Meus dedos, antes ágeis sobre tecidos e croquis, agora tremiam levemente. Deixei o lápis cair no chão e, ao me inclinar, vi o que não deveria: um ponto preto minúsculo, quase imperceptível. Uma câmera. Meu coração disparou; dezenas, talvez centenas delas, espalhadas por cada canto da casa que eu considerava meu refúgio. A casa não era mais um lar, mas um palco de vigilância, e minha privacidade, minha vida, tudo estava sendo observado. Em vez de gritar e confrontar Pedro, meu marido, respirei fundo, controlando o tremor nas mãos, e forcei uma expressão serena. Quando ele chegou, agi conforme o plano: "Pedro, querido, vou fazer minha caminhada diária. O dia está lindo." Com um beijo na testa que agora parecia zombaria, ele me observou sair. Mas eu não fui longe; voltei pela porta dos fundos e me escondi no closet, de onde via o monitor de segurança no escritório de Pedro. Pouco depois, Luana entrou, e Pedro a recebeu com um beijo de amante. No monitor, assisti à cena que quebrou o que restava do meu coração: eles se beijando, as mãos dele explorando o corpo dela com uma urgência que ele não demonstrava comigo há anos. Então, ouvi a voz de Pedro, clara e nítida: "Termine logo, pois Sofia volta da caminhada em trinta minutos." Luana riu, um som desdenhoso: "Você ainda se preocupa com aquela aleijada? Ela não serve para nada, Pedro. Por que você não se livra dela de uma vez?" Prendi a respiração, esperando que ele me defendesse. "Não fale assim dela," a voz de Pedro ficou séria. "Sofia é meu maior amor e meu limite. Tudo que faço é por ela." A hipocrisia naquelas palavras era tão densa que quase engasguei. Luana colocou a mão sobre a barriga. "Nosso filho merece mais, Pedro. Ele merece ser o único herdeiro, o dono de tudo isso. Não o filho de uma mulher que nem consegue andar." Filho. Luana estava grávida. A paralisia, que os médicos não conseguiam explicar, agora fazia um sentido terrível: ele me queria dependente, paralisada, para o filho da amante herdar tudo. Mas a dor se transformou em uma raiva fria e cortante, uma determinação de aço. Eu já estava me recuperando; secretamente, sentia o formigamento nas pernas, a força retornando. Peguei meu celular e digitei a resposta para a oferta de emprego em Paris, que quase recusei por causa dele. "Eu aceito."
Meus dedos, antes ágeis sobre tecidos e croquis, agora tremiam levemente.
Deixei o lápis cair no chão e, ao me inclinar, vi o que não deveria: um ponto preto minúsculo, quase imperceptível.
Uma câmera.
Meu coração disparou; dezenas, talvez centenas delas, espalhadas por cada canto da casa que eu considerava meu refúgio.
A casa não era mais um lar, mas um palco de vigilância, e minha privacidade, minha vida, tudo estava sendo observado.
Em vez de gritar e confrontar Pedro, meu marido, respirei fundo, controlando o tremor nas mãos, e forcei uma expressão serena.
Quando ele chegou, agi conforme o plano: "Pedro, querido, vou fazer minha caminhada diária. O dia está lindo."
Com um beijo na testa que agora parecia zombaria, ele me observou sair.
Mas eu não fui longe; voltei pela porta dos fundos e me escondi no closet, de onde via o monitor de segurança no escritório de Pedro.
Pouco depois, Luana entrou, e Pedro a recebeu com um beijo de amante.
No monitor, assisti à cena que quebrou o que restava do meu coração: eles se beijando, as mãos dele explorando o corpo dela com uma urgência que ele não demonstrava comigo há anos.
Então, ouvi a voz de Pedro, clara e nítida: "Termine logo, pois Sofia volta da caminhada em trinta minutos."
Luana riu, um som desdenhoso: "Você ainda se preocupa com aquela aleijada? Ela não serve para nada, Pedro. Por que você não se livra dela de uma vez?"
Prendi a respiração, esperando que ele me defendesse.
"Não fale assim dela," a voz de Pedro ficou séria. "Sofia é meu maior amor e meu limite. Tudo que faço é por ela."
A hipocrisia naquelas palavras era tão densa que quase engasguei.
Luana colocou a mão sobre a barriga.
"Nosso filho merece mais, Pedro. Ele merece ser o único herdeiro, o dono de tudo isso. Não o filho de uma mulher que nem consegue andar."
Filho. Luana estava grávida.
A paralisia, que os médicos não conseguiam explicar, agora fazia um sentido terrível: ele me queria dependente, paralisada, para o filho da amante herdar tudo.
Mas a dor se transformou em uma raiva fria e cortante, uma determinação de aço.
Eu já estava me recuperando; secretamente, sentia o formigamento nas pernas, a força retornando.
Peguei meu celular e digitei a resposta para a oferta de emprego em Paris, que quase recusei por causa dele.
"Eu aceito."
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