Contrato de Silêncio

Contrato de Silêncio

Fire Books

5.0
Comentário(s)
1.4K
Leituras
50
Capítulo

Quando Lívia, uma empregada invisível, assina um contrato de casamento com Adriano Moretti - um CEO sombrio que controla segredos, pessoas e destinos - ambos acreditam estar no comando. Mas cláusulas não impedem desejos, nem silêncios protegem corações quebrados. Entre poder, manipulação e verdades ocultas, o que começou como um acordo frio se transforma em um jogo perigoso onde amar é a maior quebra de contrato. Ele a escolheu por conveniência. Ela aceitou por sobrevivência.

Contrato de Silêncio Capítulo 1 A casa que me observa

Lívia Rocha

Desde sempre fui uma pessoa reservada, sem muitos amigos e que mais ouvia do que falava. Aprendi que para sobreviver nessa vida é preciso ter cautela, paciência e sobretudo passar desapercebida. Ouvir muito e guardar tudo. Essa sempre foi a minha teoria, e até agora tem funcionado perfeitamente bem. Mas pelo que tenho observado, hoje, as coisas nessa casa parece que vão mudar drasticamente. Só desejo que nada interfira na minha vida e no meu trabalho. Até porque, problemas eu já tenho de sobra.

Acordei cedo demais, e isso é resultado do problema que tem tirado o meu sono. Mas isso deixarei para outro momento. Já uniformizada, observo com atenção cada canto desse lugar que mais parece um mausoléu do que um lar. A casa dos Moretti respira. Eu sei porque aprendi a ouvir. Não com os ouvidos, mas com a pele. O mármore frio sob meus pés descalços muda de temperatura conforme o dia avança. As paredes altas rangem à noite, como se reclamassem do silêncio imposto. As câmeras piscam discretamente nos cantos, olhos mecânicos que nunca dormem. Esta casa vê tudo. E, por consequência, me vê.

Trabalho aqui há dois anos, três meses e dezessete dias. Não porque eu conte, mas porque o tempo, dentro dessas paredes, não passa - ele se acumula. Cada dia fica sobre o outro, pesado, silencioso, observador. Assim como o dono.

O nome dele não é dito em voz alta pelos funcionários. Não por ordem expressa, mas por instinto. Adriano Moretti não precisa ser lembrado. Ele se impõe mesmo quando está ausente. Sua presença é uma sombra fixa, projetada em cada móvel minimalista, em cada superfície limpa demais.

Sou a única que entra em todos os cômodos. A governanta cuida da ala social. A equipe de limpeza faz rodízio e nunca passa da área delimitada. A segurança não atravessa certas portas sem autorização biométrica. Mas eu... eu entro no quarto dele. No escritório privado. No banheiro onde o espelho inteligente reconhece apenas um rosto autorizado - o dele - e o meu, porque fui cadastrada para limpar. Esse detalhe sempre me incomodou. Ser reconhecida por uma máquina em uma casa onde ninguém parece realmente me enxergar.

Hoje, a casa está inquieta. Sinto isso antes mesmo de terminar o café da manhã. As telas embutidas nas paredes exibem gráficos em tons frios. O noticiário financeiro passa sem som, mas as legendas piscam rápido demais. O sistema de iluminação ajusta-se sozinho, diminuindo a intensidade como se antecipasse algo errado.

Seguro a bandeja com as mãos firmes. Café preto, sem açúcar. Duas torradas. Nenhum detalhe fora do lugar. Aprendi cedo que Adriano Moretti não tolera falhas - nem visíveis, nem invisíveis.

Bato uma vez na porta do escritório. Nunca duas.

- Entre - a voz dele vem grave, controlada. Sem emoção.

Empurro a porta e a casa, mais uma vez, parece prender a respiração.

O escritório é o coração da cobertura. Vidros do chão ao teto revelam uma cidade que se estende como um organismo vivo, pulsando lá embaixo. Adriano está de costas, as mãos apoiadas na mesa de vidro, o paletó perfeitamente ajustado, como se tivesse sido moldado ao corpo dele e não o contrário. Não me olha. Ele nunca olha de imediato.

Caminho até a mesa, coloco a bandeja no local exato, alinhando a xícara com a borda invisível que só existe na cabeça dele. Dou dois passos para trás. Silêncio.

- O relatório da noite? - ele pergunta.

- Nenhuma movimentação fora do padrão. - Minha voz sai baixa, neutra. - O perímetro permaneceu seguro.

Ele assente levemente. Um gesto mínimo, quase imperceptível.

- Pode ir.

Eu deveria ir. Sempre vou. Mas hoje, algo está errado. Sinto isso na forma como os ombros dele estão tensos demais, na rigidez da mandíbula refletida no vidro, no jeito como os dedos pressionam a superfície da mesa como se quisessem quebrá-la. A casa observa. Eu observo também.

- Senhor... - escapa antes que eu consiga impedir.

O silêncio que se segue é denso. Perigoso.

Adriano se vira devagar. Os olhos escuros encontram os meus, e há algo ali que não estava antes. Não é raiva. Não é frieza. É cálculo - misturado com urgência.

- Sim? - ele diz.

Engulo em seco. Não sei por que falei. Nunca falo além do necessário. Invisibilidade é uma forma de sobrevivência, e eu a domino bem.

- O café vai esfriar - digo, sentindo-me ridícula.

Por um segundo, penso que ele vai me dispensar com um olhar. Ou algo pior: questionar minha ousadia. Mas Adriano sorri. Não é um sorriso bonito. Não é gentil. É afiado.

- Sente-se.

Meu corpo reage antes da mente. O coração bate forte demais. Nunca me sentei na presença dele. Nunca fui convidada a ocupar espaço.

- Eu... estou trabalhando.

- Está. - Ele puxa a cadeira à frente da mesa. - E agora, estou pedindo que se sente.

A casa observa e eu obedeço.

O couro da cadeira é frio. Minhas mãos repousam no colo, dedos entrelaçados com força. Ele se senta do outro lado, finalmente toca a xícara, mas não bebe.

- Qual é o seu nome completo? - pergunta.

A pergunta me atravessa como um corte.

- Lívia Rocha - respondo.

Ele inclina a cabeça, como se experimentasse o som.

- Você mora aqui.

- No quarto dos funcionários, sim.

- Não. - O olhar dele é intenso. - Você mora nesta casa. Conhece os horários, os sistemas, os silêncios. Conhece a mim.

Não respondo. Porque qualquer resposta seria perigosa.

- Sabe por que confio em você? - ele continua.

Não, penso. Sei por que ele me permite existir aqui. Confiança é outra coisa.

- Porque você nunca pede nada - ele diz, como se lesse meus pensamentos. - Pessoas que não pedem são as mais previsíveis.

Algo se fecha no meu estômago.

- Isso vai mudar - ele acrescenta.

- Senhor?

Adriano se recosta na cadeira, cruzando os dedos à frente do rosto. Pela primeira vez desde que o conheço, ele parece... humano. Cansado. Pressionado por algo maior do que ele.

- Preciso de alguém que já esteja dentro - diz. - Alguém que a casa reconheça. Que o sistema não questione. Que a mídia não conheça.

Meu coração dispara.

- Não entendo.

- Vai entender. - Ele se levanta, contorna a mesa e para à minha frente. Perto demais. O cheiro dele é discreto, caro, impossível de ignorar. - Sua vida vai mudar, Lívia.

Ouvir meu nome assim, na boca dele, não soa como promessa. Soa como sentença.

- E antes que pense em recusar - continua - saiba que eu não faço propostas vazias.

Ergue um tablet, a tela se acende. Vejo números, nomes, algo que reconheço rápido demais: uma dívida antiga, enterrada, mas nunca resolvida. O passado que eu escondi com tanto cuidado.

- Eu posso resolver isso - ele diz calmamente. - Hoje.

Minha garganta fecha. As paredes parecem se aproximar.

- Em troca - acrescenta - você vai assinar um contrato.

- De quê? - sussurro.

Os olhos dele descem pelo meu rosto, não com desejo, mas com avaliação. Como se eu fosse uma equação complexa prestes a ser resolvida.

- De casamento.

O mundo não acaba. Ele apenas muda de eixo.

- Isso é... impossível - digo.

- Nada é impossível - Adriano responde. - Apenas caro. E eu posso pagar.

Levanto num impulso, a cadeira arrasta no chão, o som ecoa como um alarme.

- Eu não sou esse tipo de pessoa.

Ele sorri de novo. Mais frio.

- Nenhum de nós é o tipo de pessoa que o mundo pensa.

Silêncio.

A casa observa cada batida do meu coração, cada microexpressão, cada segundo que passa enquanto percebo que algo irrevogável acabou de começar.

- Pense - ele diz, afastando-se. - Amanhã, quero sua resposta.

A porta do escritório se abre sozinha, como se obedecesse à vontade dele - ou da casa.

Saio com as pernas trêmulas.

Nos corredores, tudo parece igual. Limpo. Organizado. Silencioso. Mas agora sei a verdade. Esta casa não apenas me observa. Ela me escolheu.

Continuar lendo

Outros livros de Fire Books

Ver Mais

Você deve gostar

Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei

Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei

PageProfit Studio
4.9

"Minha irmã tentou roubar o meu companheiro. E eu deixei que ela ficasse com ele." Nascida sem uma loba, Seraphina era a vergonha da sua Alcateia. Até que, em uma noite de bebedeira, engravidou e casou-se com Kieran, o impiedoso Alfa que nunca a quis. Mas o casamento deles, que durou uma década, não era um conto de fadas. Por dez anos, ela suportou a humilhação de não ter o título de Luna nem marca de companheira, apenas lençóis frios e olhares mais frios ainda. Quando sua irmã perfeita voltou, na mesma noite em que o Kieran pediu o divórcio, sua família ficou feliz em ver seu casamento desfeito. Seraphina não brigou, foi embora em silêncio. Contudo, quando o perigo surgiu, verdades chocantes vieram à tona: ☽ Aquela noite não foi um acidente; ☽ Seu "defeito" era, na verdade, um dom raro; ☽ E agora todos os Alfas, incluindo seu ex-marido, iam lutar para reivindicá-la. Pena que ela estava cansada de ser controlada. *** O rosnado do Kieran reverberou pelos meus ossos enquanto ele me prendia contra a parede. O calor dele atravessava as camadas de tecido da minha roupa. "Você acha que é fácil assim ir embora, Seraphina?" Seus dentes roçaram a pele não marcada do meu pescoço. "Você. É. Minha." Uma palma quente subiu pela minha coxa. "Ninguém mais vai tocar em você." "Você teve dez anos pra me reivindicar, Alfa." Mostrei os dentes em um sorriso. "Engraçado como você só se lembra que sou sua... quando estou indo embora."

SEU AMOR, SUA CONDENAÇÃO (Um Romance Erótico com um Bilionário)

SEU AMOR, SUA CONDENAÇÃO (Um Romance Erótico com um Bilionário)

Viviene
5.0

Aviso de conteúdo/sensibilidade: Esta história contém temas maduros e conteúdo explícito destinado a audiências adultas (18+), com elementos como dinâmicas BDSM, conteúdo sexual explícito, relações familiares tóxicas, violência ocasional e linguagem grosseira. Aconselha-se discrição por parte do leitor. Não é um romance leve - é intenso, cru e complicado, explorando o lado mais sombrio do desejo. ***** "Por favor, tire o vestido, Meadow." "Por quê?" "Porque seu ex está olhando", ele disse, recostando-se na cadeira. "E quero que ele perceba o que perdeu." ••••*••••*••••* Meadow Russell deveria se casar com o amor de sua vida em Las Vegas, mas, em vez disso, flagrou sua irmã gêmea com seu noivo. Um drink no bar virou dez, e um erro cometido sob efeito do álcool tornou-se realidade. A oferta de um estranho transformou-se em um contrato que ela assinou com mãos trêmulas e um anel de diamante. Alaric Ashford é o diabo em um terno Tom Ford, símbolo de elegância e poder. Um homem nascido em um império de poder e riqueza, um CEO bilionário, brutal e possessivo. Ele sofria de uma condição neurológica - não conseguia sentir nada, nem objetos, nem dor, nem mesmo o toque humano. Até que Meadow o tocou, e ele sentiu tudo. E agora ele a possuía, no papel e na cama. Ela desejava que ele a arruinasse, tomando o que ninguém mais poderia ter. E ele queria controle, obediência... vingança. Mas o que começou como um acordo lentamente se transformou em algo que Meadow nunca imaginou. Uma obsessão avassaladora, segredos que nunca deveriam vir à tona, uma ferida do passado que ameaçava destruir tudo... Alaric não compartilhava o que era dele. Nem sua empresa. Nem sua esposa. E definitivamente nem sua vingança.

Capítulo
Ler agora
Baixar livro
Contrato de Silêncio Contrato de Silêncio Fire Books Romance
“Quando Lívia, uma empregada invisível, assina um contrato de casamento com Adriano Moretti - um CEO sombrio que controla segredos, pessoas e destinos - ambos acreditam estar no comando. Mas cláusulas não impedem desejos, nem silêncios protegem corações quebrados. Entre poder, manipulação e verdades ocultas, o que começou como um acordo frio se transforma em um jogo perigoso onde amar é a maior quebra de contrato. Ele a escolheu por conveniência. Ela aceitou por sobrevivência.”
1

Capítulo 1 A casa que me observa

12/01/2026

2

Capítulo 2 Nada é pessoal

12/01/2026

3

Capítulo 3 O dia em que ele me chama pelo nome

12/01/2026

4

Capítulo 4 A ameaça que não posso ignorar

12/01/2026

5

Capítulo 5 Uma proposta indecente demais para recusar

12/01/2026

6

Capítulo 6 Ela é a escolha certa

12/01/2026

7

Capítulo 7 As cláusulas que me prendem

12/01/2026

8

Capítulo 8 Controle absoluto

13/01/2026

9

Capítulo 9 Assinar é cruzar um limite

13/01/2026

10

Capítulo 10 Um casamento sem emoção

13/01/2026

11

Capítulo 11 Conflito interno

13/01/2026

12

Capítulo 12 A primeira noite sob o mesmo teto

13/01/2026

13

Capítulo 13 O silêncio que me desestabiliza

27/01/2026

14

Capítulo 14 A mídia, o anel e a mentira

28/01/2026

15

Capítulo 15 A esposa perfeita no papel

28/01/2026

16

Capítulo 16 Eu agora pertenço ao jogo dele

29/01/2026

17

Capítulo 17 Regras existem para serem seguidas

29/01/2026

18

Capítulo 18 Nenhuma regra fala sobre olhares

30/01/2026

19

Capítulo 19 Ela observa demais

30/01/2026

20

Capítulo 20 O homem por trás do CEO

31/01/2026

21

Capítulo 21 Ciúme não estava previsto

31/01/2026

22

Capítulo 22 A primeira cláusula quebrada

01/02/2026

23

Capítulo 23 Toque não autorizado

01/02/2026

24

Capítulo 24 Meu corpo reage, minha razão não

02/02/2026

25

Capítulo 25 O medo de perder o controle

02/02/2026

26

Capítulo 26 Quando ele sangra por dentro

03/02/2026

27

Capítulo 27 Meu passado não a envolve

03/02/2026

28

Capítulo 28 Eu sinto que envolve

04/02/2026

29

Capítulo 29 O beijo que não deveria acontecer

04/02/2026

30

Capítulo 30 Depois do beijo, nada é igual

05/02/2026

31

Capítulo 31 Distância como punição

08/02/2026

32

Capítulo 32 O contrato não protege o meu coração

08/02/2026

33

Capítulo 33 Ela está se tornando essencial

08/02/2026

34

Capítulo 34 A casa agora me sufoca

08/02/2026

35

Capítulo 35 Amar é fraqueza

09/02/2026

36

Capítulo 36 Talvez amar seja coragem

09/02/2026

37

Capítulo 37 O jogo maior do que nós dois

10/02/2026

38

Capítulo 38 Algo não está escrito aqui

10/02/2026

39

Capítulo 39 Sacrifícios calculados

11/02/2026

40

Capítulo 40 A cláusula secreta

11/02/2026