/0/19290/coverorgin.jpg?v=119900e486631b75e977d074d5a26574&imageMogr2/format/webp)
Os pés descalços andavam pelo piso limpo e frio. Seguiam em direção à janela principal. Tenso demais, o homem apertava o nariz do minúsculo palhaço de brinquedo que segurava na mão esquerda fazendo-o piscar. Não lembrava de quando passou a recorrer àquele objeto para aliviar a tensão, mas jamais esqueceria de quando o ganhou.
Ao parar em frente à janela central, concentrou-se na rua que gostava de apreciar desde a infância, onde sentava no parapeito para poder ver a casa branca, de muro baixo. Perdia horas do dia "vendo-a" brincar no quintal sozinha ou na companhia das irmãs. Ele tinha só cinco anos quando aquela casa passou a ser o centro de sua atenção.
Foi durante a volta de um passeio com sua mãe, os dois iam para casa e ela quis fazer outro trajeto por uma rua diferente, quando de repente parou em frente ao muro baixo de uma residência. Sua expressão era tão compenetrada que chamou a atenção do menino.
"Desce daí, filho!"
A bela jovem pediu ao garoto que começou a escalar o muro baixo.
"Quero ver também!" Ele insistiu continuando a subir até atingir o topo e sentar.
A primeira coisa que viu foi uma menina alguns anos mais nova brincando no meio do quintal. Ela usava tranças e estava com um vestidinho rosa com estampas de ursinhos coloridos. Ao vê-lo, a criança correu em sua direção e estendeu a mãozinha com o brinquedo.
"Aninha volte aqui!"
Um homem com expressão severa apareceu na porta da casa.
O som de uma arma engatilhando o trouxe de volta à realidade. Ele se voltou para o invasor de sua casa que agora apontava o revólver em sua direção. Encarou o rosto irado e alguns anos mais velho que aquelas lembranças.
- Cadê a minha filha, desgraçado?
Diana Pontes.
Ela passou em primeiro lugar na federal de medicina aos 20 anos. A primeira da família a fazer faculdade. Seu pai, Benedito Pontes, conhecido por toda Roseiral como Tio Dito, estava há 12 anos em um serviço público como motorista de ambulância da unidade de socorro da cidade. Leila, sua esposa, trabalhava há um tempo de caixa no mercado do bairro. De alguma forma a família Pontes tinha uma certa estabilidade, e as dificuldades não foram tão pesadas. Quando Diana passou em primeiro lugar na universidade, foi como se a família ganhasse na loteria.
O pai chorou muito.
Bebeu muito também.
Dito não estava acostumado a encher a cara, apesar de tomar sua cerveja, vez ou outra e quando soube da conquista da filha, literalmente chutou o balde.
Foi um início de dia divertido no quintal da casa dos Pontes. Alguns amigos mais chegados participaram da comemoração.
Diana conhecia todos, sem muita proximidade, mas aquele dia era especial não só para ela, então foi simpática com os amigos dos pais.
E estava feliz.
Ela também chorou demais.
Aquela conquista ia mudar sua vida.
Não se importou com o banho de farinha colorida preparada por Josy, a amiga de infância, Jéssica, a irmã do meio e Luana, sua irmã caçula.
A comemoração estava perfeita até que...
Um carro estacionou em frente à sua casa.
Um carro branco, muito limpo.
E aparentemente novo. Deveria ser, estava envolvido por um laço vermelho gigantesco, como um presente.
A rua parou.
De repente, a frente da casa dos Pontes estava cercada de vizinhos.
Diana paralisou.
Todos paralisaram.
Emocionada, ela tapou a boca virando-se para o pai.
Dito a encarou surpreso.
-Não, não fui eu, filha... - disse, tão perdido quanto ela.
Do carro saiu um jovem conhecido.
Filho do seu Formiga, dono do bar da esquina.
Filho perdido para o reino do crime.
Vitinho...
Ele todo sorridente foi até o portão.
- Seu Dito, dona Leila...
Começou todo cerimonioso.
- A felicidade de vocês se espalhou pelo nosso Roseiral e cativou nosso irmão e colaborador.
" Colaborador"
O adjetivo mais sutil para o maior traficante da cidade.
- Para parabenizar a conquista da filha de vocês, Diana, agora futura doutora do nosso bairro, que ela receba esse presente enviado com todo carinho por Randal Reis, seu grande admirador...
Vitinho estendeu a mão pela grade do portão segurando a chave do carro.
O gesto provocou um falatório geral.
- Nossa! Um carro! - Jéssica tentou ir até o portão, mas Leila segurou seu braço.
- Nem pense em ir até lá. - a mãe ordenou.
E Diana...
Bem, ela foi a primeira a dar as costas e entrar em casa sem dizer uma palavra.
Com uma expressão satisfeita, Dito fez o mesmo gesto.
- Vamos terminar de comemorar lá dentro pessoal, tem muita pizza e duas caixas de cerveja para esvaziar.
Mais tarde, após a comemoração, a maioria dos convidados já tinha ido embora. Dito estava na companhia de seu velho amigo Jorge. Os dois homens estavam sentados à mesa da cozinha.
- Acha que devo falar com esse cara? Ele precisa saber que eu o mataria se ousar se aproximar da minha filha.
Dito comentou antes de tomar um gole de cerveja.
- Você sabe quem é que irá morrer se for brigar com o Rei não é? E aí quem ficará aqui para cuidar de sua família? Quem garante que elas, sua mulher e filhas estarão seguras?
As palavras de Jorge, seu amigo e esposo de Vera provocaram arrepios em Dito.
- A Diana vai estudar na cidade, não terá contato nenhum com o Rei... E outra, ele sabe que não tem a menor chance com ela, a garota é jogo duro, ninguém dessa rua tem a menor chance com ela.
Jorge finalizou e os dois riram.
- Que ousadia...
Disse Vera, sentada no sofá da sala.
Leila colocou a bandeja de suco sobre a mesinha à sua frente. A família Pontes não tomava refrigerante desde que Diana fez sua monografia na oitava série sobre os males da alimentação. Apenas Benedito seguia com sua cerveja aos finais de semana.
- Ainda bem que a minha filha vai embora para o centro da cidade assim que efetuar a matrícula. - Leila também estava tensa.
- E o Dito? Pensei que ia perder a linha.
- Eu também achei, Vera, mas ele está de boas conversando com o Jorge na cozinha.
- Leila, minha amiga, porque o Rei daria um carro para Diana? Ela praticamente não sai do quarto dela! De onde esse garoto a conhece?
A pergunta da amiga a fez suspirar. Vera e família não moravam mais em Roseiral há um bom tempo. Quando João Reis ainda "reinava" no bairro.
- O pai dele o matriculou na mesma escola da Di, eles só tiveram contato no último ano do ensino médio... Foi aí que nosso inferno começou.
- Mas ele não é mais velho?
- Dois anos apenas, ele havia se afastado da escola para competir fora no judô e perdeu uns anos de estudos, quando voltou caiu na mesma sala que ela.
- Mesmo morando fora daqui eu soube disso... Pensei que ele não seguiria o mesmo rumo que o pai, já que é um medalhista. - Vera lamentou - Dizem que tinha um futuro promissor.
- Pois agora ele toma conta de tudo!
- Sim! - Vera a olhou bem - Leila, nem quero imaginar o que possa acontecer.
Seu comentário fez cobrir uma sombra no rosto da amiga.
/0/2011/coverorgin.jpg?v=ce1b8f01560590b793c889014915c520&imageMogr2/format/webp)
/0/6702/coverorgin.jpg?v=5e51886c22c8994eb8e50fad66cc516a&imageMogr2/format/webp)
/0/11363/coverorgin.jpg?v=c8500f4df270c7c8d00fe1b4ecf63b6e&imageMogr2/format/webp)
/0/12378/coverorgin.jpg?v=a9cfa5569f7f8c2baecd2c54b5f005b5&imageMogr2/format/webp)
/0/9396/coverorgin.jpg?v=ca472364ccdc20f022c79eab38cc7b78&imageMogr2/format/webp)
/0/18123/coverorgin.jpg?v=ee3a5a9441cc2da3aa793b5451853908&imageMogr2/format/webp)
/0/10629/coverorgin.jpg?v=7c9598d43a7a294d172a99c6ff059515&imageMogr2/format/webp)
/0/2301/coverorgin.jpg?v=f9849f64c8e2e5e92e54c9a419c1ec25&imageMogr2/format/webp)
/0/11990/coverorgin.jpg?v=dccf42e454a8f60ad624b6d30419da02&imageMogr2/format/webp)
/0/351/coverorgin.jpg?v=595784d75f9ec55a5566fe5a26e94a87&imageMogr2/format/webp)
/0/8375/coverorgin.jpg?v=41f9a65df407d29598514a887a976cc0&imageMogr2/format/webp)
/0/6431/coverorgin.jpg?v=e9d93f93927969e82c7f525f64061a62&imageMogr2/format/webp)
/0/6135/coverorgin.jpg?v=2ebe7a857a93b448544638e384a52aff&imageMogr2/format/webp)
/0/17553/coverorgin.jpg?v=d54aa3f6ab604b21dca65bbdbc2cc357&imageMogr2/format/webp)
/0/14609/coverorgin.jpg?v=9d640e4256d88ca552f3e9b92aa78661&imageMogr2/format/webp)
/0/11274/coverorgin.jpg?v=e334e6ae77692631f83968492c526fcb&imageMogr2/format/webp)
/0/2776/coverorgin.jpg?v=9670bf1876110d4313f936f9abb90a55&imageMogr2/format/webp)
/0/6680/coverorgin.jpg?v=c6403afd44d24e2f4c0861147d3d0069&imageMogr2/format/webp)
/0/16766/coverorgin.jpg?v=2cf49e870aea97f338d1674ad075e16a&imageMogr2/format/webp)