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Ao nascer de sua consciência, tudo que ela conhece é a escuridão. Até que uma luz surge, acariciando sua alma e sussurrando promessas de algo que ainda não chegou. "Estou esperando." Transportada para um mundo de beleza e destruição, ela sente que perdeu algo essencial, algo que precisa encontrar, mesmo sem saber exatamente o quê. A única solução é continuar caminhando, seguindo fragmentos de luz que podem guiá-la, ou perdê-la para sempre. Uma história de fantasia e mistério, onde cada passo revela segredos do mundo... e dela mesma.
Era como se nada existisse. Apenas a escuridão se estendendo e desdobrando ao infinito e um pouco mais além. Aqui, neste lugar, nada existe. Coletivo ou individual, físico ou incorpóreo, nada disso importava. Seus pensamentos se juntavam e dispersavam antes de se formarem e desfazerem novamente.
Nada tinha cheiro, forma, tato, sabor ou som e, ao mesmo tempo em que tudo se convergia e se dissipava rapidamente, sempre ao alcance e eternamente distante o suficiente.
E então havia som. Um eco constante e ritmado, cada vez mais alto e imponente. Então, dentro desse vazio, em algum lugar com certeza havia algo, espreitando, esperando uma chance e que talvez fosse percebido, desejando ser reconhecido pela primeira vez.
- Seu tempo ainda não acabou. - Com uma única frase, todo o vazio estremeceu e pareceu encolher e dobrar em si mesmo. O espaço gemia e grunhia como se suportasse um peso inimaginável.
De repente havia luz. Ranhuras se estendiam indefinidamente, linhas finas em todas as direções, como se finalmente cedendo ao inevitável tudo colapsasse apenas para se condensar em um único ponto brilhante, uma pequena luz branca que parecia sugar toda a existência para si. Ao lado deste pequeno ponto uma figura disforme se fazia notável, seus traços impossíveis de distinguir.
- Este é seu. - O ser estendeu a pequena luz. - Eu vou esperar. Vá.
A luz branca se tornou opaca e então se estilhaçou. Logo havia forma e tato e a sua consciência retornou, os próprios pensamentos ainda além da compreensão, difíceis de interpretar e categorizar. E então o que lhe cercava já não era mais vazio.
Ela começou a cair.
- Espere... Por favor... - Sua própria voz clamava, fraca e mal compreendida por aquela que a pronunciava. Mas já era tarde. Suas mãos se estendiam em direção àquela figura disforme e enevoada que estava cada vez mais distante e inalcançável, até que o ser já não estivesse mais visível.
Ela continuou a cair, sem noção de nenhuma medida de tempo ou direção, até ser engolfada pelo frio. Um frio tão antinatural e invasivo que desfazia o próprio ser e incapacitava a mente. Ela tentou se mover, porém a queda continuava. O frio penetrava cada vez mais profundamente e então um impacto roubou seu ar e ela lembrou que podia respirar. Seu coração corria. O corpo foi tomado por tremores que nada tinham que ver com o frio. Os pulmões se encheram de água e os arredores se tornaram mais uma vez confusos e não familiares.
Em meio à sua luta desesperada por ar, ela notou, ali em meio à escuridão submersa e beirando a inconsciência, despretensiosamente, uma fenda de luz. A água se tornou pesada e pegajosa e se agarrava aos seus membros. A cada momento ficava mais difícil respirar. Era como se seu próprio corpo resistisse aos comandos e mãos lhe puxassem para cada vez mais longe. Arrastando-se desesperadamente, abrindo caminho e agarrando-se a montantes do que antes era água e agora era algo indistinto e lamacento, ela alcançou a fenda, agarrou com as duas mãos e forçou uma abertura.
Vá. Ela tinha que ir, ainda era incerto onde ou por quê. Porém, no fundo de sua mente, aquela voz irreconhecível lhe dizia para ir. Siga, não pare. Você tem que ir. Ela não ia parar. Não nesse lugar desconhecido e escuro. E não antes de alcançar onde tinha que ir, onde quer que esse lugar fosse.
Com mais força a fenda começou a se abrir, uma luz cegante emanando da abertura cada vez maior e o frio deu lugar ao calor. Mas, diferente do frio agressivo, esta luz era gentil e reconfortante, acolhendo e lhe embalando em um murmúrio suave. Ao fechar os olhos e se deixar envolver pela luz, ela pensou mais uma vez naquela figura misteriosa e sem forma e percebeu, no último instante antes de se entregar ao calor, que a voz lhe parecia intimamente familiar. Essa impressão logo foi absorvida pelo abraço da inconsciência. Não por muito tempo ela viria a recordar deste sentimento.
E então havia cheiro. Suas narinas ardiam e eram invadidas pelo odor pútrido, mas também adocicado. E havia gosto. Algo quente e amargo preenchia sua boca. Ela tentou abrir os olhos. Seus cílios tremeluziam com o esforço e pequenas gotas de orvalho pendiam dos fios delicados. Ao abrir uma pequena fenda rapidamente os fechou devido à ardência. Havia mais luz. Então tentou novamente, desta vez mais devagar, e se deu tempo para se acostumar à queimação daquela luz brilhante que vinha de cima.
O sol, ela pensou, colocando as mãos em frente ao rosto, encarando por um momento seus dedos ossudos e pálidos, e se pôs a estrela brilhante acima, aproveitando somente por mais um momento o calor do astro.
Ouvindo com mais atenção, ela percebeu o farfalhar de folhas. Com cautela desviou o olhar do céu límpido e cristalino para seus arredores.
A cor azul do dia, enganosamente radiante acima de sua cabeça, poderia mascarar o cenário devastador a poucos metros de seus pés. À frente corria um rio caudaloso cortando uma planície que se estendia até onde a vista conseguia alcançar, porém as águas estavam paradas, não havia corrente. Já às suas costas se erguia uma floresta esparsa. Estranhamente todas as árvores pareciam ter o mesmo tipo de tronco e folhas, presumivelmente todas eram da mesma espécie, quase como se alguém as tivesse plantado.
Porém havia um fator que perturbava o cenário natural. A água do rio, as raízes das árvores e cada lâmina de grama que cobria o chão da planície estavam manchadas de vermelho brilhante.
A intensidade do cheiro metálico aumentava a cada momento e além da própria respiração e do farfalhar das folhas em suas costas, não se escutava mais um único ruído em toda a planície.
Até onde a vista pudesse alcançar, estandartes rasgados tremulavam ao vento onde estavam fincados no solo, metal retorcido abandonado no chão ao lado das figuras imóveis de homens e cavalos.
Com um impulso instável, ela começou a caminhar em direção ao rio, o corpo trêmulo e enfraquecido, seus músculos doloridos mal funcionando. Os pés se arrastando mal saíam do solo em cada passo. Desviando dos desconhecidos que deitavam sem a esperança de um dia abrirem os olhos novamente e com cuidado para não tropeçar, ela alcançou a borda do corpo de água, que antes presumia ser cristalino e agora estava maculado com um tom rosado.
Ajoelhando-se e encarando a superfície reflexiva, encarando o que se presumia ser seu próprio rosto no lago, foi com surpresa e perplexidade que então percebeu.
Não houve sequer um traço de reconhecimento.
Ela não fazia ideia de quem era.
Mas de alguma forma sentia como se tivesse perdido algo extremamente valioso, algo que não se podia pôr em palavras. Ela havia deixado isso em algum lugar, só não se recordava onde. Tudo mais podia esperar para ser lembrado. Ela precisa começar a buscar aquilo primeiro.
Onde O Sol Se Perde
D.Rennard
Fantasia
Capítulo 1 1 - Em Lugar Nenhum
17/03/2026
Capítulo 2 À Sombra do Sol
17/03/2026
Capítulo 3 Quando O Sol Se Apaga
22/03/2026
Capítulo 4 Aqueles Que Caminham
23/03/2026
Capítulo 5 Dentro, Por Enquanto
20/04/2026
Capítulo 6 Capitulo 06 - O Lírio Coroado
02/08/2026
Capítulo 7 Capitulo 07 - O Ofício dos Vivos
04/08/2026
Capítulo 8 Capitulo 08 - Vigília
10/08/2026
Capítulo 9 Capitulo 09 - Aqueles que Partem, Aqueles que Ficam
10/08/2026
Capítulo 10 Capitulo 10 - Até Onde a Luz Alcança
11/08/2026
Capítulo 11 Capitulo 11 - Somente por Segurança
12/08/2026
Capítulo 12 Capitulo 12 - Problemas de Convivência
15/08/2026
Capítulo 13 Capitulo 13 - Quando Todos Dormem
21/08/2026
Capítulo 14 Capitulo 14 - Aquele que Procura...
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