Pura Luxuria Seattle, 2006. Evelyn Castellani, filha de um chefe da máfia, prova o vestido de noiva ao lado da mãe quando sua família é assassinada numa emboscada. Escondida num compartimento secreto do escritório, ela vê tudo pela fresta: não o rosto do assassino, mas um par de sapatos de camurça preta e branca, manchados com o sangue dos pais. Quinze dias depois, de luto e sem poder contar a ninguém o que viu, ela se casa com Henrique Vasconcelos, herdeiro de uma dinastia poderosa e seu melhor amigo desde os oito anos, o homem que ela ama em silêncio desde a infância. Mas o coração dele pertence a outra, e o casamento, selado por um tratado de paz entre duas famílias, se transforma numa jaula de ouro. Quando a humilhação chega ao limite, Evelyn desaparece. Na Itália, com outro nome, ela descobre uma gravidez que decide guardar só para si e aprende, devagar, a viver de novo. Quatro anos depois, o retorno a Seattle a coloca de frente com o marido que deixou, com o filho que ele nunca soube ter e com o assassino que ainda a procura. Entre perseguições, segredos de família, traições e uma paixão que se recusa a morrer, Evelyn e Henrique descobrem que perdoar também pode ser um ato de coragem, e que a única luxúria que vale a pena é a de estar vivo.
A luz pálida de setembro entrava pelas janelas altas do salão de provas e desenhava listras douradas sobre o tapete persa. Em cima de um pequeno pedestal de veludo azul, Evelyn Castellani tentava não respirar fundo demais. O corpete estava tão ajustado que cada inspiração parecia uma pequena negociação.
- Fique parada, querida - pediu Madame Odile, com a boca cheia de alfinetes e um sotaque francês que ela fazia questão de preservar depois de trinta anos em Seattle. - Só mais um pouquinho.
Evelyn obedeceu. Diante dela, três espelhos de moldura dourada multiplicavam sua imagem em ângulos que nunca tinha visto. Havia ali uma jovem de vinte e dois anos, de pele clara, cabelos castanhos presos num coque frouxo e olhos de um azul tão vivo que pareciam acesos por dentro. E havia o vestido: seda marfim, mangas de renda de Chantilly, uma cauda de três metros e mais de duzentas pérolas costuradas à mão, uma a uma, durante quatro meses.
- Meu Deus do céu - sussurrou Helena, na poltrona perto da janela, com a xícara de chá esquecida no colo. - Olhe só para você.
Evelyn procurou a mãe pelo reflexo. Helena Castellani tinha o rosto de quem aprendeu cedo a sorrir sem mostrar os dentes e a postura de quem fora criada para ser respeitada num mundo de homens perigosos. Mas naquela tarde estava desarmada. Os olhos, idênticos aos da filha, brilhavam, e ela apertava um lenço de linho contra o peito como se o coração pudesse escapar.
- Está exagerado, mamãe? Parece que vou entrar na catedral montada num bolo de casamento.
- Está perfeito. - Helena se levantou, alisou a saia do vestido com a ponta dos dedos e prendeu uma mecha rebelde atrás da orelha da filha. - Você está igualzinha à sua avó no dia em que ela se casou. Seu pai vai chorar. Vai chorar e vai fingir que é alergia.
- Ele fez isso na minha formatura.
- Fez isso na sua primeira comunhão, no seu primeiro recital e na vez em que você ganhou aquela medalha de natação. - Helena riu baixinho. - Vittorio Castellani, o homem que faz um salão inteiro de adultos suar frio só com um olhar, derretido por uma garota de tranças.
Madame Odile soltou uma risadinha, ajeitou a barra da saia e pediu licença para buscar o véu no ateliê. Quando a porta se fechou, o salão ficou mais silencioso. Um instante depois ela se abriu de novo, e Dona Rosa entrou equilibrando uma bandeja de prata com um bule fumegante e uma fatia de bolo de limão.
Rosa estava na família havia trinta anos. Tinha trocado as fraldas de Evelyn, curado seus joelhos ralados e escondido dela, durante toda a infância, o pior do que aquela casa guardava. Tinha as mãos grandes e quentes de quem cozinhou a vida inteira para os outros e os cabelos grisalhos presos num coque rígido que nenhum vento ousava desmanchar.
- Para dar ânimo, menina - disse, pousando a bandeja. Parou, olhou o vestido e levou a mão à boca. - Ave Maria. A senhora sua mãe não vai ter lenço que chegue.
- A senhora também está chorando, Rosa.
- Estou nada. É o limão. - Fungou, enxugou os olhos no avental e saiu dizendo que ia ver se a cozinha já tinha adiantado o jantar, porque a casa recebia visitas importantes naquela noite e o senhor Vittorio não admitia atrasos.
Do corredor chegava o tilintar distante de louças, o som discreto de uma casa funcionando como sempre funcionou: passos macios de empregados, o relógio de pé marcando as horas, o murmúrio grave de vozes masculinas subindo do andar de baixo, onde o pai recebia os sócios. Lá fora, o cascalho da entrada estalou sob pneus. Mais um carro. Evelyn não deu importância.
Voltou a olhar para si mesma no espelho e, por um instante, a alegria vacilou.
Conhecia Henrique Vasconcelos desde os oito anos. Lembrava do dia com uma nitidez quase dolorosa: o lago da casa de campo da família dele, o verão úmido, ela trepada no galho mais alto de um carvalho porque tinha apostado com os primos que conseguia, e o galho estalando sob seus pés. Um garoto de quinze anos, alto para a idade, os cabelos escuros caindo nos olhos, gritou o nome dela lá de baixo, sem nem saber direito como se pronunciava, e abriu os braços. Ela caiu. Ele não a segurou direito; os dois rolaram na grama, e ele, com o joelho ralado e a camisa rasgada, ainda teve coragem de rir.
"Eu vou casar com ele", pensou a menina de oito anos, deitada de costas na grama, com o coração batendo na garganta. Era um pensamento tão simples e tão definitivo quanto o próprio nome.
Os anos passaram, e a amizade cresceu, virou rotina, virou lar. Henrique a ensinou a andar de bicicleta, a dirigir escondida do pai, a ler as pessoas nas festas de negócios, a nunca confiar em quem elogia demais. Era o primeiro a quem ela contava as novidades e o último a quem pedia desculpas. Só nunca contou a ele o que sentia. Dizer em voz alta era arriscar perder tudo o que já tinha.
Até a tarde de junho, três meses antes, em que ele a chamou para sentar nos degraus do jardim e, com os cotovelos sobre os joelhos e o olhar perdido no gramado, disse que tinha conhecido alguém numa viagem a negócios.
- O nome dela é Adry. - A voz dele saiu baixa, quase envergonhada. - Eu não planejei isso, Eve. Juro. Mas não consigo parar de pensar nela. E tem o tratado. Eu sei o que meu pai espera de mim, sei o que as nossas famílias esperam... Não sei como dizer isso a você.
Evelyn sorriu. Foi o sorriso mais difícil da sua vida.
- Você acabou de dizer - respondeu. - E eu estou feliz por você, Henrique.
Mentira. Passou aquela noite com o rosto afundado no travesseiro para que ninguém ouvisse.
O pai dele, Augusto Vasconcelos, não aceitou nem ouvir falar em desistir. O acordo de paz entre as duas famílias estava selado havia dois anos: os Castellani, com seus negócios que as pessoas fingiam não ver, e os Vasconcelos, com seus hotéis, seus estaleiros e seus sócios de sobrenomes que ninguém repetia em voz alta. Um casamento uniria o sangue e protegeria o dinheiro. E havia a cláusula, discreta como todas as cláusulas perigosas: um herdeiro em até três anos.
Um herdeiro. Evelyn encarou o ventre achatado pela seda e sentiu um arrepio que não soube nomear.
- Você ficou longe - disse uma voz ao seu lado.
Helena estava ali, o olhar atento, a cabeça levemente inclinada.
- Estava pensando em como tudo isso é bonito - mentiu Evelyn, pela segunda vez no dia, e foi pior que a primeira.
Helena não insistiu. Apertou-lhe a mão com ternura, uma pressão curta e quente que dizia mais do que qualquer pergunta.
- Quando Madame voltar com o véu e terminar essa tortura, venha ao meu salão de chá - pediu. - Tenho uma conversa guardada há vinte e dois anos e acho que chegou a hora.
Madame Odile voltou com o véu nos braços, uma nuvem de tule do comprimento de uma nave de igreja, e o prendeu aos cabelos de Evelyn com cuidado de ourives. A jovem do espelho ganhou então mais uma camada de beleza e de irrealidade. Parecia uma personagem de conto antigo, prestes a entrar na página.
- Pronto - disse Madame, recuando alguns passos e unindo as mãos sob o queixo. - Daqui a quinze dias, este vestido vai deixar o mundo inteiro sem ar.
Evelyn olhou o reflexo por mais um instante. Pensou no lago, no carvalho, no menino de joelho ralado. Pensou que talvez a mãe tivesse razão e um casamento começasse, simplesmente, onde a gente conseguisse começar.
Lá embaixo, o relógio de pé bateu cinco horas. Ela estremeceu sem saber por quê.
Pura luxuria
Tayra
Máfia
Capítulo 1 O vestido de noiva
26/10/2026
Capítulo 2 A conversa de mãe e filha
26/10/2026
Capítulo 3 O compartimento secreto
26/10/2026
Capítulo 4 O sapato de camurça
26/10/2026
Capítulo 5 As sirenes
26/10/2026
Capítulo 6 A fortaleza de Seattle
26/10/2026
Capítulo 7 O ombro de um velho amigo
26/10/2026
Capítulo 8 O tratado das famílias
26/10/2026
Capítulo 9 Vestida de luto, vestida de noiva
26/10/2026
Capítulo 10 A noite que ela quis esquecer
26/10/2026
Capítulo 11 Pedidos de perdão ao amanhecer
26/10/2026
Capítulo 12 A mansão silenciosa
26/10/2026
Capítulo 13 A febre
26/10/2026
Capítulo 14 Tadeu e Peter
26/10/2026
Capítulo 15 As cores voltam
26/10/2026
Capítulo 16 Seda, diamantes e coragem
26/10/2026
Capítulo 17 As viagens de Henrique
26/10/2026
Capítulo 18 Adry vira hóspede
26/10/2026
Capítulo 19 O banho e os braços errados
26/10/2026
Capítulo 20 O bilhete e a aliança
26/10/2026
Capítulo 21 Amanda
26/10/2026
Capítulo 22 A pousada na colina
26/10/2026
Capítulo 23 Dois riscos no teste
26/10/2026
Capítulo 24 O segredo só dela
26/10/2026
Capítulo 25 Gael
26/10/2026
Capítulo 26 Quatro anos
26/10/2026
Capítulo 27 O aeroporto
26/10/2026
Capítulo 28 Os olhos azuis
26/10/2026
Capítulo 29 A mentira de Evelyn
26/10/2026
Capítulo 30 Sombras na estrada
26/10/2026
Capítulo 31 O chefe da máfia
26/10/2026
Capítulo 32 O sapato outra vez
26/10/2026
Capítulo 33 O sequestro
26/10/2026
Capítulo 34 O perdão que ele pede
26/10/2026
Capítulo 35 A revelação
26/10/2026
Capítulo 36 Henrique contra todos
26/10/2026
Capítulo 37 Adry sem nada
26/10/2026
Capítulo 38 Pura luxuria
26/10/2026