apareceu em seus lábios, mas desapareceu depressa.
- Talvez porque eu esteja tentando não pensar nisso.
Alice se aproximou e sentou-se ao lado dela no sofá. No chão da sala, Beto brincava com dois carrinhos, completamente alheio à conversa das duas mulheres. Tinha apenas dois anos e já parecia ter energia suficiente para ocupar a casa inteira.
- O médico disse que está tudo bem - Alice lembrou.
- Hoje.
- Glória...
- Hoje está tudo bem - repetiu ela, baixando os olhos para a barriga. - Da outra vez também esteve. Até deixar de estar.
Alice ficou em silêncio. Não havia frase bonita capaz de apagar o que a amiga vivera.
Duas vezes Glória havia engravidado. Duas vezes fizera planos. Duas vezes voltara para casa sem o filho que esperava.
Aquela terceira gravidez chegara acompanhada de uma felicidade que ela quase não se permitia sentir.
Alice segurou sua mão.
- Desta vez vai dar certo.
Glória soltou uma risada sem humor.
- Você sempre teve essa mania de decidir o futuro.
- E quase sempre acerto.
- Quase.
- Está bem. - Alice fingiu indignação. - Depois de tantos anos de amizade, você ainda duvida de mim?
Glória finalmente sorriu.
Aquilo, pelo menos, continuava igual. Desde meninas, elas haviam dividido segredos, sonhos, brigas, reconciliações e uma quantidade absurda de planos. Cresceram imaginando que fariam tudo juntas.
Até os casamentos aconteceram assim: duas amigas entrando na mesma igreja, no mesmo dia, para se casarem com dois homens que também eram grandes amigos. Na época, aquilo parecera a confirmação de que nada conseguiria separá-las.
Depois vieram os planos para os filhos. Alice engravidara primeiro, enquanto, para Glória, os meses de espera haviam se transformado em anos de frustração, médicos, esperança e perdas que nenhuma das duas previra quando sonhava com duas crianças correndo juntas pelas casas vizinhas.
Alice olhou para o menino no chão.
- Beto, meu amor, não bata o carrinho na parede.
Ele interrompeu o movimento por alguns segundos e olhou para a mãe.
- Não bati.
Alice arqueou uma sobrancelha.
- Ainda.
Glória riu. O menino voltou a brincar.
- Está vendo? - Alice falou. - Você precisa ter logo esse bebê. Meu filho está precisando de companhia.
- Ah, claro. Então toda essa sua preocupação comigo é porque você quer alguém para entreter o Beto.
- Finalmente descobriu.
Glória balançou a cabeça.
- Interesseira.
- Desde sempre.
O silêncio que veio depois foi confortável. Alice observou a amiga por alguns instantes.
- Você ainda não quis saber se é menino ou menina.
Glória negou com a cabeça.
- Não.
- Por quê?
Ela demorou a responder.
- Porque não quero me apegar mais do que já estou.
Alice sentiu o coração apertar.
- Você já está apegada.
Glória deixou escapar uma respiração profunda.
- Eu sei.
- E sabe que não vai sofrer menos só porque não escolheu o nome ou a cor do quarto.
- Também sei.
- Então?
Glória voltou a acariciar a barriga.
- Acho que estou esperando ter certeza de que vou conseguir trazer meu bebê para casa.
Alice apertou a mão dela.
- Você vai.
- Não pode saber.
- Posso acreditar.
Glória olhou para a amiga, e Alice sustentou seu olhar.
- Nós sempre planejamos ter nossos filhos juntas, lembra?
- Como esquecer?
- E nossos planos só estão um pouquinho atrasados.
- Dois anos não são "um pouquinho".
- Para uma amizade que já dura quase uma vida inteira? São nada.
Glória sorriu outra vez.
- Você não desiste nunca, não é?
- Nunca.
Beto abandonou um dos carrinhos e se aproximou das duas. Encostou a mãozinha na perna de Glória e olhou para sua barriga.
- Bebê?
Glória se emocionou.
- É, meu amor. Tem um bebê aqui.
O menino franziu a testa, concentrado.
- Sai?
Alice riu.
- Vai sair. Mas ainda não.
Beto tocou a barriga com cuidado, e Glória cobriu a mãozinha dele com a sua.
Por alguns segundos, Alice apenas observou os dois. Uma ideia surgiu de forma tão simples que, mais tarde, ela talvez nem soubesse dizer quem a tivera primeiro.
- Imagina se for uma menina.
Glória olhou para ela.
- O quê?
Alice apontou para Beto.
- Uma menina.
- E daí?
- Já pensou?
Glória estreitou os olhos, desconfiada. Conhecia aquele brilho.
- Lá vem você.
- Nossas famílias ficariam unidas para sempre.
Glória soltou uma gargalhada.
- Alice!
- O quê?
- Você está falando sério?
- Talvez.
- Eles nem nasceram direito e você já está arranjando casamento?
Alice olhou para o filho, que continuava com a mão sobre a barriga de Glória.
- Não seria bonito?
- Seria loucura.
- Uma loucura bonita.
- Você é impossível.
- E você está sorrindo.
Glória tentou conter o sorriso, mas não conseguiu.
- Nem sabemos se é menina.
- Então fazemos assim.
Alice se ajeitou no sofá, agora inteiramente entregue à brincadeira.
- Se esse bebê for uma menina...
Glória esperou.
- ...um dia ela se casa com o Beto.
- Alice!
- Estou falando sério.
- Você acabou de admitir que é uma loucura.
- As melhores ideias quase sempre começam assim.
Glória olhou para Beto. O menino havia perdido o interesse na barriga e agora tentava subir no sofá entre as duas. Alice o ajudou, e ele imediatamente se acomodou perto de Glória.
- Olha isso - Alice insistiu. - Já gosta dela.
- Ele nem sabe que existe uma "ela".
- Então você acha que é menina?
- Eu não disse isso.
- Mas pensou.
Glória riu.
Por alguns instantes, toda a ansiedade pareceu menor. A criança estava ali, viva e crescendo. Imaginar o futuro deixou de parecer uma afronta ao medo para se transformar, por alguns minutos, em esperança.
- Está bem - Glória disse.
Alice abriu um sorriso.
- Está bem o quê?
- Se for menina...
- Sim?
Glória apontou um dedo para a amiga.
- E se nascer saudável...
A brincadeira perdeu um pouco da leveza. Alice compreendeu o que aquela condição significava e segurou a mão de Glória novamente.
- Vai nascer.
Glória respirou fundo.
- Se for menina e nascer bem... um dia pode se casar com Beto.
Alice apertou os dedos dela.
- Pode, não. Vai.
- Não abuse.
- Promete?
Glória olhou primeiro para a amiga. Depois, para o menino sentado entre elas.
Beto brincava com os próprios dedos, sem a menor ideia de que seu nome acabara de ser colocado no futuro de uma criança que ainda não conhecia.
Glória sorriu.
- Prometo.
Alice estendeu a mão.
- Então está prometido.
Glória entrelaçou os dedos aos dela.
- Está prometido.
As duas riram da solenidade absurda que haviam dado à brincadeira e, embaladas pela esperança, continuaram imaginando o futuro. Falaram sobre batizado, sobre os filhos crescerem juntos e sobre uma amizade que passaria de uma geração para outra. Decidiram que seriam madrinhas dos filhos uma da outra, reforçando ainda mais o laço entre as famílias.
Naquele momento, nenhuma delas enxergava qualquer perigo naquilo.
Era apenas amor. Era esperança. Era a maneira que duas amigas encontravam de acreditar que tudo ficaria bem.
Meses depois, em julho de 1989, Gabriela Monteiro nasceu.
Menina. Pequena. Muito desejada.
E viva.
Quando Alice a viu pela primeira vez, Glória estava cansada, mas sorria como Alice não a via sorrir havia muito tempo.
- Eu falei que ela viria - Alice murmurou.
Glória olhou para a filha nos braços.
- Falou.
- E também falei outra coisa.
Glória ergueu os olhos imediatamente.
- Nem comece.
Alice sorriu.
Beto estava ao lado dela, pequeno demais para compreender por que os adultos pareciam tão fascinados por aquele bebê. Alice se abaixou e o aproximou do berço.
- Olha, filho.
Beto observou Gabriela.
A menina mexeu uma das mãos. Ele estendeu a sua e tocou os dedos minúsculos dela.
Glória levou a mão à boca, emocionada.
Alice olhou para a amiga. Nenhuma das duas precisou repetir toda a conversa daquele dia.
Bastou uma frase.
- Está prometido.
Glória sorriu.
- Está prometido.
E, antes mesmo que Gabriela pudesse aprender a falar, outras pessoas já haviam começado a escrever o futuro dela.
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Carta ao leitor
Minaçu, localizada no extremo norte do estado de Goiás, é uma cidade pertencente à bacia hidrográfica do Rio Tocantins. O município abriga as usinas hidrelétricas de Serra da Mesa, uma das maiores do país, e de Cana Brava. A implantação desses empreendimentos contribuiu para o crescimento da cidade e o fortalecimento da indústria, do comércio, do turismo e do lazer.
A história de Minaçu também está profundamente ligada à mineração. O município abriga a mina de Cana Brava, uma das maiores jazidas de amianto crisotila da América Latina, cuja exploração desempenhou um papel fundamental em seu desenvolvimento econômico. Dessa atividade surgiu o nome Minaçu, que significa "Mina Grande".
Em 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a legislação federal que permitia a exploração e a comercialização do amianto crisotila no Brasil, considerando os riscos que o mineral representa à saúde humana. A interrupção das atividades mineradoras trouxe consequências econômicas e sociais para Minaçu, especialmente em razão da perda de postos de trabalho e da dependência do município em relação à mineração.
Em 2019, o estado de Goiás aprovou uma lei autorizando a extração e o beneficiamento do amianto crisotila exclusivamente para exportação, medida que passou a ser objeto de questionamento judicial.
Diante das transformações econômicas vividas ao longo de sua história, Minaçu buscou diversificar suas atividades, encontrando no turismo e no lazer novas oportunidades de desenvolvimento.
Embora este romance utilize acontecimentos relacionados à história e à economia de Minaçu como pano de fundo, Prometida ao Homem Errado é uma obra de ficção, fruto da livre criação artística da autora.
Os personagens, os relacionamentos e as situações narradas não pretendem retratar fielmente a realidade vivida pela população minaçuense, por quem a autora nutre profunda admiração e respeito.
Qualquer semelhança entre os personagens e acontecimentos fictícios desta obra e pessoas ou situações reais será mera coincidência.
💬 NOTA DA AUTORA
E então... vocês acham que essa promessa é romântica ou já começaram a enxergar uma bela confusão vindo por aí? 😂
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Nos vemos no próximo capítulo!
Nelma de Paula
Prometida ao Homem Errado
Nelma de Paula
Romance
Capítulo 1 PRÓLOGO: A Promessa
29/08/2026
Capítulo 2 Episódio 1: Prometida desde Menina
29/08/2026
Capítulo 3 Episódio 2: Uma Certeza Perigosa
30/08/2026
Capítulo 4 Episódio 3: A Primeira Fissura
30/08/2026
Capítulo 5 Episódio 4: O Que Gaby Não Sabe
30/08/2026
Capítulo 6 Episódio 5: O Flagrante
30/08/2026
Capítulo 7 Episódio 6: A Dúvida
31/08/2026
Capítulo 8 Episódio 7: Nada Mais Era Certo
31/08/2026
Capítulo 9 Episódio 8: A Serenata
31/08/2026
Capítulo 10 Episódio 9: A Carta
31/08/2026