De dia, ela é Maya Albuquerque: uma estudante de arquitetura elegante, reservada e polida na Zona Sul do Rio de Janeiro. No mapa de Ipanema, ela é apenas a jovem que tenta reconstruir a vida após uma infância marcada pela tragédia. Mas à noite, nas vielas sombrias e controladas do Morro do Alemão, ela veste a sua verdadeira pele. Lá, ela é Dóris: a líder implacável, temida e intocável, que governa com pulso firme e punho de aço. Há dezessete anos, uma noite de sangue e silêncio estilhaçou a sua família. Escondida debaixo de um porão, uma menina de nove anos jurou que os responsáveis pagariam caro por cada gota de sangue derramada. Seu plano de vingança é meticuloso. Para se aproximar do alvo, ela precisou cruzar o caminho de Lucas - um sujeito arrogante e dispensável, que serve apenas como degrau em seus planos, e por quem ela sente profunda repulsa. No entanto, o verdadeiro perigo surge quando a engrenagem do destino coloca em seu caminho o delegado responsável pelo caso. Um homem íntegro, implacável e determinado a caçar Dóris e jogá-la atrás das grades. Entre becos, tiros e uma eletrizante perseguição, o cerco da polícia se aperta e a linha entre a caçadora e a presa começa a desaparecer. O delegado não quer apenas cumprir a lei; ele desafia a mente de Maya como ninguém jamais ousou. E, pela primeira vez, a mulher que só conhecia o ódio se vê dividida entre a promessa de sangue que fez à sua família e uma paixão avassaladora e proibida pelo homem jurado de destruí-la. Quanto de si mesma Maya terá que perder para concretizar sua vingança - e o que acontecerá quando o homem que veio prendê-la for o único capaz de enxergar a alma por trás da armadura? Um romance contemporâneo repleto de suspense, segredos familiares, poder, vida dupla e uma jornada eletrizante rumo à redenção.
O cheiro de asfalto quente misturado com o perfume caro que custava a durar o trajeto inteiro da Zona Sul até a Zona Norte era a linha divisória do meu mundo.
Para os vizinhos, os professores da faculdade de arquitetura e até para a minha tia Heloísa em Ipanema, eu era Maya Albuquerque: uma jovem de vinte e cinco anos, reservada, estudiosa, que carregava a elegância silenciosa de quem parecia ter tido uma vida protegida.
Mas no Morro do Alemão, o meu nome era outro. Lá, eu era Dóris.
A liderança não caiu no meu colo por sorte, nem por herança familiar convencional. Ela foi banhada a sangue, construída sobre as cinzas de uma infância que me foi roubada dezessete anos atrás.
Renata, uma das poucas pessoas que conheci logo nos meus primeiros anos no morro através do Júlio - da segurança da boca -, era uma das poucas almas que conhecia os contornos da minha duplicidade. Ela não precisava me julgar; ali em cima, todo mundo carregava cicatrizes, mas as minhas eram profundas o bastante para manter qualquer um a uma distância segura.
A polícia me caçava, claro. Viviam colados nos meus calcanhares, colando cartazes e tentando entender quem comandava o tabuleiro.
Mas quem achava que eu era apenas mais uma criminosa sedenta por sangue se enganava redondamente.
Eu não matava por esporte ou crueldade gratuita. No entanto, fraqueza era algo que eu não tolerava. Dias antes, por exemplo, quase executei um dos meus próprios homens por crueldade desnecessária contra uma mãe de família.
Ele achou que podia espancar uma mulher por causa de um erro banal dentro do território. Paguei na mesma moeda, mostrando visualmente quem ditava as regras. Quem mandava ali era eu. E quando a raiva ancestral que habitava em mim vinha à tona, não havia trégua.
Porque a minha história não começou no crime. Ela começou numa noite que foi apagada a tiros.
Eu tinha apenas oito anos. Naquela noite, a nossa casa parecia um oásis de normalidade e falsa segurança.
Meus pais e meu irmão jantavam enquanto a mansão exibia aquela fachada sofisticada que tanto chamava atenção das minhas colegas de escola. Meu pai era um homem de silêncios pesados, uma figura de autoridade inquestionável que nunca precisava elevar o tom de voz para impor respeito.
Mas havia um lado dele que ele escondia a sete chaves: um escritório trancado onde guardava um verdadeiro arsenal de guerra.
Naquela noite fatídica, por capricho do destino ou curiosidade infantil, a porta daquele escritório estava entreaberta. Entrei e vi o armário de vidro refletindo o brilho metálico de armas pesadas. Não entendi o que aquilo significava na época, mas guardei cada detalhe. Pouco depois, o som seco de uma explosão estilhaçou a paz da casa.
O caos se instalou em segundos. Lembro do desespero do meu pai, do som abafado dos disparos e da ordem desesperada antes de me empurrar para o meu refúgio secreto:
- Corre para o seu esconderijo, minha princesa, eu vou te encontrar!
Mas ele não voltou.
Abafei meus próprios soluços dentro do esconderijo, ouvindo os gritos e a execução sistemática da minha família. Quando o silêncio fúnebre finalmente tomou conta, rastejei para fora e espreguei os olhos na escada. A cena era uma pintura do inferno: meus pais e meu irmão caídos, o sangue manchando o piso impecável.
Um homem se destacava entre os assassinos. Ele chutou o corpo do meu pai, que ainda respirava com dificuldade, e vociferou com um ódio que me congelou a espinha:
- Eu vou achar sua filha e acabar com seu clã maldito! Esse morro será meu, e você, seu merda, já matou demais dos meus. Agora chegou a minha vez de brilhar e me vingar de você. Sua mulher era para ser minha, e um dia vou fazer você pagar por isso!
O monstro ainda rugiu, procurando por mim, ameaçando me matar na frente do meu pai agonizante. Protegida pelas sombras, recuei para o meu esconderijo e só saí horas depois, quando a sirene da polícia cortou a madrugada e uma policial me encontrou encolhida, trêmula e completamente sozinha no mundo.
Fui morar com minha tia Heloísa em Ipanema. Tive o melhor colégio, a faculdade, a terapia que tentava em vão apagar os rostos daqueles homens da minha mente.
Mas a terapia não adiantava contra a sede de justiça que queimava no meu peito. Eu reconheci cada rosto naquelas fotos que a polícia me mostrou. E jurei que eles pagariam. Até mesmo Genebra, o segurança que teoricamente deveria ter nos protegido e que me enchia de presentinhos, fazia parte da traição.
Cresci dividida entre dois universos. Na Zona Sul, Maya estudava arquitetura, vivia romances passageiros sem importância - como aquela primeira vez desajeitada com um universitário correto que não cabia no meu mundo caótico - e mantinha as aparências. No submundo, Dóris se moldava de ferro e astúcia.
Até que, em uma das noites no baile funk do morro, o passado cobrou sua fatura.
Encontrei um dos rostos daquela noite. Com a ajuda de Gael, meu fiel escudeiro, armei a armadilha e o levei para um cativeiro isolado para arrancar dele os nomes que faltavam.
Mas o plano saiu do eixo: o antigo líder do morro apareceu nos observando, filmando tudo. Ele tentou me chantagear, virar o jogo e me subjugar. Mal sabia ele que subestimar uma criança sobrevivente era um erro fatal. Eliminei o tirano e assumi o seu trono, tornando-me a temida dona do Morro do Alemão.
Agora, anos depois, o tabuleiro parecia pronto para o xeque-mate.
O som grave e estridente do funk ecoava pelas caixas de som gigantescas quando vi um homem abrir caminho entre a multidão na boca do morro. Ele tinha um porte imponente, um sorriso insolente e, por um segundo que fez meu coração falhar uma batida, traços que me lembraram fantasmas que eu enterrei.
Uma sombra se aproximou de mim, sussurrando em alerta:
- E aí, o que você veio fazer na boca da loba?
O desconhecido parou diante de mim, ignorando completamente a tensão ao redor, e cravou os olhos nos meus sem um pingo de medo.
- Tô na área pra conhecer a loba e, quem sabe, se rolar, tomo esse morro. Seria da hora, né, mano? - ele provocou, com um tom displicente que fez o sangue ferver nas minhas veias.
O segurança ao meu lado rosnou:
- Se você se meter a besta e tentar tomar esse morro, pode crer que não vai sair daqui vivo, não. Nem vai ter chance de falar quem te matou.
Ele não desviou o olhar de mim nem por um centésimo de segundo. A energia que emanava dele era perigosa, arrogante e estranhamente magnética. Eu podia sentir o perigo palpável zumbindo no ar.
Ele não sabia quem eu era, nem o que eu representava. Mas, para o meu azar ou destino, aquele homem acabara de cruzar a linha de chegada da minha paciência.
Se ele achava que podia brincar com fogo no meu território, descobriria da pior forma que a loba nunca perdoa quem ousa desafiá-la. A vingança estava em curso, e ele parecia ser a peça que faltava para incendiar tudo de vez.
Sob a Luz da Vingança
Gil Silva
Romance
Capítulo 1 Maya Albuquerque
15/11/2024
Capítulo 2 Maya Albuquerque
15/11/2024
Capítulo 3 Maya Albuquerque
15/11/2024
Capítulo 4 Maya Albuquerque
15/11/2024
Capítulo 5 Maya Albuquerque
15/11/2024
Capítulo 6 Maya Albuquerque
15/11/2024
Capítulo 7 Maya Albuquerque
16/11/2024
Capítulo 8 Maya Albuquerque
16/11/2024
Capítulo 9 Maya Albuquerque
16/11/2024
Capítulo 10 Renata Alcântara
16/11/2024
Capítulo 11 Renata Alcântara
16/11/2024
Capítulo 12 Bernardo Agostini
16/11/2024
Capítulo 13 Bernardo Agostini
16/11/2024
Capítulo 14 Bernardo Agostini
17/11/2024
Capítulo 15 Bernardo Agostini
18/11/2024
Capítulo 16 Maya Albuquerque
18/11/2024
Capítulo 17 Maya Albuquerque
19/11/2024
Capítulo 18 Maya Albuquerque
19/11/2024
Capítulo 19 Bernardo Agostini
20/11/2024
Capítulo 20 Bernardo Agostini
20/11/2024
Capítulo 21 Maya Albuquerque
21/11/2024
Capítulo 22 Maya Albuquerque
21/11/2024
Capítulo 23 Maya Albuquerque
21/11/2024
Capítulo 24 Maya Albuquerque
21/11/2024
Capítulo 25 Bernardo Agostini
23/11/2024
Capítulo 26 Maya Albuquerque
23/11/2024
Capítulo 27 Maya Albuquerque
23/11/2024
Capítulo 28 Maya Albuquerque
26/11/2024
Capítulo 29 Maya Albuquerque
26/11/2024
Capítulo 30 Bernardo Agostini
26/11/2024
Capítulo 31 Bernardo Agostini
26/11/2024
Capítulo 32 Bernardo Agostini
26/11/2024
Capítulo 33 Maya Albuquerque
26/11/2024
Capítulo 34 Maya Albuquerque
26/11/2024
Capítulo 35 Maya Albuquerque
27/11/2024
Capítulo 36 Maya Albuquerque
28/11/2024
Capítulo 37 May Albuquerque
28/11/2024
Capítulo 38 Maya Albuquerque
28/11/2024
Capítulo 39 Bernardo Agostini
29/11/2024
Capítulo 40 Bernardo Agostini
29/11/2024