A luz azul do celular piscou pela terceira vez. Suspirei antes de virar a tela para cima. Outra notificação bancária.
Abri a mensagem como quem encara um monstro já conhecido.
"Saldo insuficiente para realizar o débito automático do aluguel."
Fechei os olhos e encostei a cabeça na parede fria da cozinha. Eu já sabia. Sabia que não tinha o dinheiro. Sabia que nada entraria na conta hoje. Ainda assim, dói ver em palavras aquilo que eu tentava fingir que não existia: a vida está me engolindo.
Respirei fundo. Uma respiração profunda, cansada, do tipo que tenta encontrar forças não se sabe mais onde. Olhei ao redor. A pequena cozinha era apertada, mas até aconchegante. Se não fosse pelos azulejos lascados, pelo fio da geladeira remendado com fita isolante e pelo cheiro de mofo vindo da parede que dividia a área de serviço com o banheiro, quase poderia parecer lar.
Mas não era. Era o campo de batalha onde eu lutava todos os dias para manter minha mãe viva.
Do quarto, ouvi a tosse fraca dela. Me pus de pé na hora. Corri até lá e a encontrei sentada na cama, com o travesseiro nas costas e os olhos marejados de cansaço.
- Mãe, você está bem?
Ela forçou um sorriso. Aqueles sorrisos que toda mãe dá para fingir que está tudo bem, mesmo quando está despedaçada.
- Estou... só tossi um pouco.
- Eu vou preparar seu chá - falei, pegando o termômetro. - Deitou direitinho? Tomou os remédios?
Ela assentiu, mas eu sabia que mentia. Estava poupando os comprimidos. Já tinha feito isso antes, e eu percebi. Não porque ela quisesse, mas porque sabia que eles estavam acabando - e porque eu ainda não tinha conseguido pagar a última caixa que pegamos na farmácia, mesmo com o desconto da moça que se comoveu com a nossa história.
Abaixei o olhar, tentando engolir a culpa. Eu fazia tudo que podia. Trabalhava de manhã até o início da tarde como atendente numa cafeteria no centro e, à noite, em uma loja de conveniência 24h. Dormia quando dava, comia restos da cafeteria ou alguma coisinha vencida da loja. Vivia à base de café. A energia que me movia já não era mais física. Era necessidade.
Aos vinte e seis anos, minha vida se resumia a sobreviver.
Quando o chá ficou pronto, voltei ao quarto e entreguei a xícara à minha mãe com cuidado. Os dedos dela tremiam um pouco.
- Você vai melhorar - sussurrei, como se falando baixo pudesse tornar aquilo mais real. - A cirurgia está chegando. Só mais um pouco, tá?
Ela sorriu de novo. Aquela mulher era feita de aço e ternura. Aguentava dores intensas com a mesma dignidade com que fazia carinho no meu rosto. Sofria calada para não me preocupar, mesmo quando tudo dentro dela gritava.
Voltei à cozinha e me encostei na porta. Peguei o caderno velho onde anotava as contas. Aluguel: em atraso. Luz: vencida. Água: também. O cartão do mercado já estava estourado. E o principal: o dinheiro do remédio acabou.
Só tínhamos mais dois comprimidos.
Dois.
Fechei os olhos com força. Não adiantava chorar. Chorar não pagava conta, não salvava vidas, não comprava medicamento.
Peguei o celular e mandei uma mensagem para a Cinthia.
"Tá por aí?"
Ela respondeu em segundos.
"Tô sim, amiga. Tá tudo bem?"
"Posso te ver hoje à noite?"
"Claro. Te encontro no mesmo lugar de sempre?"
"Sim. Preciso conversar."
Cinthia era minha melhor amiga desde a faculdade, que eu infelizmente tive que abandonar no segundo semestre. Ela continuou. Arrumou um estágio, depois um emprego... e depois algo muito diferente.
Ela nunca me contou abertamente. Mas eu sabia. E hoje... pela primeira vez... eu estava cogitando ouvir.
O bar onde nos encontrávamos ficava num bairro boêmio da cidade. Não era caro, mas também não era o tipo de lugar onde se via pobreza escancarada. Cheguei atrasada, com o avental da cafeteria ainda sujo de café.
Cinthia me olhou com aquele olhar de quem já sabia. Não disse nada até que eu falasse.
- Eu não tenho mais como continuar, Cin. - Meus olhos arderam. - O dinheiro acabou. A farmácia me ligou hoje dizendo que não podem mais liberar o remédio. E a cirurgia... mesmo pelo SUS, ainda vai demorar. Ela precisa de tratamento enquanto espera. E eu...
Ela segurou minha mão. Eu tremia.
- Me diz o que você quer saber - ela disse, calma.
/0/16397/coverorgin.jpg?v=bb37bd1b0614e80441e2a00f1c2fc965&imageMogr2/format/webp)
/0/665/coverorgin.jpg?v=44b5a0cabe77df07b734d17028c0e52e&imageMogr2/format/webp)
/0/14179/coverorgin.jpg?v=21c9f39adfcadf102296bd5d05cbe796&imageMogr2/format/webp)
/0/5032/coverorgin.jpg?v=0d23df7ba389ab4338308f63bf6d91eb&imageMogr2/format/webp)
/0/10146/coverorgin.jpg?v=439c689ad8cba1a0b9855e9bf40f7bc5&imageMogr2/format/webp)
/0/6490/coverorgin.jpg?v=f5c8a2d028b8a47f7f4e62fee1897e44&imageMogr2/format/webp)
/0/4426/coverorgin.jpg?v=9d9a2625e4ea971b428dd0b45ba8a8b9&imageMogr2/format/webp)
/0/17594/coverorgin.jpg?v=b4d17b2b1aae09510f355fc145376c88&imageMogr2/format/webp)
/0/3088/coverorgin.jpg?v=38672d64271426b220b17586b56628ba&imageMogr2/format/webp)
/0/4374/coverorgin.jpg?v=dfd3b19819982672a946098e5e41688d&imageMogr2/format/webp)
/0/11049/coverorgin.jpg?v=26de54e34a50d1bb8cf8e79cea7ba142&imageMogr2/format/webp)
/0/3033/coverorgin.jpg?v=29ea6d01bd7301ae14f2c579ed1d32d8&imageMogr2/format/webp)
/0/16652/coverorgin.jpg?v=0ac127e4e93b23380ec35fd87d7e258b&imageMogr2/format/webp)
/0/12246/coverorgin.jpg?v=ba2a4dd9bf78ef9ae7d2d7f35f715447&imageMogr2/format/webp)
/0/3825/coverorgin.jpg?v=fcdb7bb85f330ac889cc9a015cc316fb&imageMogr2/format/webp)
/0/14174/coverorgin.jpg?v=1689d9f84ba13c802ce76eaa6bb41db5&imageMogr2/format/webp)
/0/2706/coverorgin.jpg?v=814fac77d3549359354e88a097ebb8ce&imageMogr2/format/webp)
/0/662/coverorgin.jpg?v=287c1bcda5020a7f2e0b472827047467&imageMogr2/format/webp)
/0/228/coverorgin.jpg?v=c028c520ef8a3e4d18c92e690a1c22a3&imageMogr2/format/webp)