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CAMILA
Ano de 1993, São Paulo, Brasil.
Eu tinha apenas sete anos quando um caminhão de mudanças estacionou em frente à casa mais bonita da rua. Aquela casa era o castelo dos sonhos, um lugar que todas as crianças da vizinhança sonhavam em habitar um dia. Com suas paredes de um amarelo suave, janelas amplas que deixavam entrar a luz do sol e um jardim florido que exalava o perfume das rosas, ela era um verdadeiro ícone de beleza e felicidade. Ficava logo em frente ao meu lar, e sempre que passava por ali, meus olhos se perdiam na admiração pela sua fachada impecável e pelos detalhes que a tornavam tão especial. Naquele dia em particular, eu voltava da casa de um parente, segurando a mão da minha mãe, quando algo no ar parecia vibrar com uma nova energia.
O vento soprava levemente, trazendo consigo o doce cheiro das flores do jardim, e eu sentia que algo extraordinário estava prestes a acontecer. Foi então que, em um instante que se gravaria para sempre na minha memória, eu o vi. O garoto que, sem que eu soubesse, mudaria minha vida de uma forma que eu nunca poderia imaginar. Era como se o tempo tivesse parado. Meu coração, até então despreocupado e leve, acelerou com uma intensidade que me deixou atordoada. Ele estava lá, em pé no meio do movimento dos adultos retirando os móveis do caminhão, com os cabelos escuros caindo despreocupadamente sobre os olhos. Aqueles olhos profundos e enigmáticos, que pareciam guardar um universo inteiro de segredos e aventuras.
A maneira como ele observava ao redor, com um misto de curiosidade e doçura, me deixou hipnotizada. Era como se ele carregasse um magnetismo silencioso, uma aura que prendia minha atenção de um jeito que eu nunca havia sentido antes. Senti um frio na barriga, como se um feitiço tivesse sido lançado. Meu mundo, que até então era repleto de brincadeiras inocentes e rotinas tranquilas, de repente, ganhou cores mais vibrantes. Cada detalhe daquele momento parecia se intensificar: o canto dos pássaros nas árvores, o murmúrio distante das conversas dos adultos, e o brilho do sol que refletia nas folhas. Eu sabia, naquele instante mágico, que minha vida nunca mais seria a mesma. Enquanto eu permanecia ali, estática, quase sem respirar, minha mãe, sempre calorosa, se aproximava da nova vizinha, a mãe dele, com aquele sorriso amigável que ela sempre exibia.
A conversa entre elas começou a fluir, cheia de risadas e trocas de histórias, mas eu mal conseguia ouvir uma palavra sequer. Tudo o que eu conseguia fazer era me concentrar nele, aquele garoto que parecia ter saído de um conto de fadas, tentando entender o que havia nele que fazia o mundo ao meu redor desaparecer em um borrão de cores e sons. Cada movimento dele parecia coreografado, como se ele estivesse dançando uma música apenas dele, uma sinfonia que apenas eu podia ouvir. Seu olhar, curioso e perspicaz, era um convite silencioso para descobrir mais sobre seu universo. Eu sabia, naquele instante, sem entender muito bem o motivo, que aquele momento havia se tornado especial.
Era como se uma luz tivesse acendido dentro de mim, iluminando partes do meu ser que eu nem sabia que existiam. Embora eu fosse jovem demais para compreender a profundidade do que sentia, algo dentro de mim sussurrava que ele seria mais do que apenas o novo vizinho. Meu coração, naquele dia, foi capturado sem que eu sequer percebesse, preso em uma rede de encantamento que eu nunca havia imaginado ser possível. Então, a realidade me puxou de volta quando minha mãe abriu o velho portão de madeira rangente. O som ressoou no ar, como um lembrete de que a vida continuava, e juntas entramos em casa. A sensação de encantamento que eu havia experimentado permanecia grudada em mim, como uma sombra luminosa que não queria se apagar.
Cada objeto ao meu redor parecia menos importante do que a memória dele, e mesmo enquanto guardava as coisas que levava, o pensamento dele insistia em permanecer, dançando em minha mente como uma brisa suave, trazendo à tona sorrisos involuntários e um calor inexplicável em meu peito. Depois de organizar tudo, não consegui resistir e fui para o quintal, meu refúgio mágico. O espaço de terra vermelha, sem muros, cercado apenas por arame farpado e bambus, era o cenário de todas as minhas aventuras. Ali, naquele lugar simples, onde o mundo exterior parecia se dissipar como uma névoa ao amanhecer, eu me sentia livre, como se tivesse criado um pequeno reino onde os adultos não podiam entrar. A cercania sussurrava uma mensagem silenciosa: não entrem, aqui vivem pessoas. Nesse espaço sagrado, eu era a rainha absoluta. Sentei-me no chão, concentrada em fazer comidinha de barro, mergulhada em meu mundinho de fantasia. Moldava cada pedaço com a devoção de uma artista, dando vida a pratos imaginários que contavam histórias de fadas e criaturas mágicas.
O aroma da terra fresca preenchia o ar, e eu estava em paz, com o sol aquecendo meu rosto e o vento suave acariciando meu cabelo. Mas então, algo interrompeu minha concentração. Uma sensação estranha, como se um par de olhos invisíveis estivesse me observando, me fez parar. Levantei a cabeça devagar, o coração batendo acelerado em meu peito, e, para minha surpresa, lá estava ele novamente. O garoto dos olhos encantadores. Ele me observava, uma mistura de encantamento e curiosidade pintada em seu rosto, como se eu fosse uma pintura viva que ele nunca tinha visto antes. Seus olhos brilhavam com uma intensidade quase hipnotizante, acompanhando cada movimento meu, como se eu fosse a protagonista de um espetáculo que ele não queria perder. Senti meu rosto esquentar, um misto de timidez e excitação pulsando em minhas veias.
O tempo parecia ter parado novamente, cada segundo se estendendo como um fio de seda. Nesse instante, o que antes era uma simples brincadeira de barro se transformou em algo muito maior, uma promessa de aventura e descoberta. Ele sorriu, e meu coração disparou como se quisesse saltar do meu peito, ecoando como um tambor em um desfile festivo. A conexão entre nós era evidente, como se estivéssemos entrelaçados por um fio invisível que nos unia. Naquela troca silenciosa de olhares, eu soube que algo extraordinário estava apenas começando.
O quintal, antes um simples refúgio, agora vibrava com uma nova energia. Não consegui evitar. Com o coração acelerado, levantei-me e, sem pensar muito, caminhei em direção a ele, como se algo invisível me puxasse em sua direção. Aproximando-me do alambrado, meu peito batia forte, e, com uma mistura de ansiedade e esperança, perguntei:
— Quer brincar comigo?
Ele não respondeu com palavras, mas um leve aceno de cabeça afirmativo fez meu coração saltar de alegria. Era como se todo o peso do mundo tivesse sido tirado dos meus ombros, como se um novo capítulo estivesse prestes a se desenrolar diante de mim. Sem perder tempo, corri até o portão, minhas pequenas mãos lutando para remover a corrente pesada que prendia a fechadura improvisada.
Com um esforço final, consegui abrir o portão, e então o vi entrar, tímido, mas com uma presença que iluminava o espaço ao meu redor. Aproximei-me mais, a curiosidade borbulhando dentro de mim. Queria saber tudo sobre ele, como se estivesse prestes a descobrir um tesouro precioso.
— Qual o seu nome? — perguntei, tentando esconder a excitação que tremulava em minha voz.
Ele me olhou com um ar desconfiado, como se estivesse decidindo se poderia confiar em mim. Um momento de silêncio envolveu o ar, e meu coração disparou na expectativa. Mas, após essa pausa, respondeu, embora com certa timidez:
— É Dante.
Havia algo na maneira como ele pronunciava seu nome, um timbre que parecia carregar um mundo de histórias e mistérios. Meu peito aqueceu ao ouvir, como se tivesse encontrado uma parte perdida de mim mesma. Ele então devolveu a pergunta, seus olhos escuros brilhando com curiosidade:
— E qual o seu nome?
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