/0/19400/coverbig.jpg?v=cf0649f668584b15041e4121ea0afc5c&imageMogr2/format/webp)
Nas sombras de uma cidade onde a névoa encobre pecados antigos, Corinne sobrevive como sempre viveu: roubando, correndo e nunca olhando para trás. Astuta, audaciosa e moldada pelas ruas frias, ela conhece o valor de cada moeda e o preço de confiar em alguém. Mas quando invade uma mansão esquecida pelo tempo em busca de seu maior golpe, Corinne encontra algo muito mais perigoso que ouro. Um colar. Bela e amaldiçoada, a joia desperta uma sentença cruel: seu coração começará a se transformar em pedra, endurecendo a cada dia, até que não reste nela nada além de silêncio e morte. Para quebrar a maldição antes da próxima lua cheia, Corinne terá de fazer o impensável: derramar o sangue de um príncipe herdeiro. Lançada em um jogo mortal entre salões luxuosos, segredos enterrados e uma corte tão bela quanto corrupta, Corinne se infiltra no coração do reino com um único objetivo: sobreviver. Porém, quanto mais se aproxima de seu alvo, mais a linha entre caçadora e condenada começa a se desfazer. Porque algumas maldições não exigem apenas sangue, exigem escolhas. Entre bailes sombrios, profecias esquecidas e verdades capazes de destruir um trono, descobrirá que seu maior inimigo talvez não seja a morte que avança dentro dela...mas o coração que, pela primeira vez, ameaça sentir algo antes de virar pedra. Todo tesouro tem um preço, e Corinne pode estar prestes a pagar com a própria alma.
A névoa descia sobre Belladonna como um véu, engolindo as ruas de paralelepípedos e apagando os contornos das casas. Era nessas noites que Corinne se sentia menos vista. Não que ela quisesse ser vista, aos vinte e dois anos, era uma das ladras mais hábeis da cidade baixa, mas a escuridão e a bruma lhe davam uma espécie de licença poética para existir sem ser notada. Corinne avançava por entre as sombras, os passos leves e silenciosos como os de um gato. O alvo daquela noite, porém, não era uma simples bolsa de moedas pendurada no cinto de um comerciante descuidado.
Nem uma taverna mal vigiada onde os clientes bebiam além da conta. Não. Corinne mirava algo muito maior, no coração da cidade velha, além dos becos e vielas que ela conhecia como as linhas de suas próprias mãos, havia uma casa. Um casarão, na verdade, de torres inclinadas que se debruçavam sobre o abismo como velhos cansados, janelas escuras como órbitas vazias e uma fachada de pedra negra coberta por hera morta. Abandonado há décadas. Diziam que pertencera à família linhagem poderosa que desapareceram em uma única noite, sem gritos, sem sangue, sem rastros. Apenas ausência. Desde então, a casa permanecia intocada. Os moradores desviavam o caminho para não passar por suas grades enferrujadas. As crianças atiravam pedras nos portões e corriam, rindo nervosas. Os mais velhos sussurravam histórias sobre maldições, espíritos vingativos e uma joias amaldiçoadas. Mas Corinne não acreditava em lendas, ela acreditava no que podia ver, tocar e levar. E tudo o que via naquela casa era uma oportunidade dourada. Tesouros esquecidos, relíquias de família, joias em cofres que ninguém ousava abrir. Isso bastava para arriscar.
Ela deslizou pelo muro de pedra coberto de musgo, os dedos encontrando as fendas escuras com a precisão de quem já escalou cem muros como aquele. O musgo estava escorregadio por causa da névoa, mas suas mãos não tremeram. No topo do muro, espiou o jardim selvagem que se estendia abaixo. Ervas daninhas altas dominavam os caminhos, formando um tapete verde-negro que engolia os pés. Estátuas cobertas de trepadeiras pareciam vigias esquecidas, rostos erodidos pelo tempo, mãos levantadas em súplicas silenciosas. O vento gemeu baixo, fazendo as correntes de um velho balanço rangerem. Com um salto ágil e silencioso, Corinne aterrissou sobre a grama úmida, os joelhos flexionados para amortecer o impacto. Ficou imóvel por um instante, os ouvidos atentos. Nada. Apenas o som de seu próprio coração e o chiado distante da cidade.
Ela se esgueirou até a entrada dos fundos, uma porta de carvalho negro que parecia ter sido esquecida pelo tempo. A maçaneta de ferro estava enferrujada, mas cedeu com um rangido longo e profundo, um som que pareceu ecoar por dentro da casa como um gemido. Lá dentro, o cheiro de poeira centenária e madeira apodrecida preencheu o ar, denso como algodão. Corinne acendeu uma tocha que trouxera na bolsa, e a chama dançou trêmula, revelando o corredor à sua frente. O piso de mármore branco, outrora impecável, estava rachado como vidro após uma queda. Folhas secas, trazidas pelo vento através de janelas quebradas, cobriam o chão em montes escuros. Retratos antigos pendiam das paredes em ângulos tortos, seus ocupantes pintados com olhos que pareciam seguir Corinne na penumbra, homens de expressão severa, mulheres de sorrisos gelados. Ela ignorou os calafrios que subiam pela espinha. Não era supersticiosa, não podia ser.
Subiu a escada central com cautela, desviando-se de degraus quebrados que rangevam sob o peso mínimo. A madeira gemeu como se reclamasse de ser pisada. No andar superior, corredores escuros se abriam como galhos de uma árvore morta. Ela seguiu para o quarto principal, guiada por uma intuição que a raramente falhava. Portas cerradas, gavetas lacradas, baús empoeirados, nada que suas mãos habilidosas não pudessem abrir. Seus dedos ágeis passaram por frascos de perfume ressecados, cujo conteúdo virara pó escuro. Por roupas desbotadas pelo tempo, tecidos que se desfaziam ao toque. Por uma caixa de música enferrujada que, quando tocada, soltou uma nota triste e desafinada. Nada daquilo tinha valor. Mas então, atrás de um painel falso no fundo do armário de ébano, seus dedos encontraram algo. Uma caixa pequena, forrada de veludo roxo, sem fechadura. Corinne a abriu com os dedos trêmulos.
E ali estava. Um colar feito de ouro. Sua corrente era fina com um pingente em formato de gota ornamentada, destacando uma pedra rubi cercada por detalhes elegantes. A pedra era tão escura que parecia sugar a luz da tocha. Brilhava com um brilho interno, úmido e pulsante, como um olho que a observava. Corinne nunca vira nada igual. Quando o segurou entre os dedos, sentiu um arrepio elétrico percorrer sua pele, como se mil agulhas de gelo tivessem tocado sua espinha. Algo em sua mente gritava para largá-lo, mas a ambição falou mais alto. A beleza daquela joia era tão hipnótica que a fez colocar ao redor do pescoço.
E o mundo desabou. Uma dor lancinante explodiu em seu peito, como se uma mão invisível tivesse mergulhado entre suas costelas e apertado seu coração com dedos de ferro. Sua visão escureceu, salpicada de estrelas vermelhas. Seu corpo cambaleou para trás, esbarrando no ponto onde havia apoiado a tocha para iluminar o ambiente. A madeira se soltou com o impacto, caiu no chão empoeirado e a chama se apagou quase instantaneamente, mergulhando o ambiente na escuridão. Quando sua visão finalmente voltou ao normal, a sala parecia diferente, mais fria, pesada, quase irreconhecível. Mesmo envolto pela escuridão, ele conseguia ver a fumaça branca escapar de seus lábios a cada respiração trêmula enquanto tentava conter a dor intensa que queimava por dentro. Milhares de vozes pareciam estar falando ao mesmo tempo em línguas que ela não reconhecia. Corinne caiu de joelhos, ofegante, as unhas cravadas no próprio peito. E então, uma voz ecoou na escuridão.
- Ladrões sempre buscam ouro, mas esquecem que todo tesouro tem um preço.
Corinne tentou se levantar, mas algo dentro dela estava terrivelmente errado. Seu coração não batia mais como antes. Batia devagar. Pesado. Como se estivesse se acumulando ali dentro, transformando-se em algo duro e imóvel.
- Seu destino está selado. Seu coração se tornará pedra a cada nascer do sol, até que esteja completamente petrificado. A única maneira de reverter a maldição é derramar o sangue de um príncipe herdeiro antes da próxima lua cheia.
Corinne arfou, os olhos arregalados como os de um animal encurralado. Sua respiração vinha em golfadas curtas e rápidas.
- Quem está aí?! - gritou, a voz ecoando vazia nos corredores vazios. - Apareça!
Mas a casa estava em silêncio novamente. Apenas o chiado da tocha morta e o bater descompassado de seu coração.
Ela levou as duas mãos ao pescoço em um movimento desesperado, tentando arrancar o colar à força. Os dedos tremiam enquanto puxava a corrente, cada vez com mais violência, até as unhas rasgarem a própria pele delicada de seu pescoço, deixando marcas avermelhadas e finos filetes de sangue. Ainda assim, nada aconteceu. A corrente dourada não possuía mais fecho algum. Não havia abertura, emenda ou qualquer sinal de que pudesse ser removida. Estava presa a Corinne como uma algema moldada especialmente para ela. Quanto mais tentava arrancá-la, mais sentia o metal afundar contra sua pele fria. O rubi preso ao centro do colar brilhava intensamente na escuridão, como uma chama viva respirando contra sua garganta. A luz vermelha pulsava devagar, em um ritmo quase orgânico, semelhante às batidas de um coração adormecido. O brilho refletia em sua pele pálida, tingindo seus dedos de vermelho enquanto ela encarava a joia com horror crescente. Parecia fundida ao seu corpo.
Seu coração batia forte, mas errado. Quando tocou o peito com a palma da mão, sentiu uma rigidez estranha logo abaixo da pele, na altura do esterno. Como se uma pequena parte de si já estivesse endurecendo. Como se um dedo de pedra estivesse crescendo dentro dela. O pânico a atingiu como um soco no estômago, ela precisava sair dali. Agora.
Cambaleando, Corinne se levantou, apoiando-se na parede fria. Correu para fora do quarto, tropeçando nos próprios pés. Desceu as escadas aos trambolhões, seus passos ecoando alto demais. Assim que atravessou a porta da frente, o silêncio mortal foi substituído pelo som distante da cidade, carruagens, vozes abafadas, o tinir de ferreiros. O mundo real. Mas nada, absolutamente nada, parecia mais o mesmo.
Corinne correu para a névoa. E a névoa, indiferente, a engoliu.
O Coração de Pedra
Morana_Valença
Romance
Capítulo 1 A Maldição da Casa Esquecida
18/05/2026
Capítulo 2 Taverna
19/05/2026
Capítulo 3 A chegada do príncipe herdeiro e outros velhos amigos
24/05/2026
Capítulo 4 A trupe
26/05/2026
Capítulo 5 O castelo
26/05/2026
Capítulo 6 Os preparativos para o baile
26/05/2026
Capítulo 7 Toda Ladra Possui uma Fraqueza, e a de Corinne Tinha Quatro Patas
26/05/2026
Capítulo 8 De Cães Adoráveis e Cavaleiros Arrogantes
27/05/2026
Capítulo 9 A Dançarina Que Sabia Abrir Fechaduras
27/05/2026
Capítulo 10 O Grande Baile
28/05/2026