O CEO De Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar

O CEO De Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar

Priscila Ozilio

5.0
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Capítulo

Dois anos atrás, um acidente destruiu duas famílias. Emma Anderson estava ao volante no dia em que o destino colidiu com a vida de Damien Knight. Ela perdeu os pais; ele perdeu a esposa. E o pequeno Luca, filho de Damien, perdeu algo precioso: sua voz. Desde a tragédia, Damien construiu um império de gelo e jurou jamais perdoar os responsáveis. Ele só não imaginava que o destino colocaria uma dessas pessoas exatamente sob o seu teto. Desesperada para salvar a vida da irmã e sem alternativas para custear seu tratamento médico, Emma é forçada a aceitar uma proposta implacável: assinar um contrato de servidão disfarçado de emprego. Como babá de Luca, ela deve viver na mansão do homem que tem todos os motivos para odiá-la. O que começou como um contrato assinado sob pressão, torna-se uma teia perigosa. Enquanto o pequeno Luca se agarra a Emma como se reconhecesse nela a cura para seu silêncio, Damien se vê dividido. Ele a deseja com uma intensidade que desafia sua lógica, sem saber que ela é a face do seu maior rancor. Entre cláusulas contratuais, culpas divididas e uma atração proibida, o passado começa a emergir. E quando a verdade vier à tona, Damien terá que escolher: Manter o ódio que o sustenta... Ou aceitar que o amor pode florescer do mesmo solo onde tudo foi destruído.

O CEO De Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar Capítulo 1 O Dia Em Que o Céu Caiu

Capítulo 1 - O Dia Em Que o Céu Caiu

Emma Anderson

O mundo não avisa quando vai ruir. Às vezes, ele só dobra na curva errada.

O grito veio antes do metal. Um grito de mulher, tão alto que parecia rasgar o próprio ar. Eu ainda sentia o volante tremendo nas minhas mãos quando a luz branca engoliu tudo. Depois... nada. Veio um silêncio que pesava mais que qualquer barulho.

Pisquei. O cheiro de gasolina queimava a garganta. O airbag me sufocava contra o banco. Ellie chorava atrás de mim, um choro pequeno, engasgado, que partia minha alma no meio.

- Ellie... princesa... calma... calma... - Minha voz saiu rouca, partida. Virei o pescoço devagar; sangue quente escorria da minha testa e pingava no volante.

- Papai? Nenhuma resposta. - Mamãe? - Chamei.

Mamãe estava caída contra a janela, o rosto virado para o lado errado. Papai... papai parecia dormir, mas o sono dele era pesado demais. Ellie gritava mais alto agora.

- Ellie... eu tô indo. - falei tentando acalmá-la.

Meus pais não acordaram, nem com o choro da minha irmã, nem mesmo com meus movimentos. Abri a porta com dificuldade, desci do banco com as pernas moles, desamarrei a cadeirinha com dedos que não pareciam meus. Puxei minha irmãzinha para o peito. Ela enterrou o rosto no meu pescoço, as mãozinhas agarrando minha blusa como se eu fosse a última coisa sólida do planeta.

- Tá tudo bem, meu amor... a Em tá aqui... a Em tá aqui... - Mentira. Nada estava bem. Mas era tudo que eu tinha para dar a ela.

Saí cambaleando do carro com Ellie nos braços. O asfalto queimava através das solas dos meus tênis. Minha visão escurecia nas bordas.

- Já volto, papai... já volto, mamãe... eu juro...

Uma voz fraca, quase um sopro, veio do outro carro, aquele que estava grudado no nosso como se tivessem se fundido.

- Por favor... meu filho...

Olhei. Uma mulher loira, presa entre o volante e o painel destruído, me encarava. O vestido claro agora era vermelho. Muito vermelho. Ela segurava a barriga com as duas mãos, como se tentasse manter a vida lá dentro. E no banco de trás, um menininho de uns três anos chorava, preso na cadeirinha, os cabelos loiros grudados no rosto.

Meu coração parou e depois disparou tão forte que doeu.

- Eu pego ele! Eu pego!

Coloquei Ellie no chão com cuidado. Uma mulher que eu nunca tinha visto na vida já corria na nossa direção.

- Me dá ela, me dá! - a desconhecida gritou, os olhos arregalados.

Entreguei minha irmã. Ellie se debateu, gritando meu nome.

- Eu já volto, princesinha, a Em já volta - eu disse para acalmar minha irmã.

Corri para o outro carro. O calor que vinha dali era insuportável. Puxei a porta traseira com as duas mãos; o metal queimou minhas palmas, mas a porta cedeu. Peguei o menino. Ele se agarrou a mim imediatamente, pernas e braços em volta do meu corpo como um macaquinho assustado.

- Tá tudo bem... tá tudo bem, pequeno...

Voltei para a porta da frente. A mulher esticou a mão trêmula e segurou meu pulso. Os olhos dela, verdes, estavam cheios de lágrimas e de uma calma que me aterrorizou.

- Qual... qual é o seu nome, anjo?

- Emma - minha voz falhou.

Ela sorriu. Um sorriso tão lindo e tão triste que eu nunca vou esquecer enquanto viver.

- Emma... - repetiu, como se estivesse guardando dentro do peito. - Obrigada... por salvar o meu Luca.

- A senhora vai ficar bem - menti, porque era o que as pessoas faziam nessas horas. - Eu vou tirar a senhora daí, eu prometo, eu...

Ela balançou a cabeça devagar. O sangue escorria mais rápido agora.

- Não, meu amor. Meu tempo acabou. - Ela olhou para Luca, que tremia nos meus braços. - Mas o dele não. Leva ele. Corre. Vive por ele. Ama por mim.

Lágrimas quentes queimaram meu rosto. Eram palavras difíceis de se ouvir vinda de alguém que estava partindo.

- Eu volto! Eu juro que volto pra buscar a senhora e meus pais...

- Emma - ela apertou minha mão com uma força que não parecia possível. - Escuta uma mãe que está morrendo: salva meu filho. É o único pedido que eu tenho no mundo.

Um homem gritou ao longe:

- ÓLEO VAZANDO! VAI EXPLODIR, CORRE!

Olhei para trás. Meu pai... meu pai tinha aberto os olhos. Só um segundo. Ele me viu. Moveu os lábios com sacrifício.

- Corre, filha. Corre, minha menina, e cuida da Ellie.

- Pai! - berrei de volta.

A mulher apertou minha mão uma última vez.

- Eu vou voltar, senhora... - minha voz saiu em um fio.

- Clara - ela me disse seu nome, as lágrimas agora escorrendo em enxurrada por seu rosto. - Vá, Emma. Vá e não olhe para trás. Faça desse dia o começo de uma história linda para vocês três.

- Nós três? - perguntei, confusa, e ela olhou para minha irmã, que me gritava atrás de mim no colo da estranha.

Ouvi o barulho das sirenes ao longe, a ajuda estava chegando. Luca se apertou mais ainda em mim. E foi aí que a primeira explosão veio.

- CORRE, EMMA!!! - meu pai gritou em prantos.

- Vai, querida - Clara me disse. - Salve a vida de vocês!!

Eu não conseguia falar. Só balancei a cabeça, engasgada. Ela soltou minha mão devagar, como quem entrega o bem mais precioso do universo.

Olhei para meu pai...

- Papai... - sussurrei.

- Seja feliz, minha princesa, o papai te ama.

Meu corpo quis ceder, a vontade de ir até ele me corroendo por dentro.

- VAI EXPLODIR!!!

Foi a última coisa que ouvi, e então eu... corri. Corri com Luca agarrado ao meu peito e Ellie gritando meu nome a poucos metros. Corri enquanto o chão tremia. Corri enquanto o ar ficava quente demais, pesado demais.

E então... O mundo explodiu atrás de mim.

Uma onda de calor me jogou para frente. Caí de joelhos no asfalto, protegendo Luca com o corpo. O estrondo foi tão forte que meus ouvidos sangraram. Quando levantei a cabeça, o céu estava laranja. E tudo que eu amava... Tinha virado fogo.

- Mamãe... Papai... - sussurrei e apaguei.

Acordei de repente, puxando o ar com força, como se ainda estivesse presa no meio da fumaça. Meu coração batia tão rápido que doía. Minhas mãos ainda tentavam segurar Luca e Ellie, mesmo que eles não estivessem ali.

Dois anos.

Dois anos e aquele maldito dia continuava preso dentro de mim como estilhaço. Eu podia jurar que ainda sentia o cheiro da gasolina, do fogo, do mundo caindo.

Fechei os olhos por um segundo, tentando lembrar onde eu estava. Meu quarto. A cama torta. A respiração quente ao meu lado.

Ellie.

Virei rápido demais e meu coração quase parou quando toquei a pele dela. Ardente. Queimando com a febre alta. A testa brilhando de suor. O corpinho inquieto, respirando curto.

Não. Não agora.

Senti meu estômago despencar. Hoje era o dia da entrevista. A única chance que eu tinha de, talvez, tirar a gente daquela espiral miserável. E eu não tinha dinheiro sobrando. Nem para o remédio. Nem para um médico. Nem para faltar.

Engoli o desespero, mas ele ficou preso na garganta, raspando.

"Ellie... pequena... aguenta um pouco, por favor", murmurei, afastando os fios grudados na testa dela.

Meu coração bateu torto. A mesma sensação de dois anos atrás, antes do mundo explodir. A diferença é que, dessa vez, eu não podia correr. Eu tinha que decidir. E o tempo, cruel como sempre, já não estava do meu lado.

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