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Pecadora

Capítulo 5 Pecadora

Palavras: 1326    |    Lançado em: 23/03/2022

migos frente a frente e todas as outras pessoas imóveis, esperando a morte de um deles. Conhecidos, fiéis da igreja, Isaque e os pais, todo mundo era testemunha d

pelos cabelos desgovernados e seu olhar encontrou o meu. - Eu amo você, irmã. Um dia, volto para ver você. Escape daqui assim que puder. Vá viver sua vida longe daqui e seja feliz. - Rebeca, espere... Vou pegar sua bolsa, seu casaco... - Não quero nada. - Não vai levar nada! - berrou Ruth. - Pode ficar com tudo, invejosa. - Rebeca se virou, abrindo os braços, pouco ligando para suas roupas, suas feridas ou para todos que a olhavam. - Finalmente vou ser livre! Então, seguiu andando pela rua, sem olhar para trás, enquanto as pessoas abriam caminho. Virou a esquina e nunca mais voltou. Eu não acreditei. Dei um grito e achei que ia desabar, tamanha era a dor que me consumia, mas meu pai não me soltou. Em vez disso, puxou-me para dentro de casa. Fomos seguidos pelo resto da família, todos em silêncio. Na sala, ele me largou e esfregou o rosto com as duas mãos, nervoso. Caí sentada no sofá, sentindo um aperto no peito. - Vai ser melhor assim - garantiu minha mãe. Sua voz era dura, mas seu semblante estava abatido e pálido. - Agora teremos paz - retrucou Ruth. E, então, dirigiu- se a mim: - Você sabia da gravidez e a acobertou! Sempre compactuou com as loucuras de Rebeca! Eu ainda estava aturdida, e foi assim que a encarei. Ela, meu pai, minha mãe, Abílio e até meus sobrinhos me olhavam quase acusadoramente. Eu só conseguia pensar em Rebeca me deixando para sempre e caindo no mundo grávida e sozinha. - Rebeca só encontrará a salvação no dia em que aceitar Jesus - disse minha mãe, séria. Então, olhou para meu pai: - Ela está fora do nosso controle, Sebastião. Mas Isabel está aqui. E não podemos deixar que ela vá pelo mesmo caminho. Temos que salvá-la. Perplexa, demorei a entender o que diziam. Meus pensamentos impuros, meus toques no meu corpo, minhas dúvidas sobre o que pregavam e meu amor incondicional por Rebeca. Eles temiam que eu me tornasse como ela. - Você vai mais vezes à igreja - Os olhos do meu pai cravaram em mim, duros e frios. - E está com quase dezessete anos. Vamos agilizar seu casamento com Isaque. Será bom para você. Ouvi em silêncio. No meio do caos e da dor, jurei a mim mesma que nunca seria uma pecadora. Tive vontade de tocar meus seios. Estavam doloridos, os mamilos duros contra o sutiã, roçando

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“Eu ri, deitada ao lado da minha irmã, ambas apertadas na minha cama de solteiro, como costumávamos fazer nas manhãs de domingo. Era engraçado como Rebeca sempre me fazia sentir livre e solta como normalmente eu não era. Eu sempre tinha sido tímida e quieta; ela, extrovertida e espalhafatosa. - Você​ri?​-​Ela​me​empurrou​com​o​ombro, pressionando-me contra a parede. Empurrei-a de volta, e ela quase caiu. Gargalhamos. Então ela envolveu minha cintura com um braço e ergueu o rosto, olhando para mim e dizendo, inesperadamente: - Estou grávida. Gelei, muda. Virei minha cabeça sobre o travesseiro e busquei os olhos dela, pensando ser mais uma brincadeira. Mas ela estava séria. Deixou a cabeça cair no meu travesseiro e ficamos nos encarando. Senti medo por ela. Minha irmã é quase dois anos mais velha do que eu, mas ainda assim tinha só dezoito anos. Ameacei chorar, mas me segurei. Murmurei, angustiada: - Meu Deus... - Deus não tem nada a ver com isso, Isabel. Ou talvez tenha... - Ela deu de ombros. - Você vai ser titia. - Rebeca, você sabe que isso vai ser uma tragédia aqui em casa. - Eu me ergui e me sentei, tensa. - Papai e mamãe... - Vão querer me matar. Ou melhor, me casar - brincou ela, de novo. Ela se sentou também, passando a mão pelo cabelo curto, na altura do pescoço, em cachos desconexos. Era totalmente diferente do meu, que passava da cintura, como fora o dela um dia, antes de se revoltar e cortar tudo, episódio que quase lhe custara uma surra do nosso pai. - Casar com quem? Quem é o pai do bebê? - Como vou saber, Isa? - debochou ela. - Pode ser qualquer um dos dez ou vinte com quem transei nos últimos tempos. - Ah, Rebeca! - Segurei suas mãos, nervosa. Não concordava com muitas das loucuras dela, mas, no fundo, eu a entendia. E me preocupava, por sua causa e por nossos pais. - Você faz isso só para confrontar os dois! - Faço porque quero! Sou livre! Sou maior de idade e trabalho. Vou contar a eles sobre a gravidez, alugar um quarto e sair daqui. Vou me livrar dessa loucura toda! - Não é loucura. - Tentei justificar. - Papai é pastor e... - Loucura! - repetiu, irritada. - Opressão! É isso o que ele faz com essa igreja que ele criou. Isso não é religião, Isabel. Deus não é essa infelicidade toda que somos obrigadas a suportar. Conheço muita, muita gente cristã que está longe de viver oprimida como nós. Uma parte de mim pensava como ela. Mas, criada desde pequena de maneira rígida, eu tinha medo daqueles pensamentos. Temia também pela salvação da minha irmã, que eu amava mais do que tudo. - Escute... - Coloquei a mão em seu rosto, com carinho e preocupação. - Não precisa dessa revolta toda. Você se machuca e magoa nossos pais, Rebeca. Pode falar o que quiser sem... - Falar o que quero? Desde quando? Não me faça rir, Isa! - Ela suspirou, mas não se afastou. - Sabe que eles não aceitam! É aquela religião maldita deles. - Não diga isso - briguei com ela. - É a nossa religião!”