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O cheiro do mar era uma faca. Fino, salgado, cortante. Clara sentiu-o assim que desceu do ônibus que a deixara na entrada de Vila Branca, aquele vilarejo escondido entre falésias e pinheiros, onde o vento parecia sussurrar lembranças que ela lutava para esquecer.
A residência literária ficava no alto de um morro, em uma casa antiga pintada de branco e azul-claro, como todas ali. A brisa úmida do oceano arrepiava a pele de Clara, que carregava uma mochila leve e o coração pesado. Não era a primeira vez que via o mar desde o acidente, mas era a primeira vez que vinha por vontade própria. Mesmo que isso parecesse mais uma armadilha do destino do que uma escolha racional.
A proposta da editora havia sido tentadora: um mês à beira-mar para escrever sobre liberdade, recomeço, e, quem sabe, amor. Uma bolsa generosa. Um quarto com vista para o mar. Uma nova chance. Clara, que estava há meses bloqueada criativamente, aceitou. Por necessidade. E talvez, bem no fundo, por desafio.
Caminhou pelas ruas de pedra, sentindo o estalar dos passos contra o chão molhado. Havia chovido à noite, e o aroma da terra molhada se misturava ao sal. A cidade era silenciosa, quase parada no tempo. Em cada janela, uma planta. Em cada varanda, um olhar curioso.
Quando chegou à casa, foi recebida por uma mulher de voz doce e olhar firme.
— Você deve ser a Clara Martins. Bem-vinda à Casa Ondamar — disse ela. — Sou Teresa, a coordenadora da residência. Espero que a viagem tenha sido tranquila.
Clara apenas assentiu, apertando o casaco contra o corpo.
— Seu quarto é o segundo andar, janela para o mar.
— Claro que é — murmurou Clara, quase num riso amargo.
Teresa a conduziu escada acima. O quarto era simples, com uma cama de ferro, uma escrivaninha de madeira gasta e uma janela ampla que dava diretamente para o azul infinito.
Clara parou diante dela, hesitante. O mar se estendia como um espelho quebrado. As ondas quebravam suaves naquela manhã, mas ela ainda conseguia ouvir o som que a acompanhava nos pesadelos: o estrondo de algo afundando, o grito abafado, o silêncio depois da tragédia.
Ela fechou as cortinas.
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À tarde, saiu para explorar os arredores. Queria entender onde havia se metido, mas sem se afastar muito da casa. Teresa lhe explicara que Miguel Duarte, um dos anfitriões do projeto e biólogo local, faria uma recepção com os escritores na manhã seguinte.
Seguiu por uma trilha costeira, afastando-se das ruas principais. A paisagem era de tirar o fôlego: o mar de um azul denso, as falésias altas, os barquinhos coloridos balançando ao longe.
Então parou.
O cheiro do mar se intensificou. E junto dele, uma onda de lembranças. Imagens dela criança, segurando a mão do pai enquanto ele contava as histórias de quando navegava. O riso da mãe, chamando-os para o piquenique na areia. O último abraço antes da viagem de barco. E depois… nada. Um telefonema. Um enterro sem corpos.
Clara respirou fundo, tentando afastar os pensamentos. Foi quando ouviu passos.
— Você voltou — disse uma voz masculina atrás dela.
Ela se virou, surpresa.
Ali estava ele.
Alto, de postura tranquila. Cabelos castanhos curtos e bagunçados pelo vento. Pele dourada de sol. E olhos… olhos escuros e profundos, como se carregassem o próprio oceano dentro deles.
— Desculpe… você é?
— Miguel. Miguel Duarte — ele estendeu a mão. — Acho que sou seu anfitrião.
Clara apertou sua mão, cautelosa.
— Vim escrever. Só isso.
— Ninguém encara o mar só por trabalho — ele respondeu, com um meio sorriso. — Alguma parte sua ainda quer entender o que aconteceu naquela noite, não é?
Ela o encarou, engolindo seco.
— Você me conhece?
— Não pessoalmente. Mas conheci seu pai. Ele salvou meu irmão uma vez, há muito tempo. No mar.
Clara sentiu o chão sumir por um instante. A mão escorregando da borda do barco, a onda levando tudo, o eco de um nome nunca mais pronunciado.
— Isso… isso é sério?
— É. Meu irmão se chamava Lucas. Tinha 18 anos. Seu pai o puxou da correnteza. Nunca mais nos vimos. Mas lembro do rosto dele. E do seu. Você estava lá. Tinha uns oito, talvez nove anos.
Clara deu um passo para trás, o ar rarefeito.
— Preciso ir.
— Claro. Só queria dizer que, se precisar de alguma coisa… estou por aqui.
Ela não respondeu. Apenas caminhou de volta à casa, os pensamentos embaralhados.
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