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— Onde está a minha menina? – a voz de Dom Andreas soou pelo quarto, nervoso. Ele gritou em italiano. Quando estava inquieto, ele sempre falava em seu idioma nativo.
Era óbvio que com o passar dos anos, ele foi obrigado a aprender inglês. Era isso ou fazer papel de bobo nas mãos dos americanos e de seus inimigos.
Desde que voltou a si, seu quarto se encheu de gente. Sua esposa, filhos, aquele maldito médico que dizia que ele precisava de repouso. Ele teve um desmaio, passou mal, mas o médico também disse que ele ficaria bem.
— Onde está a minha pequena coyote? – ele perguntou batendo os punhos contra o colchão.
Laura Fellini teve que se segurar para não revirar os olhos. Eu estava no canto do quarto e assistia tudo, eles sequer notaram a minha presença. Nem mesmo o filho dele mais velho, o chato do Carlo e sua segunda filha Nicoletta. Eles me desprezavam, queriam me ver pelas costas, mas diante do capo não podiam demonstrar sua indiferença ou ele os punia severamente. Eram obrigados a me aceitar como se eu fosse da família, e no fim das contas, eu era. Talvez mais do que eles todos.
— Sono qui, babbo – respondi em italiano. (Estou aqui, papai).
Todos se afastaram para olhar para mim. Os olhos de Dom Andreas se encheram de amor. Foi assim desde a primeira vez que ele me viu naquele galpão repleto de imigrantes ilegais. Ele salvou minha vida, me deu seu nome e fez de mim sua filha adotiva. Eu era mais nova que seus filhos, um ano mais nova que Nicoletta, a desagradável. E eu gostava dele, no começo apenas o achei bonzinho, mas depois entendi que ele salvou minha vida porque Deus o enviou como um anjo ou meu fim teria sido trágico como daquelas outras crianças que não tiveram tanta sorte e foram mandadas para diversos lugares para trabalhos forçados.
Era assim que funcionava a máfia, eu sabia. Mas por respeito a Dom Andreas, eu fingia não ver. Não tive escolha, era isso ou morrer e eu gostava da vida por diversos motivos. Um deles era ver a família dele ter que engolir o carinho que ele tinha por mim.
Atravessei aquele corredor de gente e me aproximei da cama dele tocando sua mão com imenso carinho. Sua mão cheia de anéis segurou a minha e nossos olhares se encontraram. Não éramos pai e filha de sangue, mas éramos de alma.
— Deixem-me a sós com a minha filha – ele ordenou.
Laura foi a primeira a deixar o quarto. Ela não gostava de mim, não porque eu fosse uma pessoa ruim, mas por ciúme, afinal, eu era a única que tinha o amor verdadeiro do capo. Seus filhos me odiavam, não era apenas ciúme, era raiva, e eu sabia que se Dom Andreas deixasse de existir, eles não hesitariam em me matar. Não era me expulsar da vida deles, era me torturar para que eu sentisse na carne o preço de ter sido sempre a preferida e depois me matar com requintes de crueldade.
O médico também saiu, o doutor Brian Dickson era um amor de pessoa, cuidava de Dom Andreas muito antes de eu chegar naquela casa.
Nicoletta resmungou e também saiu contrariada como sempre. Mas Carlo, este ficou esperando que eu o fitasse, ele somente não cuspiu no chão porque sabia que o pai dele esfregaria a cara dele para limpar. Dom Andreas era implacável, sempre foi, e meu respeito permitia que eu o admirasse por isso. Aquele era meu mundo, minhas verdades e aprendi a não as questionar.
— Saia! – ele ouviu o pai ordenar mais uma vez.
Então Carlo saiu batendo a porta com força. Olhei para o capo e me sentei na beirada da cama. Ele estava com os cabelos grisalhos nas têmporas e alguns trechos de seus cabelos escuros. Aos sessenta anos, ele era um velho charmoso e ainda muito forte. Aquele mal-estar não o derrubaria, eu tinha certeza disso. Já haviam tentado matá-lo diversas vezes, mas nunca conseguiram. Não seria uma falha do coração que tiraria sua vida.
— O que foi? Tentando me assustar? – eu perguntei com imenso carinho sorrindo para ele. Nós só conversávamos em italiano, nunca em inglês, era uma exigência dele.
Abaixei e encostei os lábios em sua testa, ele não estava febril e isso era um bom sinal, mas estava pálido. O médico o havia medicado, apenas um forte analgésico que o faria dormir, foi o que o doutor Brian Dickson disse. Mas nada derrubava o capo. Nada. Nem um tranquilizante para elefantes o faria dormir se ele não quisesse. Nunca conheci um homem tão forte como ele.
— Sinto muito – ele apertou a minha mão —, não queria assustá-la, mas esse meu coração está me pregando peças.
— Seu coração é forte como o de um leão – eu disse.
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