Ele Escolheu o Cachorro; Eu Escolhi o Império

Ele Escolheu o Cachorro; Eu Escolhi o Império

Arcadia

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Capítulo

O lançamento do meu perfume, minha obra-prima, terminou em caos. Minha criação foi culpada por uma reação alérgica em massa que mandou pessoas para o hospital. Meu noivo, Bernardo, o homem que me prometeu o mundo, foi quem armou para mim. Ele me exilou em uma cabana remota por três anos, alegando que estava me protegendo. Na verdade, ele colocou seu irmão gêmeo para se passar por ele, roubando cada nova fórmula que eu criava e entregando-as para minha irmã de criação, Carla, que se tornou uma estrela com o meu trabalho. Quando finalmente os confrontei, o prédio em que estávamos desabou. Fiquei presa sob os escombros, sangrando até a morte. Os socorristas deram a Bernardo uma escolha: salvar a mim ou salvar o cachorro de Carla de uma área diferente e instável. "Salvem o cachorro", ele disse. "A Elisa é forte. Ela pode esperar." Ele me deixou para morrer. Mas eu sobrevivi. Resgatada pelos pais poderosos que eu havia afastado, recebi uma nova identidade e uma nova vida na Suíça. Agora, estou construindo meu próprio império e vou voltar para queimar o deles até as cinzas.

Ele Escolheu o Cachorro; Eu Escolhi o Império Capítulo 1

O lançamento do meu perfume, minha obra-prima, terminou em caos. Minha criação foi culpada por uma reação alérgica em massa que mandou pessoas para o hospital.

Meu noivo, Bernardo, o homem que me prometeu o mundo, foi quem armou para mim.

Ele me exilou em uma cabana remota por três anos, alegando que estava me protegendo. Na verdade, ele colocou seu irmão gêmeo para se passar por ele, roubando cada nova fórmula que eu criava e entregando-as para minha irmã de criação, Carla, que se tornou uma estrela com o meu trabalho.

Quando finalmente os confrontei, o prédio em que estávamos desabou. Fiquei presa sob os escombros, sangrando até a morte.

Os socorristas deram a Bernardo uma escolha: salvar a mim ou salvar o cachorro de Carla de uma área diferente e instável.

"Salvem o cachorro", ele disse. "A Elisa é forte. Ela pode esperar."

Ele me deixou para morrer.

Mas eu sobrevivi. Resgatada pelos pais poderosos que eu havia afastado, recebi uma nova identidade e uma nova vida na Suíça. Agora, estou construindo meu próprio império e vou voltar para queimar o deles até as cinzas.

Capítulo 1

Ponto de Vista: Elisa

As sirenes gritavam, uma sinfonia dissonante rasgando a opulenta festa de lançamento. Não era o som de celebração, mas o lamento cru e urgente das ambulâncias. Eu estava paralisada no palco, o aroma da minha obra-prima, "Flor Etérea", agora uma nuvem tóxica no ar. As pessoas ao meu redor não aplaudiam. Elas engasgavam, agarravam a garganta, a pele explodindo em urticárias vermelhas e furiosas. Não era para ser assim. Aquele não era o meu perfume.

Em um momento, o salão de festas do Copacabana Palace brilhava de expectativa; no seguinte, mergulhou no caos. Uma mulher em um vestido esmeralda cintilante desabou, seu rosto inchando de forma assustadora. Outro homem arranhava o pescoço, os olhos arregalados de terror. O ar ficou denso com um cheiro químico, algo acre e errado, muito distante do coração delicado de jasmim e sândalo do Flor Etérea. Minha visão turvou. Meu estômago revirou. Era um pesadelo, e eu estava completamente acordada.

"Elisa, o que você fez?" A voz de Bernardo Salles cortou o pânico crescente, afiada e acusadora. Ele era meu namorado, o CEO da Salles Luxo, o homem que havia defendido minha visão para esta fragrância. Seus olhos, geralmente quentes e reconfortantes, agora estavam frios, refletindo o horror ao nosso redor. Ele apontou para mim, depois para a multidão que se contorcia. A acusação silenciosa pesava no ar: *A culpa é sua*.

"Não, Bernardo, não!" Minha voz era um sussurro desesperado, quase inaudível acima dos gritos que aumentavam. "Não pode ser. Eu testei. Centenas de vezes. Estava perfeito. Puro." Busquei meu celular, abrindo os relatórios finais do laboratório, as anotações meticulosas detalhando cada ingrediente, cada protocolo de segurança. "Olha! Passou em todos os testes. Não há alérgenos no Flor Etérea."

Mas nada disso importava. O relatório oficial, gritado em um megafone por um chefe dos bombeiros de rosto severo, confirmou o pior. "Reação alérgica em massa. Grave. Produto identificado como fragrância 'Flor Etérea'. Recolhimento imediato necessário." As palavras ecoaram pelos tetos dourados, selando meu destino. Minha criação, minha paixão, era agora uma arma.

O som das sirenes da polícia se juntou aos lamentos das ambulâncias, um coro sombrio sinalizando o fim do meu mundo. A lei estava vindo. Processos. Indignação pública. Minha carreira, minha reputação, tudo que eu construí, estava desmoronando ao meu redor.

Bernardo agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte. "Temos que ir. Agora. Antes do circo da mídia, antes que os advogados cheguem. Eles vão te despedaçar, Elisa. Você vai ser arruinada." Ele me puxou por uma saída de serviço, para longe das luzes piscantes e dos olhares acusadores. Sua urgência era aterrorizante, mas também parecia um escudo. Ele estava me protegendo.

"Para onde estamos indo?" Eu ofeguei, tropeçando para acompanhá-lo.

"Para a fazenda da minha família em Petrópolis", ele disse, me empurrando para um carro preto que esperava. "É isolado. Ninguém vai te encontrar lá. Você estará segura. Eu vou cuidar de tudo aqui. Os processos, as relações públicas. Vou limpar seu nome."

Suas palavras eram uma tábua de salvação em meio a uma tempestade furiosa. "Você promete?" Minha voz era pequena, infantil.

Ele se inclinou, seus lábios roçando minha têmpora. "Eu prometo, meu amor. Apenas fique quieta. Fique segura. Eu vou me juntar a você assim que puder. Vamos superar isso, juntos."

Três anos se dissolveram na silenciosa e vasta natureza de Petrópolis. Três anos de solidão, quebrados apenas pelas visitas de "Bernardo". Ele chegava a cada poucos meses, um turbilhão de paixão e intensidade que me deixava sem fôlego. Cada vez, eu me agarrava a ele, ansiando por notícias do mundo exterior, por garantias de que meu nome estava sendo limpo, de que logo voltaríamos à nossa vida.

Mas algo mudou. O homem que me visitava não era exatamente o Bernardo que eu lembrava. Seu toque se tornou mais possessivo, menos terno. Seus olhos, embora ainda escuros e cativantes, tinham um brilho novo, quase predatório. Ele nunca falava do Rio, das investigações, da minha absolvição. Ele só falava de nós, do nosso refúgio isolado, do futuro que construiríamos aqui.

"Você parece cansado, meu amor", eu murmurava, traçando as linhas fracas ao redor de seus olhos durante uma dessas visitas intensas. "O Rio ainda está tão exigente?"

Ele me puxava para mais perto, seu abraço quase esmagador. "O mundo é um lugar cruel, Elisa. Cheio de abutres. Mas estar aqui, com você, é minha única paz." Ele me beijava então, um beijo longo e consumidor que roubava meu fôlego e sufocava minhas perguntas. Ele precisava de mim. Ele precisava deste santuário tranquilo. Como eu poderia negar isso a ele?

Seu ardor era implacável, quase insaciável. Ele me devorava com seus beijos, seu toque, sua necessidade desesperada. No início, fiquei lisonjeada, tranquilizada por sua devoção feroz. Era um contraste gritante com o terror e a incerteza que me levaram a Petrópolis. Isso deve ser amor, eu dizia a mim mesma. Um amor profundo e consumidor nascido do medo da perda.

Meses se transformaram em anos. Suas visitas se tornaram menos sobre conforto e mais sobre controle. Sua paixão beirava a agressão, seu amor um peso quase sufocante. Eu me acostumei a isso, às suas exigências ferozes, à maneira como ele me reivindicava, corpo e alma. Eu o amava, ou pelo menos, amava a ideia dele - o homem que estava sacrificando tudo para me proteger. Eu me preocupava com sua saúde, as olheiras escuras sob seus olhos, a maneira como ele parecia queimar a vida com uma intensidade desesperada.

"Você se esforça demais", eu sussurrava, acariciando seu cabelo.

Ele se afastava um pouco, seu olhar intenso. "Eu só tenho medo, Elisa. Medo de te perder. Medo do que o mundo fará se eu baixar a guarda." Sua vulnerabilidade era um gancho poderoso, me puxando mais fundo em sua narrativa de proteção e sacrifício.

Esse padrão continuou por três longos anos. Aceitei meu isolamento, minha dependência. Aceitei seu amor como era, intenso e exigente, o preço da minha segurança.

Então, a ligação veio.

"Elisa", sua voz, ainda profunda e ressonante, soou mais leve do que eu ouvia há anos. "Finalmente acabou. Eles limparam seu nome. Foi sabotagem, assim como você disse. Estamos livres."

Uma onda de alívio, tão profunda que fez meus joelhos fraquejarem, me inundou. "Ah, Bernardo! Sério? De verdade?" Lágrimas escorriam pelo meu rosto.

"Sim, meu amor", ele disse, sua voz transbordando de uma emoção que eu não ouvia há anos - alegria genuína. "E agora que a tempestade passou, há algo que preciso perguntar." Houve uma pausa, uma respiração suspensa através de milhares de quilômetros. "Case-se comigo, Elisa. Vamos oficializar. Vamos começar nossa vida de verdade agora."

Meu coração disparou. Era isso. O momento com que sonhei por três anos. A vindicação, o futuro, a promessa de uma vida com o homem que eu amava. "Sim!" Eu disse, engasgada, um soluço preso na garganta. "Mil vezes, sim!"

Fizemos planos. Grandes planos. Um casamento lindo no Rio, um novo começo. Esperei, tonta de antecipação, minhas malas prontas para minha jornada de volta. Ele prometeu enviar um jatinho particular para mim dentro de uma semana. Dias se transformaram em uma semana, depois uma semana em dez dias. Ele não veio. Minha excitação se transformou em uma ansiedade familiar. Algo estava errado.

Eu não podia mais esperar. Peguei o primeiro voo comercial de Petrópolis, desesperada para encontrá-lo, desesperada para entender. No momento em que pousei no Rio, um pressentimento arrepiante se instalou em mim. Fui direto aos nossos lugares de sempre, lugares onde ele poderia estar.

O clube privado no Jardim Botânico estava agitado, um zumbido baixo de vozes ricas. Empurrei as portas pesadas, meu coração batendo forte. E então, eu ouvi. Não a voz de Bernardo, não exatamente. Mas uma voz tão assustadoramente semelhante, se gabando, rindo, derramando segredos que eu não deveria ouvir. Estava em um reservado, logo depois do bar principal.

"Nossa, Cássio, você realmente interpretou o papel", uma voz de mulher riu. "Três anos? Preso em Petrópolis com a Elisa? Você é uma lenda."

Meu sangue gelou. Cássio? Bernardo tinha um irmão gêmeo, Cássio, um cara imprevisível, um parente distante que eu só tinha encontrado uma vez.

"Foi um papel desafiador, querida", a voz, inconfundivelmente de Bernardo, mas não de Bernardo, arrastou-se. "Mas a recompensa valeu a pena. Bernardo precisava dela fora do caminho, e eu precisava de um pouco de... entretenimento." Ele riu, um som arrepiante e decadente. "Pobre Elisa. Tão confiante, tão ingênua. Entregando todos os seus segredinhos de perfume, pensando que estava enviando para ele."

Uma voz diferente, esta mais aguda e venenosa, falou em seguida. "E aquelas fórmulas que ela pensava que a estavam protegendo? Elas me tornaram uma estrela. Cada prêmio, cada elogio. Tudo graças ao 'trabalho duro' da querida Elisa. Ela só não percebeu que estava trabalhando para mim."

Minha respiração falhou. Carla Medeiros. Minha irmã de criação. A mulher que jurou me superar, custe o que custar.

O verdadeiro Bernardo Salles, o homem que tinha sido meu namorado, meu protetor, meu noivo, finalmente falou. Sua voz estava desprovida do calor que eu um dia amei, substituída por uma frieza calculista. "Foi o plano perfeito. Incriminá-la, isolá-la, roubar o trabalho de sua vida. Cássio desempenhou seu papel lindamente."

"E o casamento? É só para inglês ver?" Carla perguntou, sua voz pingando malícia.

"Claro", Bernardo respondeu, um sorriso cruel evidente em seu tom. "Um ato final de humilhação pública. Ela volta, pensando que é a rainha, apenas para descobrir que está usando uma coroa de espinhos, uma tola desfilando para todos verem. Minha pequena Elisa sempre foi apenas um degrau, um meio para o sucesso da Carla. E para nós."

O mundo girou. Meu anel de noivado, o diamante brilhando no meu dedo, parecia um carvão em brasa. Cada palavra terna, cada beijo apaixonado, cada promessa de um futuro - tudo mentira. Tudo de um homem que nem era o homem que eu amava. Meu Bernardo. Meu verdadeiro Bernardo. O homem que eu acreditava estar lutando por mim, na verdade, estava orquestrando minha queda.

Um grito silencioso rasgou meu peito. A dor era física, um fogo abrasador. Pressionei a mão na boca, sufocando o soluço desesperado que ameaçava escapar. Eu tinha que sair. Eu tinha que desaparecer. Não da indignação pública, mas desta teia sufocante de engano.

Meu celular tremia na minha mão. Disquei o único número que eu sabia que ofereceria uma verdadeira fuga, um verdadeiro santuário. Meus pais. Os magnatas da tecnologia de quem eu me distanciei, ansiosa para provar meu próprio valor.

"Mãe", minha voz era um sussurro quebrado, "preciso da sua ajuda. Preciso desaparecer. Completamente. Você pode me apagar? Fazer com que eu nunca tenha estado aqui?"

A voz da minha mãe, geralmente tão calma e ponderada, quebrou com preocupação. "Elisa? O que aconteceu? Claro, querida. O que você precisar."

"Preciso de passagens. Para a Europa. E preciso que minha identidade brasileira... suma. Apagada. Não posso ser encontrada." Minha voz ficou mais forte, alimentada por uma raiva fria e ardente.

"Vai levar tempo para anular completamente sua identidade, meu bem", ela disse, sua voz cheia de preocupação. "Mas podemos te tirar daqui esta noite. Um jatinho particular. Para a Suíça. Seu pai e eu encontraremos você lá. Vamos resolver tudo."

"Ótimo", eu disse, uma única lágrima amarga finalmente escapando. "Estarei lá." Minha voz estava plana, desprovida de emoção. Eles pensaram que me quebraram. Estavam errados. Eles apenas me libertaram.

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