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Luana
A noite caiu sobre o Complexo como uma maldição. O ar estava espesso, carregado de fumaça, suor e silêncio - o tipo de silêncio que precede o grito, o tiro ou o choro. Eu já conhecia bem aquele som invisível. Era o mesmo que cobria as ruas quando alguém ia morrer. As luzes brilhantes dos postes mal conseguiam romper a escuridão opressora, projetando sombras alongadas e distorcidas que dançavam ao ritmo de um vento lúgubre. O cheiro acre de pólvora e esgoto misturava-se ao aroma adocicado da maconha, criando uma sinfonia olfativa nauseabunda que perfumava cada viela, cada beco, cada barraco improvisado que se amontoava na paisagem caótica do Complexo.
As vozes abafadas dos moradores, antes tão vibrantes e cheias de vida, agora eram apenas sussurros temerosos que se perdiam no véu da noite. Crianças que antes brincavam na rua até altas horas, agora estavam trancadas em suas casas, apertadas contra as mães, com os olhos arregalados, esperando o inevitável. Os cães, normalmente tão barulhentos, jaziam quietos, seus latidos silenciados pelo instinto de autopreservação. O Complexo inteiro parecia prender a respiração, ciente de que cada segundo que passava era um passo mais perto da tempestade que se anunciava. Eu, no entanto, não sentia medo. Apenas a familiar sensação de torpor que me acompanhava desde o dia em que o Complexo se tornou meu purgatório. Era a calmaria antes do furacão, a promessa silenciosa de que a violência logo explodiria, arrastando consigo mais uma vida, mais uma esperança. E eu, como um fantasma, observava tudo, ciente de que logo estaria envolvida na tragédia que se desenhava.
E aquela noite... tudo em mim gritava que a morte tinha vindo cobrar. Só não sabia que seria a minha.
Eu estava descalça no chão da sala, as pernas dobradas contra o peito, ouvindo minha mãe sussurrar do outro lado da parede. A voz dela tremia. Eu nunca tinha escutado minha mãe tremer. Nem mesmo quando o marido dela sumiu com tudo o que tínhamos. Nem quando o gás acabou e ela teve que fazer miojo com vela. Mas agora... agora ela tremia.
E quando ela voltou, os olhos dela não se fixaram nos meus.
- O que foi? - perguntei.
Ela não respondeu.
- Mãe?
Ela engoliu seco. Sentou no sofá e soltou a bolsa no chão como se ela pesasse uma tonelada. A bolsa não pesava. Mas a culpa, sim.
- Eu fiz uma besteira, filha.
Meu estômago se revirou.
- Que tipo de besteira?
- Eu... eu pedi ajuda ao Miguel.
Miguel.
O nome bateu no meu peito como um soco seco. Quase cuspi.
Miguel Torres. O nome que ninguém dizia em voz alta no Complexo. O Dono. O Chefe. O Inferno com rosto.
Ele não era só traficante. Era o arquiteto do medo. O homem que mantinha todos em silêncio. O tipo de homem que podia arrancar sua língua por olhar torto. Que fazia do castigo um ritual. E agora... minha mãe tinha ido até ele?
- Você tá brincando - sussurrei.
- Eu não tinha escolha, Luana. Ele... ele emprestou o dinheiro. Era isso ou...
- Ou o quê? Deixar a gente com fome? A gente já passou fome antes! Mas isso? Isso é se vender pro diabo!
Ela fechou os olhos. A culpa explodindo nas rugas dela.
- Eu vou pagar - ela disse. - Eu juro que vou pagar.
Mas até eu sabia que era mentira. A dívida era grande demais. E Miguel não cobrava em reais.
Ele cobrava em carne. Em alma. Em obediência.
Duas noites depois, vieram me buscar.
Três homens bateram na porta. Não precisaram dizer nada. Um deles estendeu a mão, como se eu tivesse escolha. Minha mãe chorava em silêncio no corredor, encolhida como criança. Eu encarei aquele homem com ódio. Mas minhas pernas tremiam.
Fui com a roupa do corpo. Um short jeans, regata preta e chinelo. Fui como se fosse pro matadouro.
A Kombi velha me levou morro acima. Cada curva parecia mais escura. As luzes das casas iam sumindo. E então, o portão. Duplo, de ferro, alto. Guardas com fuzis. Eu nunca tinha chegado tão perto da casa dele.
A mansão do Miguel era um insulto no meio da favela. Muro alto, câmeras em todo canto, fachada branca imaculada. Como se o inferno tivesse decidido se vestir de paz.
- Sai - ordenou um dos capangas.
Saí.
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