Entre a lei e o crime: Isabel Oliveira

Entre a lei e o crime: Isabel Oliveira

IVI SANTIAGO

5.0
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Capítulo

Isabel Oliveira cansou de ser a "mãe solo sem futuro" do interior da Bahia. Entre as humilhações no interior e o desejo de liberdade, ela se vai embora juntos com seus dois irmãos mais velhos para recomeçar no Rio de Janeiro. Mas o cenário paradisíaco logo se torna um campo de guerra. Isabel é ousada, desbocada e sabe usar o que tem para sobreviver, mesmo que isso signifique se envolver com o "Grego", o dono do morro que a trata como rainha. Porém, o perigo real não usa armas, ele usa um distintivo. O delegado Diogo Vitório é uma muralha de granito e olhos negros. Implacável e explosivo, ele está obcecado ele surge em sua vida, para solucionar o desaparecimento de Zaya, irmã de Isabel. Para Diogo, cada peça do quebra-cabeça aponta para Marcos Zamutt, o marido frio da sua irmã. Mas o seu maior obstáculo é Isabel, a mulher que o desafia em cada interrogatório, que o provoca em cada beco escuro e que testa o seu juramento à lei com um desejo proibido. Entre salas, estacionamento e corredores de hospital e depósitos de serviço, a tensão entre a costureira e o delegado escala para um jogo de poder onde o prazer é a arma e a verdade é o alvo. Em um mundo onde o "Grego" oferece o trono e Vitório oferece as algemas, Isabel terá que decidir, ela prefere ser protegida pelo crime ou ser rendida pela lei?

Capítulo 1 Prólogo

Isabel Silva

A noção de tempo era um luxo que eu havia perdido desde que deixamos o interior da Bahia. Naquela segunda-feira, o tempo não era um ponteiro de relógio; era o calor do sol trabalhando na minha pele. Diante do espelho, admirei a marquinha do biquíni ressaltada no bronzeado. Eu mal podia acreditar que a vida, depois de tanta surra, finalmente estava me resguardando dias de águas calmas e pele quente.

- Mãe? Já são sete horas. Não vai pra loja? - A voz de Beto, meu filho, cortou meu devaneio.

Acordei para o mundo. O susto me fez girar a chave na pressa, agoniada com os "olhão de gato" espantados. Não houve tempo para o banho demorado que o espelho pedia. Foi o tempo de vestir a roupa, ajeitar os meninos e voar para fora do apartamento.

No elevador, cruzei com Marcos. Ele levava os meninos dele, meus sobrinhos, focado, sério. Perguntei por Zaya, mas o tempo era curto e a resposta foi um aceno. No fundo, eu não me preocupava. Zaya era meu norte, minha matriz e como sempre, eu que sou a preocupação dela, ou melhor deles. À noite, o destino de todos nós era o mesmo, a cozinha de Zaya, a casa da minha irmã mais velha, sempre trouxe achego, acolhimento, o cheiro de tempero gostoso e as risadas que o dinheiro agora não podia comprar.

Passei a manhã no shopping, entre tesouras e agulhas. Labutar com seda e linha era um paraíso comparado aos tempos de enxada, jegue velho e balde de água na cabeça. Mas, ao meio-dia, o estômago roncou e um silêncio estranho vindo da minha bolsa me chamou a atenção. Meu celular não tinha tocado. Nem uma mensagem. Nem um "bom dia" no grupo.

- Que peste... se eu não ligo, ninguém liga - resmunguei para as paredes do ateliê agoniada, se eles não deram eu também não ia dar, de ruim, não dei mesmo.

Catei minha bolsa e fui direto para o restaurante de Zaya. Mas o lugar diferente de outros dias, neste estava um furdunço. Rosa, a gerente, parecia à beira de um colapso nervoso, já sem touca, panela no balcão, cliente esperando troco, prato demorando a sair, e até cliente esperando mesa tinha.

- Bell, cadê a Zaya? Ela sumiu! Ficou de mudar o cardápio hoje e nada!

Dei de ombros, servindo-me direto da panela, raspei o tacho com o dedo, um piraozinho de leite tinha sido feito ali. O cheiro estava divino. - Ah, Rosa, dá um desconto pra bichinha. Deve ter levado uma surra de pica ontem à noite e não conseguiu levantar da cama! - As meninas da cozinha gargalharam. Eu nunca tive papas na língua; se a fama de "vadia" me seguia desde o interior, eu a carregava com um sorriso no rosto. - Vi o Marcos saindo cedo com os meninos. Ele deve ter pegado ela de jeito.

Comi, liguei para ela, mas caiu na caixa postal.

Não estranhei. Zaya era intensa. Quando decidia criar um prato, ela esquecia o mundo, se desligava de todos, apesar de socorrer a todo mundo como uma maezona que é.

Mas a tarde caiu, e o ateliê ficou frio. O vestido de noiva que eu moldava parecia errado, pesado demais. Tentei ligar para Mário, nosso irmão, que não sabia de nada. Liguei para o cunhado.

- Oi, cunho... cadê minha irmã? Que exagero foi esse dessa vez que ela não atende o celular? - Brinquei, ouvindo o som do carro dele.

- Todo mundo está atrás dela, Bell - a voz de Marcos veio grave, sem espaço para piadas. - Ela não está no restaurante, nem no shopping. Estou voltando para casa agora.

- Ih, cunho... ela fugiu de tu! Fugiu e largou a gente aqui! - Tentei rir, mas minha própria risada soou oca, ele não riu do outro lado, a verdade é que meu cunhado nunca foi muito nervoso, rs, acho que não, mas nesta hora, ele tava, mas no fundo eu sabia, Zaya nunca nos deixaria. Jamais.

Quando a noite fechou de vez sobre a cidade, eu já estava na porta do apartamento dela. O cenário era o caos. Os meninos jogados, Mário andando de um lado para o outro com os olhos vermelhos, e o ar... o ar estava pesado.

Marcos chegou logo em seguida. A blusa azul aberta no peito, o cabelo preto bagunçado. Eu sempre notei o "homão" que ele era, não que eu o quisesse para mim, mas era impossível não admirar, um homem bonito da gota, sem contar o que ele fazia com Zaya. Ele era o único capaz de apagar o fogo dela. Mas, naquele momento, o fogo parecia ter se tornado cinzas.

- Quem de vocês falou com ela hoje? - Marcos perguntou, a voz gelada, os cabelo pretos desgrenhado, e os olhos percorrendo cada um de nós, como um inquisidor e como se um de nós tivessemos engolido a esposa dele

O silêncio que se seguiu foi a coisa mais assustadora que já ouvi na vida. Ninguém. Ninguém tinha visto Zaya.

- Ela não some assim - concluí, sentindo um calafrio que nem o sol da Bahia seria capaz de esquentar.

Mário começou a soluçar, uma "manteiga derretida" de agonia. Fomos atrás de cada pista, cada canto de amigas, cada rastro de fumaça. Até que o brilho do dia se apagou completamente e fomos parar diante das luzes frias e azuis da delegacia.

Ali, entre o cheiro de café requentado e o barulho de máquinas de escrever, eu temi que o sonho de paz tinha acabado.

A delegacia era um lugar cinzento, barulhento e com cheiro de papel velho e suor. Eu sentia que ia desmoronar a qualquer momento, até que a porta de uma das salas internas se abriu com um estrondo.

- Se não tiverem o número do protocolo, não me façam perder tempo! - A voz era um trovão, rouca e impaciente.

Meus olhos se ergueram e, por um segundo, o ar fugiu dos meus pulmões. Não por medo, mas por um choque sensorial que eu não esperava sentir naquela noite de desespero.

O homem que saiu da sala parecia grande demais para aquele corredor estreito. O delegado Diogo Vitorio não caminhava, ele dominava o espaço. Ele usava uma camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços robustos e venosos que terminavam em mãos grandes, mãos de quem sabia exatamente como segurar um culpado ou qualquer outra coisa. Desviei o olhar, não era momento para isso, foca na tua irmã desaparecida, desgramada, teu macho, Grego, é, porque não falei já com Grego?

Mas os meus olhos estava ali, nele, e ele era o tipo de homem que exalava um magnetismo bruto, quase primitivo. O rosto tinha ângulos duros, uma mandíbula marcada por uma barba por fazer que lhe dava um ar perigoso, e olhos que pareciam duas pedras de obsidiana, brilhando com uma inteligência agressiva.

- Delegado, por favor... é sobre o desaparecimento de Zaya Oliveira - Mário gaguejou, mas Diogo sequer olhou para ele.

Seus olhos caíram sobre mim. Ele me varreu de cima a baixo com um desdém que me fez arrepiar. Não era o olhar de quem admirava uma mulher; era o olhar de quem lia um prontuário. Senti meu sangue ferver. A ignorância dele era quase palpável, uma barreira de gelo que me desafiava.

- Mais uma mulher que cansou do marido e foi dar uma volta? - Ele perguntou, a voz carregada de um sarcasmo ácido. Ele parou na minha frente, e o cheiro dele me atingiu, sândalo, café forte e algo que lembrava metal quente. Era um perfume viril, perturbador.

Eu dei um passo à frente, ignorando o cansaço. A atração que senti foi um soco no estômago, um calor súbito que subiu pelas minhas pernas e se alojou no baixo ventre, me fazendo odiar cada centímetro daquela arrogância dele, como se meu corpo tivesse esquecido de cada vestígio, cada metida bruta de Grego na noite anterior, minha boceta nem reclamava mais.

- Minha irmã não é de "dar voltas", delegado - respondi, sustentando o olhar, notando como o peito dele subia e descia sob o tecido fino da camisa. - E se o senhor fosse metade do profissional que a sua fama diz, estaria fazendo perguntas em vez de dar palpites idiotas.

O corredor silenciou. Diogo inclinou a cabeça levemente, os olhos semicerrados, focando na minha boca por um milésimo de segundo antes de voltar para os meus olhos. Houve um estalo no ar, uma tensão elétrica que nada tinha a ver com a investigação. Ele era um ignorante, um bruto que parecia não ter um pingo de paciência para o sofrimento alheio, mas era, sem dúvida, o homem mais letalmente sexy que já cruzou o meu caminho, esquecendo-se de Grego por hora.

- Atrevida - ele murmurou, e o canto de sua boca se moveu em algo que poderia ser um começo de sorriso ou um aviso de tempestade. - Entra na minha sala. Agora.

Ele deu as costas, e eu não pude deixar de notar o ajuste perfeito da calça no quadril estreito e a largura dos ombros que pareciam carregar o mundo. Eu sabia que aquele homem seria o meu maior problema, mas, naquele momento, eu estava disposta a entrar naquela sala e enfrentar qualquer fera que ele escondesse sob aquele distintivo.

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Entre a lei e o crime: Isabel Oliveira
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Capítulo 1 Prólogo

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Capítulo 2 Ponto de vista

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Capítulo 3 O peso da ausência

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