– Quando Tudo Ruiu
– Elisabeth
Sempre houvera algo reconfortante no som dos passos pelos corredores da universidade. O leve ranger da madeira antiga, o sussurro das páginas sendo viradas na biblioteca central, e, acima de tudo, a voz serena de seu pai explicando a estudantes atentos os arcos temáticos da literatura inglesa moderna. Para Elisabeth Anne Whitmore Carter, aquele lugar era mais do que um campus. Era um lar.
A filha do Professor Jonathan Carter cresceu entre livros e janelas altas, entre cafés silenciosos e encontros acadêmicos. Sua mãe, Helen, era uma presença vibrante - corretora imobiliária renomada, conhecida por sua elegância despretensiosa e pela forma natural com que encantava clientes e fechava contratos. O casal Carter era admirado por sua integridade, simplicidade e equilíbrio. E Liz era o reflexo de ambos.
Ela conquistara, com mérito e história, uma bolsa integral na mesma instituição onde seu pai lecionava há mais de vinte anos. Tinha orgulho disso - mas o que a sustentava, de fato, era o amor silencioso dos pais e a certeza de que pertencera àquele universo desde sempre.
Nos finais de semana, Liz costumava se perder entre as estantes da biblioteca, sentada no mesmo canto onde, décadas antes, sua mãe o esperava com livros no colo e olhos apaixonados. A história dos dois havia começado ali. E, de certo modo, a de Liz também.
Ela tinha planos, muitos deles. Queria cursar Letras, seguir a linha de pesquisa do pai, especializar-se em literatura comparada. Sonhava com uma vida entre páginas e pessoas. E, entre um seminário e outro, desejava um amor com a mesma solidez e leveza que via nos pais.
Mas o destino, caprichoso e cruel, tem prazer em interromper futuros bem traçados.
Naquela manhã de setembro, ela acordou cedo para preparar o café da manhã. O pai detestava voos matinais, mas fazia esforço porque Helen insistira em acompanhá-lo. O congresso de literatura em Chicago era importante. Ele seria o palestrante principal. A mãe, por sua vez, marcara reuniões com investidores texanos que queriam expandir imóveis de luxo na capital. Três dias. Três.
- "Fique tranquila, minha pequena." - dissera o pai ao abraçá-la no aeroporto, com aquele meio sorriso cheio de ternura.
- "Traga um presente," ela pedira, fingindo despreocupação.
- "Talvez algo com cheiro de livraria," acrescentara.
A mãe rira.
- "E eu trago algo com brilho. Sempre soube que você era um equilíbrio entre nós dois."
Ela os viu entrar no portão de embarque com passos calmos, mãos dadas. E não sabia que aquela seria a última imagem dos dois juntos.
O noticiário chegou ao celular quando Liz ainda estava no refeitório da universidade. Um avião da companhia nacional desaparecera dos radares a caminho de Chicago. Ela sentiu um frio invadir-lhe o corpo, um tipo de torpor que paralisava pensamentos. No fundo, já sabia. Horas depois, veio a confirmação. Pane elétrica, perda de comunicação, queda confirmada em área remota. Todos os passageiros mortos.
A dor não veio de uma vez. Veio aos poucos. Primeiro, o choque. Depois, a angústia das formalidades: identificar documentos, assinar papéis, liberar os corpos. O campus inteiro se comoveu. Houve homenagens, discursos, flores. Mas nada substituía o som dos passos do pai no corredor. Nada preenchia o vazio do sorriso da mãe.
Sem vínculo familiar direto com a universidade, a bolsa foi revogada por questões administrativas. Liz tentou lutar, tentou argumentar. Mas os processos eram frios, a burocracia insensível. O apartamento dos pais fora deixado com hipotecas a vencer. Os poucos bens foram vendidos. Restaram apenas lembranças - e as dívidas.
Os amigos sumiram aos poucos. Alguns por não saberem o que dizer, outros por não quererem se aproximar da dor. A cidade, antes viva, tornou-se opressora. Cada esquina lembrava. Cada árvore falava.
Foi quando decidiu partir.
A avó materna, Margaret Whitmore, morava no interior do Texas. Uma mulher de força impressionante, mas idade avançada. A relação entre Helen e a mãe nunca fora fácil. Helen fugira daquele mundo rural assim que pôde. Sempre dizia que o campo sufocava, que precisava de horizontes. Liz, porém, não tinha escolha.
Pegou o pouco que lhe restava - uma mala com roupas, uma caixa com livros e outra com cartas dos pais. Despediu-se da cidade sem cerimônia. A estação de trem era silenciosa naquela manhã cinzenta. E, ao embarcar, Liz sentiu-se pequena como nunca.
O interior do Texas a recebeu com sol e poeira. A casa da avó era grande, antiga, feita de madeira escura e janelas amplas. Havia cheiro de lavanda e bolos recém-assados. Margaret era rígida, mas acolhedora à sua maneira. Tocou o rosto da neta com delicadeza contida e disse apenas:
- "Você parece sua mãe. Só que mais cansada."
E assim começou a nova vida de Liz. Longe do campus, dos cafés, da cidade. Entre galinhas, caminhonetes e porões empoeirados. Trocou os livros por panelas, os debates acadêmicos por longas caminhadas entre árvores.
No entanto, mesmo ali, com os pés enterrados na terra e a alma ferida, Elisabeth sabia que sua história não terminaria naquela casa.
Ela ainda não sabia como, nem com quem...
Mas sentia que o destino ainda guardava algo - ou alguém - que mudaria tudo.
Quando Tudo Ruiu
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