As Cicatrizes Que Ela Escondeu do Mundo

As Cicatrizes Que Ela Escondeu do Mundo

Keely Alexis

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Capítulo

Três anos depois de ser arrastada pelos portões de ferro do "Campo de Correção Selvagem", Alvorada finalmente voltou para a mansão da família, mas não como filha. Ela voltou como um segredo sujo. Sua irmã perfeita, Pluma, a recebeu com um abraço falso e roupas de cashmere, a mesma irmã que havia plantado drogas no carro de Alvorada e assistido, chorando lágrimas de crocodilo, enquanto a polícia a levava. Para os pais e o irmão, Alvorada era apenas a viciada que envergonhou o nome da família, a "ovelha negra" que precisava ser consertada. No jantar de boas-vindas, cercada por cristais e hipocrisia, o irmão zombou, perguntando se ela havia aprendido a fazer cestas na reabilitação. Alvorada não gritou. Ela apenas levantou a manga do suéter velho que pendia em seu corpo esquelético. O que a família viu não foram marcas de agulhas de vício, mas um mapa de tortura: crateras roxas de cigarros apagados na pele, queloides de queimaduras químicas e cicatrizes de algemas nos pulsos. "Isso é o que eu aprendi", disse ela, a voz morta, exibindo a carne queimada. "Aprendi o cheiro da minha própria pele queimando quando me recusei a assinar confissões falsas." Enquanto a mãe derrubava o vinho em choque e o irmão gritava que era automutilação para chamar atenção, apenas Afonso, o noivo da irmã, reconheceu a verdade brutal: aquelas feridas nas costas eram impossíveis de serem autoinfligidas. Naquela noite, exilada no chalé dos fundos e tratada com nojo, Alvorada não chorou. Ela abriu a lombada falsa de seu único pertence, um caderno velho, e ativou um telefone via satélite proibido. "Estou dentro", digitou ela para o hacker que lhe devia a vida. A garota frágil morreu no campo; quem voltou para casa foi a caçadora, e o jogo estava apenas começando.

As Cicatrizes Que Ela Escondeu do Mundo Capítulo 1 1

"Que comece o jogo, irmão," ela sussurrou para a estrada vazia.

As palavras foram apenas uma nuvem de vapor no vento cortante, uma promessa feita às lanternas traseiras que acabavam de abandoná-la. Um momento atrás, ela estava dentro daquela bolha de calor e couro. Agora, estava do lado de fora.

A história de como ela chegou ali começou com um som.

Os portões pesados de ferro do Campo de Correção Selvagem rangeram ao se abrir. Era um som que lembrava um animal morrendo, metal gritando contra metal enferrujado.

Alvorada não piscou.

Ela permaneceu do outro lado do perímetro, o vento jogando areia e terra contra suas bochechas. Sua pele parecia apertada demais para o rosto. Seus olhos estavam secos. Parecia que não piscava há horas.

O diretor, um homem que atendia pela alcunha de Ferrolho e tinha um pescoço grosso como um toco de árvore, jogou um saco plástico transparente na terra, aos pés dela.

"Boa sorte, 402," ele grunhiu.

Ele não usou o nome dela. Ela não ouvia seu nome ser dito com nada além de desprezo há três anos.

Alvorada encarou o saco. Dentro havia uma escova de dentes, um pente barato e um pequeno caderno de couro. Não era algo que ela tivesse roubado; era algo que ela havia conquistado o direito de manter através de pura e teimosa sobrevivência, um segredo que ela contrabandeava costurando-o no forro fino de seu moletom todas as manhãs por um mês.

Era a vida dela. Era tudo o que possuía.

Ela se abaixou. Sua coluna estalou audivelmente. Seus movimentos eram rígidos, calculados, como uma máquina que não via óleo há muito tempo. Ela agarrou o saco antes que o vento o levasse.

Um Lincoln Navigator preto e alongado apareceu no horizonte, cortando as nuvens de poeira. Parecia um carro funerário.

Parou exatamente a três metros de distância.

O motorista saiu. Usava luvas brancas. Abriu a porta traseira, seus olhos disparando para o rosto dela por uma fração de segundo antes de desviar o olhar. Havia pena ali. Alvorada odiava a pena mais do que odiava o Ferrolho.

Ela caminhou em direção ao carro. Cada passo era uma negociação com seu corpo. Pé esquerdo, firmar. Pé direito, arrastar levemente. Não mancar. Não mostre a eles que você está quebrada.

Ela deslizou para o banco traseiro. A porta bateu, selando-a em um vácuo de silêncio e couro caro.

Corisco estava lá.

Seu irmão usava um terno azul-marinho que provavelmente custava mais do que todo o orçamento anual do campo. Ele digitava no celular, a testa franzida em aborrecimento. Ele não olhou para cima por um minuto inteiro.

O ar no carro cheirava a sândalo e ar-condicionado. Fez o estômago de Alvorada revirar. Ela estava acostumada com o cheiro de água sanitária e corpos sujos.

Corisco finalmente olhou para cima. Seus olhos a percorreram.

Ela usava a calça de moletom cinza e o casaco enorme que o campo lhe dera na saída. Estavam manchados e cheiravam a mofo de depósito.

O nariz de Corisco se enrugou. Ele tirou um lenço de seda do bolso e pressionou contra o rosto.

"Três anos," ele disse, a voz abafada pela seda. "Achei que você teria aprendido alguma higiene. Pelo menos tomado um banho."

Alvorada olhou para frente. Seus olhos estavam desfocados, olhando para a divisória entre eles e o motorista. Ela não disse nada.

O silêncio foi a primeira arma que ela forjou no escuro.

Corisco fechou sua pasta de couro com força. O som foi agudo na cabine silenciosa. "O gato comeu sua língua? Mamãe e Papai estão esperando um pedido de desculpas."

Alvorada virou a cabeça lentamente. Os músculos do pescoço pareciam cabos de aço. Seus olhos eram vazios.

"Um pedido de desculpas?" A voz dela era rouca, sem uso. "Pelo quê?"

Corisco piscou. Ele parecia genuinamente surpreso, então sua expressão endureceu em um escárnio. "Por quase arruinar a Pluma. Pelas drogas. Por ser um pesadelo de relações públicas."

Alvorada sentiu uma sensação fantasma no braço, a memória de uma agulha que ela não havia pedido. Ela viu o rosto de Pluma, manchado de lágrimas e perfeito, mentindo para a polícia.

Um sorriso pequeno, quase invisível, tocou o canto da boca de Alvorada.

"Então vocês definitivamente deveriam celebrar meu retorno," ela sussurrou. "Tenho tanto para contar a eles."

O rosto de Corisco ficou de um tom de vermelho que contrastava com sua gravata. Ele interpretou a falta de vida dela como arrogância. Ele odiava não ser a pessoa mais esperta da sala.

Ele apertou o botão do interfone.

"Pare o carro," ele ladrou.

Os freios foram acionados com força. O corpo de Alvorada voou para frente. Seu peito bateu nas costas do banco dianteiro.

Ela soltou um som pequeno e agudo quando o impacto atingiu suas costelas inferiores. Havia um hematoma profundo e agonizante ali, sobreposto a costelas que haviam trincado meses atrás e nunca se curaram direito. A dor se espalhou, branca e quente.

Corisco apontou para a porta.

"Se você vai ser uma vadia, pode ir a pé," ele disse. "Talvez a chuva lave esse fedor de você. Pense na sua atitude antes de pisar na minha casa."

Alvorada olhou pela janela. O céu estava roxo e preto, como um hematoma. Uma tempestade estava chegando. Eles estavam a quilômetros da propriedade, em um trecho solitário de estrada cercado por nada além de mato.

Ela não implorou. Ela não chorou.

Ela nem hesitou.

Alvorada alcançou a maçaneta. Empurrou a porta. O vento uivou, invadindo a cabine higienizada como um intruso físico.

Corisco parecia atordoado. Ele esperava que ela agarrasse seu braço, que implorasse, que fosse a bagunça dramática e emocional que costumava ser.

Alvorada saiu. Seus tênis tocaram o cascalho.

Ela bateu a porta. Bang.

O Lincoln não esperou. O motorista já estava voltando para o banco, a porta batendo um segundo antes do motor rugir. O carro arrancou, pneus cantando, levantando uma nuvem de poeira que cobriu a língua dela. Alvorada ficou na beira da estrada, apertando seu saco plástico contra o peito.

Ela assistiu as luzes traseiras desaparecerem na escuridão.

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