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Lara Martins
Faz horas que estou trancada no meu quarto, deitada de bruços, com o rosto enterrado no travesseiro encharcado de lágrimas. Sinto como se tivesse chorado até secar, mas sempre há mais, como se a dor dentro do meu peito fosse uma fonte que nunca se esgota. Perder a única pessoa que realmente me amava é como ter o chão arrancado dos pés. Cada respiração é pesada, doída, arrastada. Eu não sei se tenho forças para continuar vivendo sem ele.
Meus soluços ecoam pelo quarto silencioso. De repente, ouço a porta se abrindo devagar. É minha mãe. Ela me olha por alguns segundos antes de falar com uma voz firme, mas cansada:
- Filha, você precisa descer e se despedir do seu pai... ou vai se arrepender pelo resto da vida.
Demoro alguns segundos para reagir. Ergo o rosto devagar, com os olhos ardendo e a garganta seca. Apenas balanço a cabeça em concordância. Seco o rosto com as mãos, levanto da cama e passo por ela sem dizer nada. Consigo sentir seus olhos me acompanhando, e percebo quando ela revira os próprios olhos - como se minha dor fosse um incômodo. Isso só aumenta a raiva que já estava presa dentro de mim.
Desço as escadas, e cada degrau parece mais pesado que o anterior. Quando chego à sala, meu coração aperta. Ali, no meio da multidão de rostos desconhecidos, está o caixão. Meu pai repousa dentro dele. Muitas pessoas que eu nunca vi estão espalhadas pelo lugar, algumas chorando, outras apenas murmurando entre si.
Minha irmã está um pouco afastada, conversando com alguns garotos que não conheço. Ela veste um longo vestido preto, recatado e elegante. Falsa, penso. Sempre tão preocupada em mostrar uma imagem perfeita, como se sua dor fosse um espetáculo a ser exibido.
Meus pés me levam, trêmulos, até o caixão. Lá está ele. Meu pai. Os olhos fechados, o rosto sereno, como se estivesse apenas dormindo. Quase consigo acreditar que a qualquer momento ele vai abrir os olhos e sorrir para mim, chamar-me de "gatinha", como sempre fazia. Estendo a mão e toco a dele. Tão gelada... tão dura. O desespero toma conta de mim.
- Pai... acorda, por favor. Não me deixa sozinha. - Minha voz falha, mas insisto. - Levanta, pai. Me ouve.
As lágrimas descem sem controle, molhando meu rosto e minhas mãos. De repente, começo a sacudir seu corpo, ignorando os olhares em volta. Grito, chamo por ele, imploro. É como se a sala desaparecesse e só existisse eu e ele. Mas ele não se mexe.
Sinto braços me envolvendo e, instintivamente, encosto o rosto no peito daquele corpo que já não responde. O choro é tão forte que mal consigo respirar. Minha mãe se aproxima e acaricia meus cabelos. Ela sussurra no meu ouvido com uma doçura estranha:
- Vai ficar tudo bem, minha gatinha.
Por um instante acredito. É o que ele sempre dizia para mim, que eu era sua gatinha. Então minha mãe me entrega um copo com água. Sua voz soa tão suave, tão convincente, que não consigo desconfiar.
- Bebe tudo, meu anjo.
Eu obedeço. Engulo a água de um gole, mas logo sinto meus olhos pesarem, minha vista embaçar. Tento resistir, mas as vozes vão ficando distantes, como se eu estivesse sendo puxada para dentro de um túnel escuro. Até que a escuridão me engole de vez.
Quando acordo, estou de volta ao meu quarto. O coração dispara. Não sei que horas são, nem quanto tempo dormi. Corro para a sala, mas não há ninguém. O caixão sumiu. A sala está vazia. Caio de joelhos no chão, soluçando desesperada. Meu pai se foi. Para sempre.
Minha mãe surge atrás de mim. Aproxima-se devagar, como se tivesse ensaiado suas palavras:
- Filha, você precisa aceitar. Seu pai não ia querer te ver assim.
- Eu sei, mãe... mas dói muito - respondo entre lágrimas.
- Você dormiu um dia inteiro, meu amor - ela diz, tocando meu rosto com ternura.
Beijo sua face e vou até a cozinha. O estômago ronca, mesmo que a tristeza me tire a fome. Abro a geladeira, pego queijo, depois um saco de pão no armário. Enquanto preparo meu lanche, minha irmã entra.
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