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Valentina
O homem que eu amava me deu flores. Depois, me deu como pagamento.
As rosas estavam frescas quando Giovanni chegou. Vermelhas demais para a noite tranquila que ele tentou pintar, cheiro doce demais para combinar com a tensão que eu sentia no ar desde cedo, uma coisa invisível, mas insistente, como fumaça que entra pela fresta e se recusa a ir embora.
— Pra você. — Ele sorriu, daqueles sorrisos que sempre me desmontavam, e colocou o buquê nos meus braços como se estivesse selando uma promessa.
Eu ri, meio sem graça, apertando as flores contra o peito.
— Não precisava…
— Eu sei. — Giovanni se aproximou e encostou a testa na minha. — Mas eu quis.
Por um segundo, eu acreditei. Acreditei como sempre acreditava.
Giovanni era o tipo de homem que fazia você se sentir escolhida. Não por acaso, não por falta de opção, mas como se você fosse a única coisa certa num mundo cheio de decisões erradas. Ele falava baixo quando estava sério, e quando me chamava de mia bella, eu esquecia que era uma órfã com um sobrenome emprestado, vivendo de pequenos trabalhos e de um orgulho que eu carregava como escudo.
Foi ele quem me apresentou aos Moretti.
“Eles vão te amar”, ele disse, na primeira vez que me levou àquela casa enorme com cheiro de vinho, charutos e comida cara. “Você vai ter uma família.”
Eu não disse em voz alta, mas foi ali que meu coração se abriu pela última vez. Eu queria tanto aquilo… um lugar. Um nome. Alguém que me esperasse.
Os pais de Giovanni me tratavam com uma gentileza medida, educada, correta, distante. Os irmãos me olhavam como se eu fosse um detalhe que ainda não decidiram se incomoda ou diverte. Mas Giovanni segurava minha mão por baixo da mesa e apertava meus dedos, como se dissesse: eu tô aqui.
E eu ficava.
Eu sempre ficava.
Naquela noite, ele me beijou na testa, como se eu fosse de vidro.
— Preciso resolver uma coisa com meu pai. — falou, ajeitando a manga do paletó. — É rápido. Você espera no quarto?
— Agora? — estranhei. — Já é tarde.
— Eu sei. — Ele passou os dedos pelos meus cabelos, carinhoso demais. — Mas é importante. Por mim.
Por mim.
Eu sempre caía nessa parte.
Assenti, mesmo com o estômago apertado por um pressentimento que eu não queria nomear. Caminhei com o buquê até o quarto de hóspedes onde eu ficava quando passava a noite na casa deles. Era bonito. Grande. Impessoal. Tudo ali gritava que eu era visita mesmo quando Giovanni jurava que eu já era parte.
Coloquei as flores numa jarra e tentei relaxar. Tirei os sapatos. Sentei na beira da cama.
Respirei.
Não era a primeira vez que eu me sentia deslocada, mas era a primeira vez que eu sentia… medo. Um medo sem forma, sem rosto. Um medo que não vinha de uma ameaça direta, e sim daquela certeza ancestral que mora no corpo quando alguma coisa está errada.
Levantei e fui até a porta, só para ter certeza de que estava encostada.
Quando girei a maçaneta, ela não cedeu.
Tentei de novo. Mais forte.
Nada.
Meu coração deu um salto seco.
— Giovanni? — chamei, batendo de leve. — Ei… a porta travou.
Silêncio.
Bati mais uma vez, agora com o punho.
— Giovanni! Para de brincadeira.
Ainda silêncio.
Um arrepio subiu pela minha nuca.
Eu não era criança. Não era ingênua ao ponto de achar que homens como os Moretti brincavam com tranca e chave. Algo pesado demais pairava naquele corredor do lado de fora e, de repente, o quarto não parecia mais um quarto.
Parecia uma cela.
Eu respirei fundo, tentando não entrar em pânico. Não tinha janela que desse para o jardim; era uma janela alta, mais decorativa do que útil. O celular estava na bolsa, em cima da poltrona. Peguei rápido, dedos tremendo.
Sem sinal.
Claro. A casa tinha pontos cegos. Pessoas ricas adoravam privacidade.
— Tá… tá tudo bem. — murmurei para mim mesma, como se minha voz fosse capaz de segurar a minha calma no lugar.
Aproximei o ouvido da porta.
Lá fora, finalmente, ouvi passos.
E vozes.
Vozes baixas. Masculinas. Aquelas conversas que acontecem quando alguém acha que não pode ser ouvido.
Me inclinei ainda mais, prendendo a respiração.
— …não dá pra voltar atrás, Giovanni. — disse uma voz mais velha, áspera. — O acordo já foi feito.
— Eu sei. — Giovanni respondeu. E a forma como ele falou meu nome logo depois me fez gelar. — Ela tá aqui. Tá tudo sob controle.
Eu senti o chão fugir um centímetro sob os meus pés.
“Ela”.
Eu.
Meu estômago revirou.
— Você tem certeza? — outra voz entrou na conversa, mais fria, mais impaciente. Um dos irmãos? Talvez o tio. — O Vitale não aceita erro. Se ele desconfiar…
Vitale.
O nome bateu dentro de mim como um soco.
Eu já tinha ouvido rumores. Nas ruas, em cochichos. Em notícias mal explicadas. Em “acidentes” e “desaparecimentos” que todo mundo entendia sem precisar perguntar. Vitale era o tipo de sobrenome que fazia gente adulta abaixar a voz.
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