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A plateia vibrava quando sentei na frente de um garoto engomadinho,
com um ar debochado, que era campeão invicto de xadrez nos últimos dez
anos. Quando cheguei à última rodada, meus colegas disseram para desistir
porque ele vencia todo mundo.
Ninguém tinha uma mente tão controlada quanto a de Aquiles
Megalos, um grego intercambista que assustava a maioria dos nossos colegas
com seu humor um tanto irritado.
Ele me desafiou com o olhar antes de sinalizar para trazer nossas
garrafas de água. Era a final. Eu ou ele. Disputa acirrada. Nós dois
vencemos a temporada inteira e com isso, aquela batalha tinha um gosto
diferente.
Terminei minha garrafa e olhei para o meu irmão caçula, sentado na
primeira fileira, segurando sua mochila com os fones do walkman
pendurados no pescoço. Nate ergueu os dedos cruzados, torcendo por mim.
Não havia ninguém além dele torcendo de verdade pela minha vitória.
Aquiles iniciou a partida e por um tempo, ele se vangloriou dos seus
feitos, fazendo floreios, agindo rápido para me confundir e desestabilizar.
Meu pai, antes de ir embora, me disse que o mundo iria me tirar do eixo se
eu permitisse.
Ele segurou meu queixo e falou para não chorar, ter a mente forte,
pensar antes de agir e analisar a verdade por trás das ações das pessoas.
“Elas são o que tem dentro do coração. Descubra o que tem lá e irá
vencê-las”.
Eu era o que tinha dentro de mim? Desejo de vencer, era certo.
Focado, ignorando a existência dos outros alunos, professores e até mesmo
do próprio Aquiles. Me entreguei ao jogo, dando o máximo do meu cérebro
para analisar seus movimentos e me deixei levar.
Era como se outra pessoa estivesse movendo meus braços e dedos,
porque me sentia fora do corpo. Por um instante, eu estava diante da minha
mente, ouvindo suas palavras cruéis sobre não ser inteligente o suficiente
para vencê-la.
Se eu o vencesse, ninguém ficaria na minha frente.
Aquiles parou quando, surpreendentemente, lhe dei um xeque-mate.
— Seu rei não pode mais se mover — falei com calma. Os professores
estavam agitados, olhando e Aquiles me encarou, assentindo.
— Você venceu, Arthur Baxter.
— Nós chegamos até aqui, então... acho que nós vencemos. — Peguei
o troféu e coloquei entre nós. — Podemos ser amigos.
— É claro. — Ele sorriu e olhou para a torcida. — Eu vou te vencer
de novo.
Dei de ombros.
— Você pode tentar.
Capítulo 1 | Arthur.
Nova Iorque era o meu lar. Eu amava a cidade, mesmo quando decidi
que deveria construir minha vida longe de tudo que minha família tinha aqui.
Morei na Califórnia por muitos anos, até que, inevitavelmente, fui atraído
como uma mariposa para assumir uma sociedade lucrativa em um escritório
de advocacia.
Seguindo a contramão dos meus antepassados, que eram formados em
Economia, Administração de Negócios e coisas relacionadas, mergulhei no
Direito como se a minha vida dependesse disso.
Queria algo diferente de todos os filhos mais velhos da família Baxter.
Queria ser mais que o herdeiro dos Fitzgerald. Eu tinha a junção de dois
sobrenomes muito poderosos. Amava ser um advogado figurão com um
honorário caro e que recebia quando os clientes simplesmente respiravam ao
meu redor. Por quase dez anos, essa foi a minha carreira: mil dólares a hora,
mais taxas e alguns extras, dependendo do caso em minhas mãos.
Me orgulhava de todos os meus apelidos, até mesmo de filha da puta
miserável, estripador de divórcios e o importante: tio mais legal do mundo,
do único caso familiar que peguei, do meu amigo de longa data, Stuart
Hedrer[1].
No entanto, a vida nunca é do jeito que planejamos: com minha mãe
doente, meu irmão na puta que pariu atrás de um rabo de saia da sua ex-
mulher e a empresa necessitando de atenção, larguei minha carreira para ser
o que todos os filhos mais velhos da minha família foram: um fodido CEO.
Uma das minhas amigas mais próximas (e ex-namorada dos tempos
remotos da faculdade) soltou uma gargalhada quando lhe contei. Ela disse
que minha vida se encaixava perfeitamente em um romance que a Amazon
vendia. Pensando nela, caminhou na minha direção junto com sua esposa.
— Olá, Sr. Fitzgerald. — Brianna abriu um sorriso. — Você não disse
que ia parar de beber? — Ela ajeitou minha gravata e passou a mão em meu
cabelo.
Nina, sua esposa, olhou para minha roupa. Ela era minha personal
stylist.
— Não escolhi essa calça para esse tipo de evento, mas está bom.
— Vocês duas me matam — resmunguei, virando meu copo.
— Vamos buscar uma bebida e procurar a nossa mesa. Sente-se
conosco. — Nina continuou. Ela sabia que eu estava atrás das pilastras por
um motivo e segurava a risada.
— Saiam daqui. — Bufei. Elas não aguentaram e caíram na
gargalhada, o que chamou ainda mais atenção de quem estava ao redor.
Percebendo que algumas cabeças viraram, dei um passo para a escuridão.
— Vamos encontrar nossa mesa, não demore. — Bri sorriu e foi
embora. Nina ainda me olhou, em um misto de preocupação e zombaria, mas
seguiu adiante.
Eu tinha que tomar coragem e sair daquele lugar. A realidade era que
não queria enfrentar o pesadelo que andava de saltos altos pela festa.
— Por que está se escondendo aí? — Juliet Blackburn[2], esposa do
meu mais recente amigo e anfitriã da noite, me encontrou. Era uma mulher
linda, de tirar o fôlego e os quadros com fotografias espalhados pelo salão
eram de sua autoria. — Fugindo de alguém? — Arqueou a sobrancelha com
diversão. Lhe dei um olhar irritado e ela riu. — Sinto muito, os convites já
tinham sido enviados quando tudo aconteceu. Me ofereça seu braço que nós
atravessaremos o salão sem nenhum problema. Ela tem medo de mim desde
que “sem querer” — fez sinal de aspas com os dedos — enviou uma foto
sensual para o Romeo.
— Se vocês sabem que ela é assim, por que diabos a convidaram?
— Ela faz boas doações. Não é minha amiga e se eu soubesse, teria
avisado que estava caindo em uma cilada. — Soltou uma risada.
Ofereci meu braço e Juliet pegou. Caminhamos sem pressa pelo salão
até o outro lado, onde Brianna e Nina conversavam com um grupo de amigos
em comum. Romeo se juntou a nós, tentando não rir, mas falhando ao
perceber meu nível de estresse.
Meu problema no momento se chamava: Meghan Winslet. Uma
mulher linda, de corpo estonteante e que sabia como deixar um homem como
eu maluco de tesão. Não nego que gostei muito da nossa noite.
O problema? Ela se recusava a permitir que fosse uma única noite.
Entendi que como éramos adultos, a coisa toda foi consensual e acabou ali,
no meio da madrugada, quando fui embora para minha casa e a deixei no
hotel. Na manhã seguinte, acordei dentro de um pesadelo que sempre evitei:
minhas fotos seminu em todo lugar.
Meghan tirou diversas fotos e postou na internet. Quando neguei seus
avanços e explodi com meus advogados para cima dela, o inferno começou
de verdade.
A mulher estava me perseguindo com sua fúria. Só queria que me
deixasse de lado. Tive diversas namoradas ao longo da vida, casos, sexo
casual e nunca tive problemas. Não sou perfeito, provavelmente fui um
escroto com mais de uma, quebrei corações e tive o meu quebrado, mas
nunca fui mentiroso. Nunca prometi nada que não pudesse dar.
Nunca fui exposto e estava no interesse da mídia graças a uma mulher
que eu mal conhecia. Esse era o problema de não manter o pau dentro das
calças, foi o que minha mãe disse e ela tinha a porra da razão. Sempre fui
cuidadoso. Nunca – em nenhuma hipótese – me envolvi com uma mulher
famosa. Culpava a bebida. Estava na merda, já bem bêbado, não
inconsciente, porém, em um nível que minha decisão foi imprudente.
— Fugindo de mim, baby? — Meghan finalmente conseguiu me
abordar.
— Foda-me. O que você quer, satã?
— Acho que isso é um elogio, vindo de um homem chamado de diabo
pela maioria. — Abriu o sorriso que quando a conheci, achei encantador. —
Ainda chateado comigo, lindinho?
— Desaparece da minha frente, Meghan.
— Talvez devesse me ouvir. — Inclinou o torso e seu decote
exagerado ficou no meu campo de visão. — Eu posso ter mais algumas fotos.
— Meghan, eu sei que você faz dinheiro expondo homens ricos com
quem se envolve. Infelizmente, eu posso ter me fodido ao ir para cama com
você, mas não pense nem por um segundo que eu mesmo não possa expor
meu pau na internet. — Peguei um copo de uísque que o garçom estava
servindo. — Não vai tirar um centavo. Fique longe do meu caminho ou eu
posso esquecer a cordialidade e começar a devorar tudo que tem. De todos
os homens que se envolveu, eu sou o único que não tenho nada a perder em te
destruir.
Ela abriu a boca e voltei a falar.
— Aproveite enquanto mantenho meus advogados cuidando do caso,
tenho mais o que fazer. Quem recolhe segredos por aí também deixa a bunda
de fora. Como será que a alta sociedade vai reagir ao ler no café da manhã o
que seu pai ganha nos bastidores da polícia? — Dei um gole e seu olhar
ficou um tanto amedrontado. — Será que ele vai ficar feliz em ter seu
cuidadoso castelo de lavagem de dinheiro em ruínas por que a filha é uma
mimada que gosta de atenção?
Meghan colocou o cabelo atrás da orelha.
— Não falaremos mais sobre isso.
— Fique bem longe de mim. — Sorri bem cínico ao vê-la se
afastando.
Porra. Eu fui... um Arthur. Era o que todos me chamavam com reações
assim. Arthur sendo Arthur passou a significar ser agressivo com as
palavras, ameaçador, um tremendo cuzão. Como advogado, não permitia
ninguém no meu caminho e como um ser humano que paga as contas e
mantém os impostos em dia, não gostava que me enchessem o saco.
Virei minha bebida de uma vez só e assim que foi possível assinar meu
cheque de doação, entreguei ao mestre de cerimônias e saí pelos fundos,
onde meu motorista me aguardava.
— Direto para casa, Dave. Amanhã temos que estar no aeroporto às
seis horas — falei com ele, relaxando no banco enquanto confirmava que
minha agenda estava em ordem.
Cheguei em casa tarde da noite. Morava em um apartamento em um dos
prédios mais bonitos da cidade porque eu amava a visão esplêndida da
varanda. Sou um homem nascido e criado no Upper East Side, que estudou
em escolas que usavam uniformes engomadinhos e ganhou um carro
importado aos dezesseis anos porque minha mãe se sentia culpada por nunca
estar por perto.
Podia parecer que tinha tudo na vida, mas eu era o típico pobre menino
rico. Tanto, que me afastei da família, fui privilegiado em ter educação de
primeira e oportunidades que muitos não tinham, mas, quis lutar minhas
batalhas longe da confusão e no final, não adiantou de nada. Fui sugado para
dentro da empresa tão rápido que ainda estava me perguntando como tudo
mudou tanto.
Não dormi muito, preocupado com as reuniões que enfrentaria nos
próximos dias e antes de amanhecer, malhei na academia do prédio, terminei
de arrumar minha bagagem e estava pronto dez minutos antes do horário
programado com meu motorista. Essas viagens eram um saco,
desconfortáveis. Mal tinha tempo para respirar.
— Tenha uma boa viagem, Sr. Baxter — Dave falou ao me deixar no
aeroporto, diretamente na pista. Ele não me acompanharia e a empresa
disponibilizou um funcionário local. Peguei minha bagagem e embarquei,
com a equipe trabalhando nos procedimentos.
Durante o voo, me concentrei no trabalho, lendo os relatórios e
preparando as apresentações que faria em uma das nossas filiais mais
lucrativas. Segundo minha mãe, os funcionários pareciam cães ferozes em
busca da melhor comissão e uma posição de trabalho. Pelo menos,
entregavam bons resultados e isso me satisfazia.
No escritório de advocacia, eu era o chefe inacessível, quase não
falava com os outros advogados e muito menos comparecia a reuniões de
grupos. Eu era o homem que a secretária impedia de chegar perto, entrava e
saía, passava pelos corredores como um raio e não dava atenção para quem
me fazia perder tempo.
Afinal, tempo sempre foi dinheiro e eu gostava de ganhar um bom
salário. Podia recriminar muitas coisas na minha família, mas não podia
fugir do meu DNA e tanto os Baxter quanto os Fitzgerald adoravam ser
ricos.
— Seja bem-vindo a Atlanta, senhor — Peter, o funcionário designado
para me acompanhar, cumprimentou. — Sua assistente, a Sra. Santopolo já
foi instalada e se encontra na empresa neste momento. Gostaria que o
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