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Capítulo 1
Ninguém via Maria. Ela estava ali, todos os dias, mas era como se fosse invisível. Casada há 18 anos com Geraldo, um homem grosseiro e egoísta, ela havia se tornado a sombra da mulher que um dia sonhou em ser.
Criava os dois filhos que ele teve antes do casamento, adolescentes ingratos que herdaram o desprezo e a frieza do pai. Nunca a chamaram de mãe. Nunca demonstraram gratidão. Para eles, Maria era apenas a mulher que limpava a casa, fazia a comida, lavava suas roupas e resolvia seus problemas, tudo em silêncio.
Sem ouvir um "obrigado". Apenas ordens, gritos e ofensas.
Naquela manhã, como tantas outras, Maria acordou antes mesmo do sol nascer. A casa ainda dormia quando ela saiu da cama e foi direto para a cozinha. Preparou o café, colocou a mesa, lavou a louça, recolheu a bagunça que os filhos do marido haviam deixado espalhada na noite anterior. Tudo em silêncio.
Com os pés já cansados e a coluna doendo, pegou sua velha bolsa rasgada, jogou os últimos trocados dentro e saiu em direção à cidade. O sol já queimava quando começou a caminhar pela cidade. A poeira da estrada grudava na pele suada, e as sacolas, uma a uma, começaram a se encher com os mantimentos que cabiam com o pouco dinheiro que ela tinha.
As alças das sacolas cortavam seus dedos, o peso castigava seus braços, mas ela seguia firme, como sempre fazia. Quando finalmente chegou ao ponto de ônibus mais próximo, largou tudo no chão e se sentou no meio-fio. Seus dedos estavam inchados e vermelhos. Olhou para as mãos, para os calcanhares cobertos de terra, e as lágrimas vieram sem pedir permissão.
Não era a primeira vez que chorava em silêncio.
"Por que comigo?", pensou, com os olhos marejados. "O que foi que eu fiz para merecer isso?"
Passou as costas da mão nos olhos assim que viu o ônibus se aproximar. Enxugou as lágrimas rapidamente e levantou-se com esforço. Fez sinal. O motorista parou.
Entrar com as sacolas foi uma tarefa difícil. Tentava equilibrar tudo sem derrubar nada, sem incomodar ninguém. Mas era impossível.
- Vai demorar pra passar? - resmungou um homem na porta.
- Senhora, cuidado com essa sacola! - reclamou outra mulher ao lado.
Maria não respondeu. Apenas baixou a cabeça e seguiu em silêncio. Conseguiu se encolher em um dos bancos do fundo, afastada, apertando as sacolas entre os joelhos, tentando não ocupar espaço demais, tentando desaparecer.
Olhou pela janela. O mundo seguia lá fora, tão bonito, tão livre. Enquanto isso, ela afundava mais a cada dia, esquecida dentro da própria vida.
Mas então, no meio do trajeto, um carro em alta velocidade cruzou o caminho do ônibus. O motorista tentou frear. Tudo escureceu.
Quando Maria acordou, o corpo doía como se tivesse sido atropelado por um trator. A cabeça latejava. Sangue seco estava grudado em sua pele. Com dificuldade, levantou-se e andou sem rumo, cambaleando pela estrada de terra batida, os pés descalços feridos pelo cascalho. Não sabia onde estava, nem o que fazer.
Depois de minutos caminhando, viu um lago. A água brilhava ao sol e parecia sua única esperança. Se aproximou, mas os joelhos falharam, a visão escureceu... e desmaiou à beira da margem.
***
Alexandre Fonseca era um homem firme, moldado pelo trabalho árduo no campo e pelas cicatrizes das perdas que a vida lhe impôs. Fazendeiro respeitado, dono de vastas terras e de um coração generoso, era conhecido não só por sua força, mas também por sua retidão e compaixão.
Naquela manhã, fazia sua ronda habitual ao lado do fiel funcionário Hugo. Galopavam tranquilamente pelos arredores da fazenda quando algo, ao longe, chamou sua atenção.
- Hugo... tem algo ali, perto do lago.
Os dois se aproximaram. Alexandre desceu do cavalo, com o cenho franzido, e se abaixou ao lado do corpo. Com cuidado, afastou os cabelos sujos e embolados do rosto da mulher. Um impacto atravessou seu peito como um raio. Havia sangue, havia dor... mas também havia beleza.
Ele tentou sentir a pulsação do seu pulso, sem sucesso. Tentou o pescoço. Os batimentos estavam fracos.
- O que aconteceu com você? - murmurou.
Olhou para Hugo, com urgência.
- Vamos levá-la para o casarão. Depressa!
O cavalo galopava rápido pelo terreno irregular da fazenda. Hugo, obediente e leal, desapareceu pela trilha em meio à poeira levantada. Alexandre apertou os lábios, carregando a mulher desacordada em seus braços até a varanda do casarão principal. O rosto dela estava pálido, sujo, e os fios de cabelo grudavam no sangue seco.
Empurrou a porta com o ombro e entrou.
- Aguente firme... - murmurou, mais para si mesmo do que para ela.
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