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Pecadora

Capítulo 2 Pecadora

Palavras: 1173    |    Lançado em: 23/03/2022

. - Eu sou. - É nada! - Claro que sou. - Quer me enganar, Isa? - Balançou a cabeça. - Aquele cara não é pra você. É um imbecil! - Não fale assim do Isaque! - Um idiota, como o Ab

varais externos naquela manhã de domingo, ressaltando a aparência feia da vizinhança. A feira do dia anterior tinha deixado um cheiro de frutas podres no ar devido aos montes de lixo acumulados nos cantos à espera do lixeiro, que só passaria na segunda-feira. Para piorar, os vira- latas espalhavam todo o lixo em busca de comida. Meus pais seguiam à frente na calçada, sérios, bem- arrumados. Ele, de terno; ela, com uma roupa de domingo. Abílio ia depois, com o filho caçula no colo. Estava bem acima do peso, e suas pernas roçavam uma na outra. Seus cabelos rareavam, embora não tivesse nem trinta anos. Suava muito e, assim como Ruth, parecia acabado. Minha irmã vinha ao meu lado, respirando fundo por conta do peso da barriga de sete meses. Levava a filha pela mão. Nas esquinas, prostitutas e travestis já tinham encerrado o expediente da noite anterior. Algumas iam para casa por ali mesmo, outras paravam num bar para tomar a saideira. Eu tinha a impressão de que a pobreza se perpetuava em certos lugares. Muitas pessoas tinham passado pelo bairro, mas eu não via ninguém melhorar de vida nem tentar mudar aquele lugar. Digo, meu pai bem que tentava. Ele tinha montado na igreja um programa de arrecadação e distribuição de alimentos e iniciativas para arrumar emprego e moradia para quem não tinha e para auxiliar vítimas de tragédias. O pastor Sebastião podia ser excessivamente rígido, seguindo seu entendimento dos textos bíblicos e impondo costumes à família e aos fiéis, mas era um homem honesto, que tentava ser justo e nunca tinha desviado nem um real da igreja para proveito próprio. Vivíamos apenas do seu salário como pastor. Tudo o que arrecadava ele investia em obras sociais. Ajudava muita gente, a ponto de não ter tempo para si mesmo. Deixava suas vontades de lado em nome de algo maior, que era evangelizar. Cada pessoa que levava para a igreja, cada alma que libertava do que entendia como vício ou pecado, era uma vitória para ele. Dizia ser esse seu papel no mundo. Depois de muitos anos de trabalho, a sede da igreja Deus É

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“Eu ri, deitada ao lado da minha irmã, ambas apertadas na minha cama de solteiro, como costumávamos fazer nas manhãs de domingo. Era engraçado como Rebeca sempre me fazia sentir livre e solta como normalmente eu não era. Eu sempre tinha sido tímida e quieta; ela, extrovertida e espalhafatosa. - Você​ri?​-​Ela​me​empurrou​com​o​ombro, pressionando-me contra a parede. Empurrei-a de volta, e ela quase caiu. Gargalhamos. Então ela envolveu minha cintura com um braço e ergueu o rosto, olhando para mim e dizendo, inesperadamente: - Estou grávida. Gelei, muda. Virei minha cabeça sobre o travesseiro e busquei os olhos dela, pensando ser mais uma brincadeira. Mas ela estava séria. Deixou a cabeça cair no meu travesseiro e ficamos nos encarando. Senti medo por ela. Minha irmã é quase dois anos mais velha do que eu, mas ainda assim tinha só dezoito anos. Ameacei chorar, mas me segurei. Murmurei, angustiada: - Meu Deus... - Deus não tem nada a ver com isso, Isabel. Ou talvez tenha... - Ela deu de ombros. - Você vai ser titia. - Rebeca, você sabe que isso vai ser uma tragédia aqui em casa. - Eu me ergui e me sentei, tensa. - Papai e mamãe... - Vão querer me matar. Ou melhor, me casar - brincou ela, de novo. Ela se sentou também, passando a mão pelo cabelo curto, na altura do pescoço, em cachos desconexos. Era totalmente diferente do meu, que passava da cintura, como fora o dela um dia, antes de se revoltar e cortar tudo, episódio que quase lhe custara uma surra do nosso pai. - Casar com quem? Quem é o pai do bebê? - Como vou saber, Isa? - debochou ela. - Pode ser qualquer um dos dez ou vinte com quem transei nos últimos tempos. - Ah, Rebeca! - Segurei suas mãos, nervosa. Não concordava com muitas das loucuras dela, mas, no fundo, eu a entendia. E me preocupava, por sua causa e por nossos pais. - Você faz isso só para confrontar os dois! - Faço porque quero! Sou livre! Sou maior de idade e trabalho. Vou contar a eles sobre a gravidez, alugar um quarto e sair daqui. Vou me livrar dessa loucura toda! - Não é loucura. - Tentei justificar. - Papai é pastor e... - Loucura! - repetiu, irritada. - Opressão! É isso o que ele faz com essa igreja que ele criou. Isso não é religião, Isabel. Deus não é essa infelicidade toda que somos obrigadas a suportar. Conheço muita, muita gente cristã que está longe de viver oprimida como nós. Uma parte de mim pensava como ela. Mas, criada desde pequena de maneira rígida, eu tinha medo daqueles pensamentos. Temia também pela salvação da minha irmã, que eu amava mais do que tudo. - Escute... - Coloquei a mão em seu rosto, com carinho e preocupação. - Não precisa dessa revolta toda. Você se machuca e magoa nossos pais, Rebeca. Pode falar o que quiser sem... - Falar o que quero? Desde quando? Não me faça rir, Isa! - Ela suspirou, mas não se afastou. - Sabe que eles não aceitam! É aquela religião maldita deles. - Não diga isso - briguei com ela. - É a nossa religião!”
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