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"Eu só queria entender porque não foi tão diferente
Eu jurava que seria com você
Mas a cabeça me enganou tão lentamente
Que acordei sozinho sem pode te ver. ”
Solidão – Maria Gadú
♥
Estava parada na porta do quarto com os braços cruzados frente ao peito observando Eduardo fazer suas malas. Não conseguia expressar nenhuma reação, ainda estava imóvel como uma estátua assistindo a cena que me assombrava os pensamentos e me tiravam a paz a cada dia nos últimos meses.
Aquele dia em especial tinha sido estressante com alguns problemas no estúdio em que eu trabalhava e já se passavam das seis da tarde quando cheguei em casa totalmente exausta, como todos os dias o esperei para decidirmos o que iríamos jantar seguindo a nossa rotina, mas assim que ele passou pela porta eu soube que tudo seria diferente.
Eduardo não havia vindo até mim e me dado o beijo carinhoso na testa enquanto acariciava meu cabelo e perguntava sobre o meu dia. Tinha chegado com um semblante fechado, sequer se aproximou e tudo que disse quando me olhou foi que estava indo embora e seguiu para o quarto começando a fazer as malas.
— Acho melhor darmos um tempo... tanto eu quanto você precisamos pensar. Ouvi sua voz firme e decidida quebrar o silêncio, já que era a segunda coisa que ele dizia desde que havia chegado e jogado a notícia sobre mim.
Duas malas estavam abertas em cima da cama enquanto remexia no guarda roupa retirando suas camisas bem engomadas que eu separav¬¬¬a por cores. As jogou sem nenhum cuidado na mala como se tivesse pressa em sair dali.
O nó em minha garganta apenas aumentava, mas eu precisava falar, não queria aquilo. Pisquei meus olhos para segurar as lágrimas que ameaçavam a rolar antes de suspirar para começar a dizer:
— Eu não preciso de tempo para pensar, Eduardo! — Murmurei. — Eu amo você, não acredito que está desistindo de nós... você tem outra, é isso? Acusei e vi a fúria em seus olhos quando me encarou alguns segundos calado.
— Você sabe que eu nunca faria uma coisa dessas Camile! Nosso problema não é infidelidade, já estamos caminhando para o fim há quatros meses e você sabe muito bem o porquê!
— Eu sei? Aumentei a voz descruzando os braços e levando os dedos das mãos sobre minhas têmporas que doíam.
Edu e eu quase nunca discutíamos, geralmente quando acontecia eram brigas bobas e relacionadas a ciúme, brigas essas que na maioria das vezes eram protagonizadas por mim, mas independentemente dos motivos, todas eram resolvidas na cama, perceber que aquela que estávamos tendo agora não terminaria como as outras me deixava apavorada.
— Sabe! — Jogou algumas últimas roupas na mala e levou as mãos sobre o rosto esfregando os olhos em um ato que sempre fazia quando estava irritado. — Não posso mais, Camile! Amo você, mas não posso ficar e assistir o que está fazendo, não foi eu quem desistiu de nós, você desistiu!
— Você dramatiza tudo, Eduardo! Continuo a mesma! Sou eu aqui! A mulher que você conheceu há quatro anos! Eu não consigo entender... por isso eu aposto que está com alguém, foi na última viagem de trabalho?
— Para com isso! — Gritou me fazendo arregalar os olhos assustada. — Já falei que não tem nenhuma mulher. Abaixou seu tom se demonstrando chateado.
Revirei os olhos o encarando. O silêncio que se passou naqueles rápidos segundos em que nos olhávamos foi tempo suficiente para eu sentir meu coração se quebrar.
— Você diz muitas coisas, Eduardo. — Minha voz saiu esganiçada e embargada pelo choro. — Que nunca me abandonaria foi uma delas.
Seu rosto bonito se transformou em uma carranca, minhas palavras haviam o atingido, mas a dor em seus olhos durou pouco, logo soltou o ar e começou a fechar as malas me ignorando como se eu não estivesse ali.
— Essa discussão é inútil, você nunca me ouve... deixei seis meses de aluguéis pagos, você não precisa se preocupar por enquanto. Anunciou agarrando as alças das malas e passou os olhos pelo quarto analisando se não estava esquecendo nada importante.
— Edu. — Atravessei na sua frente impedindo que saísse. — Eu não importo com a merda dos aluguéis, não quero o seu dinheiro... não faz isso, por favor! Clamei deixando uma lágrima escapar.
— Para mim não dá mais.
Não fui capaz de replicar mais nada, dei um passo para o lado deixando que passasse e quando escutei a porta do apartamento se fechando foi como se tivesse sido deixada em uma caverna escura.
Cai de joelhos e deixei as lágrimas que tanto segurei anteriormente caírem, lágrimas que se transforaram em um choro alto cheio de soluços em pouco tempo.
Levantei os olhos para o guarda roupa com as portas abertas e o vazio lá dentro ironicamente mostrava como eu me sentia agora. Eduardo tinha ido e levado uma parte minha com ele, o pior de tudo era saber que ele tinha me avisado que se eu tomasse aquela escolha nós dois acabaríamos.
Encarei o teto e minha mente viajou em toda a minha história com ele. Tudo tinha começado há quatro anos atrás quando eu me mudei de Goiânia para o Rio de Janeiro, tinha passado no vestibular de Direito na Universidade Federal, lá também foi onde tinha conhecido a maluca da minha melhor amiga, Bárbara Magalhães ou Babi, que era como era chamada por todos.
Babi era minha colega de sala e logo nos tornamos muito amigas, enquanto eu era um pouco comedida em minhas ações, ela era uma alma livre, amava promover inúmeras festas na imensa mansão que vivia com seus pais na Barra. Foi em uma dessas que Eduardo e eu nos conhecemos, Edu era um dos melhores amigos de Bruno irmão de Babi. Na noite em que fomos apresentados eu tinha gostado logo de cara já que ele era muito bom de papo além de definitivamente ser um colírio para os olhos.
Eduardo carregava em si um charme e gingado que faziam com que ficássemos encantadas, nos seus um metro e oitenta de altura corpo forte e levemente bronzeado chamava atenção por onde passava, o rosto bonito era limpo, sua barba nunca aparecia já que ele a fazia fielmente todas as manhãs, os olhos escuros como ônix davam um ar de mistério que se desfazia quando ele sorria e a alma de garoto que ele tinha resplandecia.
Pela sua boa aparência, Edu carregava a fama de galinha conquistador, então não foi surpresa para as pessoas ali quando ficamos juntos aquela noite, surpreendidos ficaram foi quando depois da festa engatamos um romance.
Primeiro porque ele nunca engatava namoros e existia uma penca de mulheres que comprovava isso, segundo por minha aparência.
Eu não era feia. Definitivamente não, mas, não podiam me encaixar no padrão que Eduardo costumava desfilar por aí, nem era o padrão em que a sociedade fazia questão de impor, eu era uma mulher de curvas, meus um e sessenta e cinco de altura era composto de coxas grossas, bumbum e seios grandes que me incomodavam desde a adolescência. Adolescência em questão que eu tinha passado toda lutando para diminuir medidas através de dietas malucas, mas sem sucesso.
Minha barriga não era chapada, ela mostrava que eu não frequentava academia, comia chocolate e tomava a boa e amada cerveja, eu era gordinha e nunca consegui mudar, após todas tentativas vãs eu tinha apenas desistido e aceitado, aprendido a me amar como eu era e a me sentir linda.
A única coisa que todos me enchiam de elogios eram meus cabelos cumpridos naturalmente dourados acobreados, Babi chegava a me exaltar a ter um cabelo “loiro ruivo”.
Surpreendendo até mesmo a mim, Eduardo me levou a sério, estava terminando sua faculdade de Publicidade e acabado de abrir a sua agência, enquanto eu estava começando a minha de Direito e conseguia me sustentar com a ajuda que recebia do meu pai e do emprego de meio período que eu havia conseguido como fotógrafa em um estúdio na Barra, mas nada daquilo tinha sido empecilho para nós, tínhamos uma química boa engrenando o nosso relacionamento fazendo planos para o futuro.
No primeiro ano do nosso namoro comemoramos felizes e muito apaixonados, de surpresa me levou para conhecer o confortável apartamento na Barra da Tijuca em que ele iria morar, meio a minha felicidade por sua conquista me fizera o convite para que morássemos juntos explicando que já havia planejado tudo, revelou que o apartamento era o lugar estratégico para ser perto da minha faculdade, do estúdio e da sua agência, eu tinha demorado cerca de dois segundos para aceitar sua proposta, aquele foi um dos melhores dias dos muitos nos últimos dois anos que vivemos aqui.
Tudo ia maravilhosamente bem até cerca de seis meses atrás quando após a festa de lançamento de uma grande conta que a agência de Eduardo tinha conseguido, me senti mal novamente o que não estava sendo novidade ultimamente, mas naquela noite eu tive uma crise convulsiva e descobrimos que os pequenos mal-estares eram mais graves do que imaginávamos.
As lembranças de tudo passavam como um filme, deixei meu corpo cair sobre o chão gelado me encolhendo em posição fetal enquanto o choro continuava. Tinha acabado, tudo que vivemos e planejamos tinha sido em vão. Meus olhos pesaram o suficiente e eu os fechei clamando mentalmente que aquilo fosse um pesadelo.
— Camile! Abri os olhos dando conta que tinha dormido ali no chão duro, ouvi a voz conhecida enquanto minha campainha tocava mais três vezes seguidas.
Me remexi virando sobre as costas e encarei o teto. Não havia sido um pesadelo, Edu tinha ido embora e quanto tempo eu tinha dormido eu não sabia, mas não achava ser muito já que ainda estava escuro lá fora. Meu corpo doía pela posição que eu tinha a adormecido, só não doía mais que as pontadas em minha cabeça, e essas eu sabia que infelizmente não melhorariam. Sentia meus olhos pesados e inchados, logicamente estaria com a cara parecendo uma bolacha depois de chorar tanto.
A campainha tocou mais uma vez e me firmei de pé indo até a porta a abrindo de imediato. Bárbara estava parada com os olhos arregalados aparentemente preocupada entrou sem nem mesmo ser convidada.
— O que aquele imbecil fez? Parou na minha sala cruzando os braços sobre o peito depois de deixar uma sacola sobre a mesinha de centro.
— Como você sabe que foi Eduardo quem fez algo? Sussurrei a vendo se jogar no meu sofá negro aveludado.
— Porque ele me ligou e disse que você precisava de mim.
— Ele ligou?
— Ligou e disse para eu vir checar se você estava bem, já que vocês haviam decidido terminar... que merda está acontecendo, Camile?
— Nós decidimos? — Falei para mim mesma e soltei uma risada rancorosa. — Ele teve coragem de dizer isso?
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