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Meu nome é Lucy

Meu nome é Lucy

Evy Maze

5.0
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Leituras
71
Capítulo

Romance LGBT (Transgênero) Lucy nunca foi um garoto. Vivendo presa como um pássaro em gaiola dentro de seu próprio corpo, a garota tinha a sensação de sufocamento todas às vezes que ouvia lhe chamarem por Jeon Woojin. Sentia-se constantemente triste por não poder mostrar-se verdadeiramente ao mundo e, principalmente, à sua família. Porém, Lucy ainda sonhava em voar, em conquistar seu espaço no mundo e ser livre para ser quem realmente era. E foi pensando assim que ela não desistiu de lutar, passando por dezenas de problemas e enfrentando diversos preconceitos para alcançar o que mais desejava: sua liberdade e identidade.

Capítulo 1
Um

Essa é a história de vida de uma garota transgênero, então sejam bem-vindos e se sintam prontos para morrer de amor nas aventuras dela.

_______

Os sonhos nascem como nuvens no céu.

Era assim que Lucy via as coisas.

Andando com seus cabelos voando e batendo em seus olhos, ela via como eram belos os pássaros livres no céu.

Adorava ver aquela liberdade, como podiam ir para onde bem entendiam. Almejava poder viver dessa mesma forma, livre. Mas, infelizmente, parecia que em sua vida, as escolhas eram um pouco mais difíceis do que apenas saber se quer voar ou pousar numa árvore repleta de flores.

Sentia-se diariamente presa dentro de si.

Queria poder correr, livrar-se do peso, mas como o faria? Se em sua própria casa, o medo fazia com que cada vez mais sua personalidade e seu eu interior ficassem presos, vivendo sob uma capa de mentiras e achismo, apenas para agradar aquela que lhe deu a vida.

Fosse assim, viver livre. Poder usar suas saias e meias, como toda e qualquer garota de sua idade.

Lucy se odiava tanto, mas tanto, que chegava a chorar todas as manhãs, perguntando a Deus por que ele, como o ser mais perfeito e bondoso que sua mãe dizia que era todos os dias, havia feito isso com ela.

Ela sequer escolheu ser assim.

Mas, como todos os dias, aquele era mais um onde ela vestiria sua capa, transformando-se assim nele.

Jeon Woojin.

Ajeitando a gravata uma última vez em frente ao espelho, ela bufava e resmungava mais uma das milhares de vezes. Odiava o modo em como aquilo pinicava a pele de seu pescoço. Porém, era regra. O uniforme masculino tinha que estar completo, e ela, como ele, não poderia fazer nada.

ㅡ Woojin você irá se atrasar!

Foi o que ouviu de sua mãe, como todas as manhãs que gritava do início da escada.

Lucy atentou-se em se apressar, ou então realmente se atrasaria, perdendo o ônibus que sempre passava no mesmo horário e a companhia dele, que sempre a espera no mesmo lugar.

Engoliu uma pílula do hormônio que vinha tomando antes de descer e guardou o restante na caixa embaixo de sua cama.

Descendo as escadas, Lucy tentou ajeitar seus cabelos, pondo um pouco dos fios para trás das orelhas e vendo como eles sempre teimavam em voltar e a cair sobre seus olhos.

ㅡ Garoto, olhe a hora. ㅡ sua mãe diz, assim que chega a cozinha. ㅡ Woojin, que modo de pôr a gravata é esse? ㅡ Indagou apontando. Lucy desceu seu olhar, não entendendo ao certo o que estava errado. ㅡ Você não pode andar por aí assim, ainda mais ir para a escola. Você tem dezessete anos, já é um homem.

"Não, mãe, eu não sou."

Era o que Lucy pensava naquele momento, enquanto sua mãe a chacoalhava de um lado a outro, deixando a gravata totalmente alinhada.

ㅡ Ótimo. ㅡ sorriu olhando nos olhos da filha. ㅡ Nunca arrumará uma namorada desse jeito desleixado.

ㅡ Eu não quero arrumar uma namorada.

ㅡ É claro que quer, todo garoto da sua idade quer. Em breve você terá idade para se casar e ter uma boa mulher para cuidar de você e da sua casa.

ㅡ Por deus, Sun-ha, deixe o garoto em paz. ㅡ Jungso, pai de Lucy, adentra o cômodo falando. O homem olhou a filha e sorriu.

Era sempre ele a salvá-la das falações de Jeon Sun-ha.

ㅡ Obrigada, papai. ㅡ Lucy sussurrou sorrindo.

ㅡ Obrigado, Woojin, com O no final. ㅡ a mulher torna a falar. ㅡ homens usam obrigado, mulheres, obrigada.

ㅡ Ah, mãe... tchau.

A garota não estava mais a fim de perder tempo com bobagens, ainda mais vindas de sua mãe, que sempre tocava no mesmo assunto, de como precisava se portar e se organizar para arrumar logo uma garota.

Caminhava afoita a fim de chegar logo à esquina de sua rua, e quando chegou, ela sorriu, tão apaixonada como sempre tivera desde seus treze anos, vendo-o a sua frente, lhe esperando para seguirem para a escola.

ㅡ Woojin, está atrasado! ㅡ Park Ryeon gritou.

Park Ryeon... sua paixão.

Na verdade, era mais para seu amigo, apenas isso no literal, mas Lucy carregava uma paixão secreta pelo garoto desde os treze anos e se tornava mais forte a cada novo dia.

ㅡ Desculpa, Ryeon. ㅡ pediu, arrumando a alça de sua mochila ao parar de frente com ele. ㅡ podemos ir agora?

ㅡ Devemos, ou perderemos o ônibus.

Caminhando lado a lado, Lucy sorria para as bobagens que Ryeon contava que havia feito em seu final de semana.

Ele havia ido ao parque de diversões, e havia ido à montanha-russa sete vezes consecutivas, na última, vomitou em seus próprios sapatos.

ㅡ Você é louco. ㅡ exclamou Lucy.

ㅡ Sou radical, é diferente. ㅡ Ryeon a respondeu, sorrindo e sutilmente roçando seu braço no dela.

Eles caminhavam juntos, quase colados.

E era sempre assim.

Sempre que as peles se esbarravam, Lucy lembrava sempre da noite de sexta-feira no qual Ryeon fez seu coração pulsar tão forte que ela jurava que morreria aos treze anos.

Estavam ambos sentados sobre a cama do quarto azul pastel e sem graça de Lucy. Estavam comentando sobre um filme que haviam acabado de ver, e Ryeon sempre que sorria se jogava sobre as coxas dela, era uma mania sua.

Mania que Lucy adorava bastante.

Ela se sentia ainda mais próxima dele.

E naquele momento, Ryeon havia se jogado sobre ela, rindo de uma das cenas do filme que lembravam, e por um só segundo, o tempo simplesmente parou.

Lucy pôde sentir o modo que Ryeon parava de sorrir gradativamente e lhe encarava, mudando completamente sua feição.

ㅡ Posso te contar um segredo?

Foi o que Ryeon sussurrou, pertinho dela. O garoto tinha um sorriso sapeca nos lábios, o que a fez assentir, curiosa.

ㅡ Eu tive o meu primeiro beijo.

E como se facas adentrassem seu peito tão jovem, Lucy sentiu, pela primeira vez, a dor da desilusão.

Viu naquele momento como era tola. Começava a se reconhecer mais como menina, percebendo que jamais havia sido como todos lhe viam, e achava que Ryeon poderia reparar em si dessa forma. Da forma real.

ㅡ Mesmo? ㅡ Perguntou, fitando as mãos unidas sobre o colo

Sua garganta estava trancada, sequer sabia que doeria tanto ter tal percepção.

E o que faria? Xingaria o garoto por beijar uma boca que não era a sua? Não podia.

ㅡ E eu posso te mostrar como é... ㅡ Ryeon sussurrou outra vez, mordendo o lábio inferior.

E naquele momento, com Ryeon ainda próximo demais, ela realmente achou que morreria.

Seu coração pulsou fortemente, enquanto seus olhos se abriram. A dor que antes sentiu, foi tomada por nervosismo e seu corpo ficou ainda mais inquieto. Viu Ryeon sorrir ainda mais, se aproximando todo sorrateiro até si.

E ela não o afastou. Viu fechar os olhos e respirou fundo antes de fazer o mesmo.

Seria mesmo assim? Iria beijá-lo assim com tanta facilidade?

E sim, ela beijou.

Sentiu os lábios gordinhos de Ryeon pousarem nos seus com tamanha delicadeza, e ainda sem ter outros movimentos, Lucy suspirou em puro prazer.

Parecia como realizar um sonho, ou se quisesse ir além, a sensação parecia que estava correndo por um arco-íris, pulando em direção ao pote de ouro.

Ainda estava muito confusa, queria que Ryeon reparasse em si como menina, mas não pensou em beijá-lo até então.

Mas pouco se importou naquele momento, aquele ato se tornava o seu favorito dentre todos no mundo.

Queria beijar e beijar Ryeon, até seus lábios ficarem cansados e inchados.

Assim sentiu Ryeon ir além, pousando uma mão em sua nuca e adentrando os dedos nos seus fios curtos. O garoto também suspirava, e com timidez, pousou sua língua sobre o lábio inferior dela, massageando-o.

E Lucy gelou.

Não sabia o que fazer, mas já havia assistido filmes suficientes para saber que tinha que pôr sua língua na dele para poder ir além, e assim o fez.

Timidamente, como Ryeon havia feito consigo, Lucy tocou Ryeon com sua língua, sentindo a maciez e umidade de seu músculo, o recebendo e conhecendo.

E mesmo atrapalhado, o toque foi bom. Era interessante como o Park conduzia com almejo aquilo. Parecia como uma dança, e ele dançava muito bem.

E foi assim que a Jeon deu o seu primeiro beijo.

Ninguém os interrompeu naquele momento, para a salvação de ambos.

Não saberia reagir se Sun-ha visse algo assim, era capaz dela levá-la a uma igreja e pedir a um padre para exorcizá-la, pois, aquilo eram claramente atos demoníacos que dominavam os corpos humanos.

Mas Lucy não sentia que tinham demônios dentro de si.

Mas era isso que sua mãe falava todas às vezes que via um casal gay ou de qualquer outro da comunidade que não fosse à de padrão heterossexual.

Mas saindo de seus devaneios apaixonados de adolescente, Lucy viu Ryeon sentar-se no banco da parada do ônibus, alheio, de olho em seu celular, não lhe dando muita atenção.

Ela achava que ele nem lembrava mais daquilo, era mesmo uma boba.

Sentou-se ao lado, tamborilando os dedos no joelho, sem ter nada para fazer.

Não podia nem mexer em seu celular, esse sempre ficava em casa, pois sua mãe não permitia que ela o levasse para a escola.

ㅡ Você irá ao baile de encerramento? ㅡ ouviu Ryeon perguntar, guardando o celular no bolso.

Lucy negou.

ㅡ Não tenho tanto interesse nesse tipo de coisa, você sabe.

ㅡ Mas eu pensei que você fosse. ㅡ falou, comprimido os lábios. ㅡ não será animado sem você lá, Woojin!

ㅡ Até parece que você se importaria, Ryeon. Você vai estar muito ocupado com a Sun.

ㅡ A Sun só vai comigo porque não achou par e implorou. ㅡ virando de lado para encarar melhor Lucy, o garoto se aproximou devagar. ㅡ Eu pensei que nós dois fôssemos nos divertir...

Lucy deu de ombros, não querendo se iludir com nada que passava em sua mente no momento.

ㅡ Qual é, Woojin... Vamos, por favor... ㅡ pediu juntando as mãos.

ㅡ Não, Ryeon, não vou não.

ㅡ Por favor... A gente pode ir até o shopping e comprar ternos combinando.

ㅡ Somente namorados usam roupas combinando hoje em dia.

ㅡ Então vamos fingir que somos namorados? Desse jeito você vai comigo?

Lucy riu, negando falsamente enquanto seu próprio coração voltava a tamborilar.

Perguntava-se o porquê de seu coração ser tão fraco. Começava mais uma vez a bater forte, e não tinha resposta para dar a Ryeon, porque estava em choque.

Mas, para sua salvação, viu o ônibus dobrar a rua e ficou de pé no mesmo momento, fugindo da conversa.

Adentrou o transporte rápido, indo até às cadeiras do fundo e pôs a mochila sobre as coxas assim que sentou, puxando um pouco da gravata do uniforme que lhe pinicava.

Ryeon fez o mesmo trajeto, sentando ao seu lado, ainda sem uma resposta.

ㅡ Você estudou para o teste de física? ㅡ Lucy desdobrou o papo.

ㅡ Teste? Que teste?

ㅡ Eu não acredito nisso, Ryeon, você se esqueceu?

ㅡ Está falando sério mesmo?

ㅡ É claro que estou! A sua sorte é que ele é em dupla, você pode fazer comigo ou com o seu par do baile...

ㅡ Você não gosta mesmo da Sun, não é? ㅡ perguntou sorrindo.

ㅡ Eu nunca disse que não gostava dela, eu só não quero amizade.

ㅡ Ela disse que você é bonito. ㅡ falou olhando-a de soslaio.

ㅡ Problema dela.

A garota não gostava mesmo de falar da outra, poderia ser vista como egoísta, não ligava.

ㅡ Eu posso ir à sua casa hoje? ㅡ A perguntou, mudando de assunto.

ㅡ À noite? ㅡ assentiu. ㅡ só se ficarmos no quintal. Hoje minha mãe tem reunião com as "senhoras" do bairro.

ㅡ Minha mãe nunca vai a isso ㅡ falou, rindo baixo.

ㅡ Sorte da sua mãe. Elas só falam de como os filhos estão indo bem nas escolas, faculdades e sobre os empregos dos maridos. E ainda criticam as outras mulheres por não serem desse jeito.

ㅡ Ainda bem que a mamãe não vai mesmo a isso, ela iria mandar todo mundo à merda com facilidade... Até a sua mãe.

Lucy riu. Não duvidaria daquilo.

Fitou a janela, vendo as casas e logo o silêncio se instalou entre ambos. Lucy encostou a cabeça e admirou as pessoas que caminhavam com tranquilidade nas ruas.

Sentiu sutilmente sua mão ser segurada, e virou-se rapidamente, vendo Ryeon sorrindo com sua mão presa a dele.

ㅡ Quer escutar música comigo? ㅡ Perguntou, erguendo um dos lados do seu fone de ouvido.

A Jeon assentiu, sorrindo. Encaixou o aparelho na orelha e aguardou.

Ela tentou se concentrar no toque de head first que logo se iniciou, mas Ryeon ainda segurava sua mão, deixando seus dedos tão bem encaixados aos seus que deixava-a completamente ruborizada.

Mas Ryeon pouco parecia se importar, balançava os pés no ritmo da música e até brincava com os dedos juntos ao do seu amigo.

"Você me tem na palma da mão"

Era o que a letra da música dizia, mas Lucy sentia que era como uma indireta mandada diretamente do universo para si.

Park Ryeon a tinha na palma de suas mãos, de certa forma.

"Enrolado em seu dedo até as luzes se apagarem"

Lucy vagou seus olhos por Ryeon, vendo-o dedilhar o celular outra vez.

Ela queria tanto que ele a olhasse e a beijasse ali.

Era tudo o que ela pedia ao universo no momento.

"Alimentando adrenalina que está acelerando meu coração, você anda um pouco mais perto e eu sinto isso chegando".

E Lucy sentia. Sentia o coração pulsar mais, as borboletas em seu estômago, baterem asas e causarem-lhe rebuliços intensos.

E como uma pluma leve, enquanto ainda se perdia no rosto do outro, Ryeon virou-se para ela, não como antes, mas como uma primeira vez.

Seus olhos se cruzaram, fazendo faíscas nascerem de entre os corpos.

"Me atingiu como uma onda, estou caindo... você me hipnotizou, encantado. Enrolado em seu dedo até as luzes se apagarem."

"Você me tem na palma da mão."

"Você me tem..."

E naquele momento foi diferente. Não foi Lucy que se sentiu estranha, e sim Ryeon. O impulso que seu corpo tomou, levando-o para frente, fez com que a garota paralisasse.

Eram apenas centímetros de distância, e ambos respiravam pesadamente com anseios em seus corpos.

Os rostos estavam quase colados, compartilhando ainda a mesma música, e, provavelmente, o mesmo sentimento.

Os olhos se encaravam, mas eram suas bocas que se imploravam ali.

Ryeon desceu o olhar, fitando os lábios finos, bem desenhados e levemente rosados.

Lucy havia passado seu batom de pêssego naquela manhã. E como se tivesse o faro aguçado, o Park pôde sentir o aroma doce, e engoliu em seco, louco para prová-lo.

Mas Lucy teve que intervir. Mesmo que quisesse, não conseguiria beijá-lo ali, no meio de tantas outras pessoas.

Ergueu-se rápido do banco, fazendo o fone cair de seus ouvidos.

ㅡ É a nossa parada. ㅡ avisou, desviando os olhos.

Ryeon assentiu, sentindo-se envergonhado. Andou para fora do ônibus junto a ela, e quando adentraram a escola, se separaram apenas com um "Te vejo na sala".

E quando ficou sozinha, a garota pôde respirar profundamente por várias vezes, assimilando o que poderia ter acontecido.

Lucy tremia, caminhava com pressa. Correu até a sala de aula, direto para os braços do único que lhe entendia por completo até então.

Assim que adentrou o local, agradeceu aos céus por seu melhor amigo estar ali, sozinho, sentado na última cadeira da fileira da direita, próximo às janelas, como sempre ficava.

A Jeon correu, se atrapalhando nos próprios pés, jogando a mochila sobre a carteira para sentar-se enquanto seu amigo a encarava ainda sem saber o porquê de seu comportamento um pouco elevado. Lucy respirou fundo e falou de uma só vez:

ㅡ Estou ficando louca!

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