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Dedicatória:
A minha amiga Manu...
Esse livro é totalmente dedicado a você, te amo e obrigada por tudo!
- Fico feliz por saber. Mas você tem certeza de que não há espaço para um homem em sua vida? - Absoluta. Ele tocou seu lábio inferior com uma carícia suave como uma asa de borboleta. Natasha encolheu-se. O pequeno toque era, de alguma forma, mais
íntimo do que um beijo. Ele deu um riso suave, que ninguém além dos dois poderia ter escutado. - Eu precisaria de uma noite para fazê-la mudar de idéia - ele murmurou, a respiração eriçando o cabelo que circulava a orelha dela. — Apenas... Uma... Noite.
Natasha procurou sem sucesso uma resposta definitiva. Mas era tarde demais. Ele já tinha ido embora.
Capítulo 1
Nova York é o paraíso dos insones, pensou Natasha Lambert. Uma cidade que nunca dorme.
Apertou o nariz contra a janela do quarto de hotel e olhou vinte andares abaixo. O céu de novembro estava negro como se fosse meia-noite, mas já eram cinco da manhã. Mesmo assim os faróis dos carros varriam a rua molhada pela chuva e ainda havia pessoas na calçada.
Quem seriam? Pessoas indo para o trabalho? Voltando de uma noitada? Natasha viu um casal saindo debaixo do toldo do hotel, enquanto um carregador colocava uma montanha de malas no táxi.
Rapidamente voltou para a grande mesa executiva, razão principal para ter reservado a luxuosa suíte. Não que ela parecesse uma alta executiva agora, pensou Natasha, sorrindo ironicamente. Não com seus velhos e queridos chinelos forrados de pêlo e decorados com carinhas de gato.
Seu laptop estava aberto num facho de luz. Natasha sentou-se à sua frente e remexeu os dedos dos pés nos chinelos confortáveis, pensando nas cores que poderia usar nos slides de sua apresentação.
Azul? Muito frio. Vermelho? Muito agressivo.
Exatamente como eu, pensou ela de maneira esquisita. Seu último namorado fizera uma análise completa de sua personalidade antes de terminarem. Ele a havia chamado de insensível. E ficara furioso quando ela concordara alegremente.
— Isso não é um elogio — vociferou ele.
— Talvez não para você. Mas eu me esforcei muito para ficar assim.
Agora o telefone estava tocando. Sem tirar os olhos da tela, Natasha atendeu-o.
— Sim?
— Posso deixar um recado para Natasha Lambert, por favor?
— Sou eu — disse. — Oi, Izzy.
Ela ouviu um gritinho angustiado.
— Ai, não!
O sorriso de Natasha aumentou ainda mais. Izzy Dare era sua melhor amiga.
— Você não quer mais falar comigo, Izzy? O que eu fiz?
— Estava tentando deixar um recado na recepção. Não queria acordá-la!
— Não acordou.
Natasha girou um gráfico de pizza na tela. Talvez azul e vermelho? Afinal de contas, frio e agressivo muitas vezes eram características vantajosas nos negócios. Ela podia ser insensível, mas era bem-sucedida. E não ligava para o que diziam, contanto que gostassem de seu trabalho.
Ela parou de brincar com o gráfico.
— O que posso fazer por você, Izzy?
Contudo, Izzy ainda estava preocupada.
— Tem certeza que não acordei você? Achava que Nova York ficava cinco horas atrás do fuso horário de Londres. Que horas são aí, afinal?
— Cinco e pouco.
— E você está acordada? — Izzy estava horrorizada.
— A Lambert Research nunca dorme — disse Natasha, em tom formal.
— Mas por quê?
— Reunião no café-da-manhã com o Poderoso Chefão. Resolveram isso no último instante, então estou refazendo a apresentação.
— Ele é legal? — perguntou Izzy, temporariamente distraída de seu objetivo.
— Quem?
— O Poderoso Chefão.
— David Frankel? É um workaholic baixinho e gordo que tem uma propensão nojenta para apalpá-la se você deixá-lo chegar muito perto.
— Parece horrível.
— Por isso ele é o Poderoso Chefão — disse Natasha calmamente. — Homens poderosos são horríveis. Faz parte do trabalho deles.
Izzy protestou, mas Natasha ficou indiferente.
— Sem problemas. Trabalho com homens poderosos o tempo todo. Eles dão muito trabalho e não gostaria de namorar um deles. Mas, tirando isso, são legais. Diga logo o que você quer.
— É sobre o fim de semana...
— Ah, sim. Estou esperando ansiosamente por ele. Um programa com as amigas é exatamente do que preciso. Principalmente depois da semana que tive.
Houve uma pausa, que teria sido perceptível se Natasha não estivesse digitando, ajustando o gráfico novamente.
Desta vez, ela o coloriu de verde limão. A tela pulsou com as cores fortes. Natasha tombou a cabeça para o lado. Jovem e excitante? Ou muito superficial?
— Houve uma mudança de planos.
Natasha suspirou.
— Que pena. Vamos ter de adiar por causa da chuva?
— Não, não foi esse tipo de mudança. Foi... Bem... Uma mudança de local.
— Certo — disse Natasha, sem muito interesse. — Para onde?
— Bem... — Izzy parecia estranhamente envergonhada. — Será numa casa particular. Eu peguei emprestada.
— Legal. Dê-me o endereço.
Izzy deu.
— E tem mais uma coisa...
Finalmente a hesitação de Izzy fez efeito. Natasha parou de brincar com o mouse.
— Ande, Izzy. Fale logo. Qual é o problema? O lugar está caindo aos pedaços? Não tem aquecimento central? É tão escondido que terei de alugar um helicóptero para chegar lá?
— Você faria isso, não faria? — Izzy parecia estranha.
— O que for preciso — disse Natasha, animada. — Uma por todas e todas por uma. Você é minha melhor amiga e não a vejo há seis meses. — Ela encolheu os dedos e largou o mouse. — Vou ter de arranjar um piloto?
— Não. De carro, fica a uma hora do aeroporto.
— Então não há problemas.
— Certo. Então volte para seu trabalho, e eu a verei amanhã. Vai pegar o vôo noturno?
— Sim.
— Isso é bom. Teremos o dia inteiro para conversar antes que as outras cheguem.
Natasha franziu a testa. Deu as costas para o laptop. Aquilo parecia sério.
— Você está com algum problema, Izzy?
— Não, é só que... — Izzy parou. Depois continuou, com uma voz alta e artificial. — Serenata Place é difícil de encontrar. — Era como se ela quisesse dizer algo mais e não tivesse coragem. — Vou mandar um mapa por e-mail — disse ela, com animação desesperada.
A testa de Natasha ficou ainda mais franzida. Nunca tinha escutado Izzy falar assim. Bem, pelo menos desde...
Ela afastou as lembranças sombrias de sua mente. Já haviam se passado três anos desde aquela época ruim. Ela e Izzy tinham saído vivas da selva, como todos os outros. Os pesadelos também iriam embora na hora certa.
No entanto, isso não explicava por que Izzy parecia tão tensa c artificial.
— Qual é o problema, Izzy?
— Vou me casar.
— Vai o quê?
— Me casar — disse Izzy, rápida. — Eu sei. É muito de repente. Você não o conhece. Só que ele está indo viajar e... Este fim de semana será nosso noivado.
Natasha ficou ali franzindo a testa para o telefone por um longo instante. Izzy era uma mulher prática, determinada, mas tinha seu lado vulnerável. E Natasha sabia exatamente qual era. Izzy estava no trabalho. Trabalhava com a prima, Pepper, num escritório claro e elegante. Não havia paredes e qualquer um podia escutar a conversa dos outros. Izzy não ia querer falar sobre aquilo com suas colegas de trabalho escutando.
— Olhe, vejo você na sexta-feira e conto tudo. Bom vôo. — Izzy desligou.
Certo, esperaria até encontrá-la cara a cara na sexta-feira. E aí Izzy lhe contaria tudo.
Enquanto isso, não havia sentido em ficar pensando sobre o assunto. O súbito casamento de Izzy poderia esperar algumas horas. Natasha, a profissional, tinha uma apresentação para terminar.
Virou-se novamente para o laptop e, com uma batida forte no teclado, fez o gráfico ficar roxo.
A sala do trono no palácio era uma mistura excêntrica de magnificência e simplicidade. O emir do Saraq estava sentado numa cadeira francesa de brocado que teria se encaixado melhor no palácio de Versailles, e acenou para o recém-chegado na direção de um sofá sueco minimalista. O emir o tinha chamado pessoalmente.
— Você não manda em mim, vovô — disse o recém-chegado, sem qualquer emoção. Era alto, com sobrancelhas decididas e um nariz adunco e altivo. Sua túnica branca não tinha nenhum vinco. Ele não se sentou.
— Você está aqui — lembrou o Emir com um toque de desafio.
— Por enquanto.
Seus olhos se encontraram: os do emir, ferozes; os de seu observador, indecifráveis. Ele tinha bastante prática em mascarar os sentimentos.
— Não vamos discutir, Kazim. Isto é importante.
O tom apaziguador era incomum. Mas o avô era um ator contumaz, pensou Kazim, e tão astuto quanto um falcão caçador. Ele permaneceu alerta.
— Outro casamento arranjado?
— Não. Eu já concordei, você decide quando se casar. — Parecia que cada palavra estava sendo arrancada dele, mas mesmo assim conseguiu dizê-las.
Não foi suficiente. Kazim corrigiu-o, implacável.
— Se eu me casar.
O velho também não gostou daquilo.
— Se você se casar — concordou com relutância.
Kazim não sentiu remorsos.
— E com quem eu quiser casar.
— E com quem você quiser casar — repetiu o emir, entre os dentes.
O neto assentiu como um general aceitando a rendição. Eles se encararam como dois duelistas.
O emir disse algo explosivo, bem baixinho.
Kazim decidiu não escutar. Às vezes aquele era o único movimento possível no prolongado jogo de xadrez que era o relacionamento dos dois.
— Você quebra todas as tradições e não escuta ninguém, mas realmente consegue fazer as coisas. Os lábios de Kazim se contraíram.
— Obrigado. Acho.
O emir parou de falar baixo e rearrumou a dobra de sua túnica branca sobre os joelhos. Estava nitidamente fazendo um enorme esforço para parecer razoável.
— Pedi para vê-lo porque houve um alerta.
Subitamente, toda a cautela de Kazim se dissolveu em preocupação.
— Está falando de ameaças? Contra você?
O emir permitiu-se um sorriso fino.
— Não. Contra você.
Por um instante, o rosto de Kazim ficou absolutamente sem expressão. Ele não respondeu. A atmosfera na sala do trono ficou carregada de eletricidade.
— Então você sabia — disse o emir suavemente.
Kazim ficou perturbado. Não tivera a intenção de revelar tanto. O velho era muito bom naquilo. Mas aquele não era um bom pensamento. Escondeu o desconforto, profissional que era, e deu de ombros.
— Sempre há malucos por aí. As ameaças vêm com o território.
— E você está se colocando como alvo para eles — disse o avô, com raiva súbita.
Kazim suspirou. Aquilo não era novidade. Seu avô o queria em casa e a salvo em Saraq, sem se envolver em conversações de paz em outros continentes.
— Este seu Conselho de Reconciliação Internacional é uma grande idéia. Muito bem pensada — fez uma pausa para conseguir mais efeito. — Para daqui a 50 anos.
— Não temos 50 anos — disse Kazim, um pouco cansado.
Já haviam discutido aquilo antes, muitas vezes; de maneira mais explosiva no dia em que partira,
um ano atrás. Ele se preparou para discutir novamente. Mas, desta vez, o emir não estava em busca de uma boa discussão.
— Isso não importa.
— Como assim?
— Você está na lista de assassinatos — disse o velho, de repente.
Kazim ficou rígido como uma rocha.
— Seus espiões são muito eficientes — disse, educadamente.
— Você não está levando isso a sério.
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