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Capítulo

Eles aprenderam a salvar vidas. Ninguém os ensinou a sobreviver às próprias escolhas. Alice Vasconcelos sempre soube lidar com sangue, emergências e decisões de vida ou morte. O que ela nunca aprendeu foi a conviver com os próprios erros. Depois de uma cirurgia terminar em tragédia, sua carreira desmorona. Afastada da profissão que dedicou a vida para conquistar, Alice encontra consolo em uma noite de excessos e nos braços de um desconhecido irresistível. Uma noite. Nenhuma promessa. Nenhum nome para guardar. Meses depois, determinada a reconstruir sua vida, ela consegue uma oportunidade no prestigiado Hospital Santa Aurora. O que Alice não esperava era reencontrar aquele homem entre os médicos da instituição. Muito menos descobrir que ele é arrogante, insuportavelmente atraente e capaz de transformar cada encontro em uma verdadeira guerra. Mas Alice está prestes a descobrir que, no Santa Aurora, ninguém é tão inocente quanto parece. Por trás dos jalecos existem casamentos à beira do fim, paixões proibidas, amizades perigosamente intensas, traições, rivalidades e segredos que podem destruir muito mais do que reputações. Entre plantões intermináveis, noites de prazer, cirurgias desesperadoras e decisões que não admitem uma segunda chance, médicos brilhantes tentam salvar seus pacientes enquanto suas próprias vidas escapam do controle. Porque nem todo coração partido precisa de cirurgia. E algumas feridas jamais cicatrizam. Bem-vindo ao Santa Aurora. Aqui, ninguém sai ileso.

COMPASSO Capítulo 1 O que as mãos não conseguem salvar

POV ALICE

O sangue não para de sair.

Não é o jato dramático das novelas. É aquele fluxo teimoso, escuro, que insiste em encher o campo mesmo depois de eu ter colocado o segundo clamp. O paciente tem trinta e oito anos, fratura exposta de fêmur, lesão vascular associada e uma história de acidente de moto que ninguém conseguiu explicar direito na admissão. O monitor apita em intervalos irregulares. A anestesista murmura números baixos demais para o meu gosto.

- Pressão caindo de novo.

Eu não respondo. Minhas mãos estão dentro dele. A lâmpada cirúrgica esquenta a nuca. O ar-condicionado do centro cirúrgico desse hospital provincial parece ter desistido de funcionar há pelo menos uma hora. Suor escorre pela minha testa e ameaça cair no campo estéril. A instrumentadora limpa com gaze sem eu pedir.

O residente ao meu lado está pálido. Não o culpo. Ele tem vinte e seis anos e nunca viu um sangramento como esse.

- Doutora...

- Calma.

A palavra sai seca. Não é para tranquilizar ninguém. É para eu mesma.

O clamp principal não segura. O tecido está frio, friágil, como se o corpo já tivesse começado a desistir. Eu peço outro fio. Peço mais compressão. Peço o vascularista de plantão pela terceira vez. A resposta vem pelo interfone: ele está em outra sala, caso mais grave, estimativa de quarenta minutos.

Quarenta minutos.

Eu olho para o monitor. A saturação oscila. A pressão arterial é um número que não deveria existir em alguém que ainda respira.

Decido.

Não é heroísmo. É cálculo sujo, feito no meio do suor e do cheiro metálico. Eu sei o protocolo. Sei o que o relatório depois vai dizer. Sei que tem gente do outro lado da porta esperando uma resposta limpa. Mas o paciente está sangrando agora, e eu sou a única com as mãos dentro dele.

Faço o que acho necessário.

O residente engole em seco quando vê o que eu escolho. A instrumentadora não comenta. A anestesista apenas acelera a reposição. Ninguém discute. No centro cirúrgico, a discussão vem depois, quando o sangue já está no chão e o paciente já está em algum lugar entre a recuperação e o necrotério.

Eu trabalho. Os minutos se esticam. O suor escorre. A dor nas costas aparece como um protesto atrasado. Em algum momento o vascularista chega, avalia, resmunga algo sobre "situação complexa" e assume parte do campo. Eu não solto. Continuo até o último ponto, até o dreno estar posicionado, até o campo estar razoavelmente seco.

Quando finalmente saímos, o relógio marca quase quatro horas a mais do que o previsto.

O paciente vai para a UTI.

Eu lavo as mãos no lavabo. A água quente queima a pele. Olho para os meus dedos. Eles tremem um pouco. Ninguém comenta. O residente evita meu olhar. A instrumentadora guarda o material em silêncio.

Na sala de estar dos médicos, alguém já está falando baixo. Eu escuto pedaços: "decisão arriscada", "protocolo", "documentação".

Eu bebo água direto da garrafa e finjo que não ouço.

---

No dia seguinte, o e-mail chega às sete e dez da manhã.

Assunto: Solicitação de esclarecimentos – procedimento de 14/03.

Eu leio sentada na beira da cama, ainda de pijama, cabelo molhado da ducha rápida. O texto é burocrático, frio, quase educado. Pedem relatório detalhado. Pedem justificativa técnica. Pedem cópia de todas as anotações do prontuário. Informam que, até a conclusão da apuração interna, estou afastada das atividades assistenciais.

Não é suspensão do registro. Não é processo ético formal. Ainda. Mas o efeito prático é o mesmo: eu não opero.

Meu celular vibra. Marina.

Você viu o e-mail?

Respondo só com um "sim".

Ela manda três pontos. Depois: Quer que eu vá aí?

Não. Depois a gente conversa.

Desligo a tela. Fico olhando a parede do quarto por um tempo que não sei medir. O apartamento cheira a café velho e a ausência. Eduardo tirou as coisas dele há quase dois anos, mas ainda tem uma caixa de ferramentas no armário da área de serviço que ele esqueceu de buscar. Ou fingiu esquecer.

Levanto. Faço café. Queimo a primeira xícara porque fico parada demais na frente da cafeteira. Bebo mesmo assim. Amargo. Queimado. Adequado.

Às nove e meia ligo para o advogado que o hospital indicou "caso eu precise". Ele fala em tom calmo, profissional, e me explica o óbvio: não assinar nada sem ler, não discutir o caso com colegas, não postar nada em rede social, aguardar a coleta de depoimentos. Eu anoto mentalmente. Não pergunto se ele acha que eu errei. Não quero a resposta.

À tarde, Marina aparece mesmo assim. Entra sem bater, porque tem chave. Traz pão de queijo e um olhar que eu conheço demais.

- Você está pálida.

- Estou viva. Já é alguma coisa.

Ela não ri. Senta na banqueta da cozinha e me observa enquanto eu finjo organizar a geladeira.

- Alice.

- Não começa.

- Eu nem falei nada.

- Você ia falar. Eu conheço a cara.

Marina suspira. Abre o pacote de pão de queijo e come um inteiro antes de continuar.

- O Eduardo ligou pra mim.

Sinto o estômago contrair.

- Por quê?

- Porque ele viu seu nome em algum grupo de médicos. Fofoca corre rápido. Ele queria saber se você estava bem.

- E você disse?

- Que você estava ocupada. E que se ele quisesse saber, podia te ligar direto.

Eu sorrio sem humor.

- Ótimo. Agora falta só a minha mãe.

- Ela também ligou. Eu não atendi.

Marina é a única pessoa no mundo que consegue fazer isso e ainda me olhar sem culpa. Eu a amo por isso e ao mesmo tempo tenho vontade de gritar.

Passamos a tarde em silêncio relativo. Ela trabalha no notebook em cima da mesa da sala. Eu fico no sofá com um livro aberto na mesma página há uma hora. De vez em quando ela levanta o olhar e eu finjo que estou lendo.

Quando ela vai embora, beija minha testa e diz:

- Você não é o pior médico do mundo. E você sabe disso.

Eu não respondo. Porque no momento em que o sangue não parava, eu não tinha certeza de nada.

***

Três dias depois eu não aguento mais as paredes do apartamento.

O silêncio tem peso. Cada notificação do celular parece uma acusação. Cada mensagem de "qualquer coisa, estou aqui" me deixa mais sozinha. Então eu pego a chave do carro, dirijo até um hotel na orla que eu nunca tinha entrado, e me sento no bar do térreo como se fosse uma turista qualquer.

Peço um uísque. Depois outro. Não bebo rápido o bastante para perder o chão, mas bebo o suficiente para o peito doer menos.

O bar é semi-escuro, madeira escura, luz baixa, quase vazio numa terça-feira. Uma música instrumental toca baixo demais para ser identificada. O barman limpa um copo com atenção excessiva. Eu fico olhando o gelo derreter no meu segundo drink.

- Esse lugar cobra caro pelo silêncio - diz uma voz masculina à minha esquerda.

Eu viro a cabeça.

Ele está sentado dois bancos de distância. Camisa social de mangas dobradas, relógio discreto, expressão de quem também não quer conversa, mas resolveu quebrar o protocolo mesmo assim. Cabelo escuro, levemente grisalho nas têmporas. Olhos que observam sem invadir. Ombros largos. Mãos grandes, veias aparentes quando ele segura o copo.

- Vale a pena - respondo.

Ele sorri de canto, como se a resposta tivesse sido exatamente o que esperava.

- Depende do silêncio.

Peço o terceiro drink. Ele pede um scotch. O barman serve os dois sem pressa. Ficamos em silêncio por alguns minutos. Não é constrangedor. É o tipo de silêncio que duas pessoas exaustas reconhecem uma na outra.

- Você parece alguém que passou o dia tomando decisões ruins - ele diz, sem olhar para mim.

- E você parece alguém que passou o dia fingindo que as decisões ruins não eram suas.

Agora ele vira o rosto. O sorriso volta, maior.

- Observadora.

- Habitual.

Ele bebe um gole. Eu bebo o meu. O uísque queima de um jeito que eu preciso.

- Nome? - ele pergunta depois de um tempo.

- Não.

Ele ergue uma sobrancelha.

- Justo. Eu também não.

Ficamos nisso. Sem nomes. Sem profissões. Sem explicações. Conversamos sobre a qualidade do gelo, sobre a música genérica, sobre o fato de que hotéis de beira-mar sempre cheiram a desinfetante caro e solidão. Ele tem um humor seco, preciso. Eu respondo no mesmo tom. É fácil. Perigosamente fácil.

Em algum momento o barman anuncia o último pedido. Eu olho para o meu copo vazio e percebo que estou menos bêbada do que pretendia. O álcool está lá, mas a cabeça está clara o bastante para saber exatamente o que estou fazendo.

Ele paga a conta dele. Eu pago a minha. Levantamos ao mesmo tempo.

- Você vai subir? - ele pergunta, simples.

Eu olho para ele. Ele olha de volta. Não tem pressão no olhar. Só uma pergunta aberta. Desejo claro, sem disfarce.

- Sim.

Ele acena com a cabeça, como se a resposta fosse lógica.

O elevador é silencioso. O corredor do décimo segundo andar cheira a carpete novo. Eu abro a porta do quarto que reservei por impulso. Ele entra atrás de mim. Fecha a porta com um clique suave.

Não há conversa fiada.

Assim que a porta se fecha, ele me empurra de leve contra ela. A mão grande prende meu queixo, o polegar desliza pelo lábio inferior. Eu abro a boca antes mesmo de ele beijar. O beijo é fundo, molhado, sem delicadeza de primeira vez. Língua, dentes, gosto de scotch e uísque misturados. Eu puxo a camisa dele para fora da calça, as unhas arranhando a pele quente das costas. Ele geme baixo contra minha boca.

A camisa dele cai no chão. A minha blusa é puxada por cima da cabeça com pressa. O sutiã é aberto com um movimento preciso. As mãos dele descem, pegam meus peitos com firmeza, os polegares passando pelos mamilos já duros. Eu arqueio as costas, empurrando o peito contra as mãos dele.

- Porra... - murmuro.

Ele baixa a cabeça e chupa um mamilo, depois o outro, forte o bastante para eu sentir o puxão até a boceta. Eu enfio os dedos no cabelo dele e puxo. Ele solta um som gutural e ergue o rosto.

- Quer que eu pare?

- Se você parar agora eu te mato.

Ele sorri de verdade pela primeira vez. Os olhos escurecem.

A calça jeans desce junto com a calcinha num movimento só. Ele se ajoelha na frente de mim ainda encostada na porta. As mãos abrem minhas coxas. A língua dele encontra o clitóris sem rodeio, quente, úmida, pressionando com a pressão certa. Eu solto um gemido alto demais para um hotel. Ele não se importa. Chupa, lambe, enfia dois dedos de uma vez, curvando-os até achar o ponto que faz minhas pernas tremerem.

- Assim... continua assim...

Ele obedece. Os dedos fodem mais rápido, a língua não para. Eu gozo contra a porta, as pernas bambas, a mão apertando o cabelo dele com força. Ele não para até eu empurrar a cabeça dele para longe, sem fôlego.

Ele se levanta. A boca está brilhante de mim. Eu puxo o cinto dele, abro a calça, baixo a cueca. O pau sai pesado, grosso, já completamente duro. Eu desço a mão, aperto a base, deslizo o polegar pela cabeça úmida. Ele solta um suspiro controlado.

- Camisinha - eu digo.

Ele tira uma da carteira sem perder tempo. Eu pego, abro com os dentes, enrolo nele com as duas mãos, apertando de propósito. Ele morde o lábio inferior.

Não vamos até a cama de imediato. Ele me vira de frente para a porta, ergue uma das minhas pernas e enfia de uma vez. O gemido que sai de mim é baixo e rouco. Ele enterra fundo, para um segundo, respirando no meu pescoço.

- Tudo bem?

- Mais fundo.

Ele obedece. As estocadas são fortes, ritmadas, o som da pele batendo na pele enchendo o quarto. Uma mão segura meu quadril, a outra agarra meu peito. Eu empurro o corpo para trás, encontrando cada investida. Ele morde meu ombro, não com delicadeza. Eu gozo de novo, apertando em volta dele, as unhas arranhando a madeira da porta.

Só então ele me carrega até a cama. Me joga de costas. Abre minhas pernas com as mãos e volta a entrar, agora olhando meu rosto. O ritmo muda: mais fundo, mais lento, mais intenso. Eu cruzo as pernas nas costas dele e puxo. Ele geme meu "nome" que não existe, enterra o rosto no meu pescoço e goza com o corpo inteiro tenso, as mãos apertando minha cintura com força quase dolorosa.

Ficamos parados, ofegantes, o suor escorrendo entre os corpos.

Depois de um tempo ele se retira com cuidado, descarta a camisinha e se deita de lado. Eu fico de barriga para cima, olhando o teto, o coração ainda batendo rápido demais.

Ele passa a mão pela minha barriga, sem posse, só toque.

- Ainda acordada?

- Infelizmente.

Ele solta um riso baixo.

Não dormimos grudados. Não tem carinho de casal. Tem só o silêncio confortável de duas pessoas que acabaram de foder bem e sabem exatamente o que isso foi.

Às três da manhã ele se levanta. Veste a roupa com a mesma eficiência de antes. Eu fico na cama, nua, observando.

Quando termina, ele olha para mim uma última vez.

- Foi bom.

- Foi.

Ele abre a porta. Pausa só um segundo.

- Cuida-se.

- Você também.

A porta se fecha. O quarto volta a ser só meu.

Eu fico acordada mais uma hora, o corpo ainda latejando em alguns pontos, o cheiro dele na pele e nos lençóis. A cabeça, no entanto, já voltou a girar.

A cirurgia. O e-mail. A pergunta que ninguém ainda fez em voz alta, mas que paira em tudo: *você fez a coisa certa?*

Eu não sei.

E pela primeira vez em dias, admito isso em silêncio, para mim mesma, sem tentar construir uma defesa.

Pela manhã eu acordo sozinha, com gosto de uísque na boca e a certeza de que a vida do lado de fora do hotel não melhorou nem um milímetro.

Visto a roupa do dia anterior. Desço. Devolvo a chave. Entro no carro.

O celular vibra no banco do passageiro. É um número desconhecido. Deixo tocar até o final.

Não atendo.

Dirijo de volta para o apartamento vazio, com as mãos firmes no volante e a memória de um homem sem nome ainda quente demais na pele.

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“Eles aprenderam a salvar vidas. Ninguém os ensinou a sobreviver às próprias escolhas. Alice Vasconcelos sempre soube lidar com sangue, emergências e decisões de vida ou morte. O que ela nunca aprendeu foi a conviver com os próprios erros. Depois de uma cirurgia terminar em tragédia, sua carreira desmorona. Afastada da profissão que dedicou a vida para conquistar, Alice encontra consolo em uma noite de excessos e nos braços de um desconhecido irresistível. Uma noite. Nenhuma promessa. Nenhum nome para guardar. Meses depois, determinada a reconstruir sua vida, ela consegue uma oportunidade no prestigiado Hospital Santa Aurora. O que Alice não esperava era reencontrar aquele homem entre os médicos da instituição. Muito menos descobrir que ele é arrogante, insuportavelmente atraente e capaz de transformar cada encontro em uma verdadeira guerra. Mas Alice está prestes a descobrir que, no Santa Aurora, ninguém é tão inocente quanto parece. Por trás dos jalecos existem casamentos à beira do fim, paixões proibidas, amizades perigosamente intensas, traições, rivalidades e segredos que podem destruir muito mais do que reputações. Entre plantões intermináveis, noites de prazer, cirurgias desesperadoras e decisões que não admitem uma segunda chance, médicos brilhantes tentam salvar seus pacientes enquanto suas próprias vidas escapam do controle. Porque nem todo coração partido precisa de cirurgia. E algumas feridas jamais cicatrizam. Bem-vindo ao Santa Aurora. Aqui, ninguém sai ileso.”
1

Capítulo 1 O que as mãos não conseguem salvar

19/10/2026

2

Capítulo 2 O dia seguinte

19/10/2026

3

Capítulo 3 O voto vencido

19/10/2026

4

Capítulo 4 Muito prazer, doutora

19/10/2026

5

Capítulo 5 Gente que trabalha demais

19/10/2026

6

Capítulo 6 21h47

21/10/2026

7

Capítulo 7 Depois do impacto

21/10/2026

8

Capítulo 8 O Intervalo

21/10/2026

9

Capítulo 9 Gente que a gente já foi

21/10/2026

10

Capítulo 10 Quem decide por nós

21/10/2026

11

Capítulo 11 A primeira rachadura

21/10/2026