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Clara tem 35 anos e um plano perfeitamente racional: fugir deles. Depois de uma demissão disfarçada de "reestruturação", um término sem motivo suficiente para brigar e um aniversário que ela decidiu simplesmente não comemorar, Clara faz a única coisa que parecia fazer sentido às três da manhã: compra passagem para um cruzeiro lotado de gente na faixa dos vinte anos. A lógica era simples. Se ela conseguisse se misturar, talvez a idade parasse de contar. O problema é que ninguém avisou Clara que fingir ter vinte e poucos é um trabalho de tempo integral - e ela é péssima nisso. Erra a gíria. Erra o passo do dance que jurou ter entendido. Erra, principalmente, ao achar que ninguém está percebendo. Entre memes que ela não pega e uma vontade cada vez maior de voltar pro camarote sozinha, Clara esbarra em Tomás: 38 anos, arquiteto, o tipo de homem que todo mundo chama de "tranquilo" porque "estagnado com boa postura" seria rude demais para dizer em voz alta. Ele também não devia estar naquele cruzeiro. E é o primeiro, em muito tempo, que olha pra Clara sem esperar que ela seja engraçada o tempo todo. Tem também Isabela, 22 anos, que decidiu que Clara é um ícone de vida - sem saber que está tão perdida quanto ela, só que chama isso de "se encontrando" em vez de "estar velha". E tem o grupo: Rafa, Xande, Mari e companhia, que Clara passa metade da viagem tentando impressionar e a outra metade percebendo que eles têm tanto medo quanto ela, só que usam palavras diferentes pra isso. O que começa como comédia de choque geracional - gírias erradas, tentativas desesperadas de pertencer, um dance do TikTok que termina no chão do deck - vai, aos poucos, virando outra coisa. Porque Clara descobre, sem querer e sem discurso, que o problema nunca foi ter 35 anos. Foi ter passado os últimos anos rindo antes que alguém a obrigasse a sentir. Fake It Till You Make It é uma comédia sobre performance, sobre a idade que a gente finge não ter medo de ter, e sobre o momento exato em que a gente para de tentar ser interessante para os outros e, sem perceber, se torna. Um romance para quem já riu demais de si mesmo pra não reconhecer o próprio reflexo - e para quem sempre desconfiou que a pessoa mais engraçada da festa é, quase sempre, a mais sozinha.
Existem decisões que a gente toma devagar, pesando prós e contras numa planilha mental, dormindo sobre o assunto, conversando com amigos que vão te dar a opinião que você já tinha decidido ouvir. E existem decisões que a gente toma às 23h47 de uma terça-feira, com uma taça de vinho pela metade e o cartão de crédito já digitado de cor.
A minha foi da segunda categoria.
Eu não vou fingir que não sabia o que estava fazendo. Sabia. Só não sabia o tamanho da coisa - e isso, no fim, é o meu problema crônico: entendo os fatos, erro a escala.
Os fatos eram simples. Eu tinha trinta e cinco anos, tinha sido "desligada por reestruturação" de uma startup que, resumindo educadamente, achava que dormir no escritório era sinônimo de propósito de vida. Tinha terminado, três meses antes, um relacionamento de três anos sem uma única briga digna de nota - o que, convenhamos, é o tipo de fim que não te dá nem o consolo de odiar alguém. E tinha um aniversário de trinta e cinco chegando como um trem que você vê vindo de longe e mesmo assim se surpreende quando apita.
Diante desse cenário, qualquer pessoa razoável teria feito terapia, ou yoga, ou aquele curso de cerâmica que todo mundo faz depois de uma crise e nunca mais faz de novo.
Eu comprei uma passagem de cruzeiro.
Não qualquer cruzeiro. Um cruzeiro anunciado, sem nenhuma ironia por parte da empresa que vendia, como "a experiência definitiva para quem tem entre 21 e 29 anos". Eu li isso. Vi o número. Fiz a conta. E cliquei em comprar assim mesmo, com a serenidade de quem está tomando uma decisão completamente normal.
Existe uma lógica ali, juro. Uma lógica torta, mas existe. Eu não queria um cruzeiro para "gente da minha idade" - cheio de casais em segunda lua de mel comparando reformas de cozinha e planos de previdência privada. Eu queria provar uma coisa. Não sei exatamente o quê, ou melhor: sei, mas ainda não tinha coragem de admitir nem para mim mesma, então vou deixar a frase incompleta por enquanto e você vai ter que confiar que ela se resolve lá na frente. Combinado?
O que eu disse para as pessoas foi: "preciso de uma energia diferente". Isso é o tipo de frase que soa profunda o suficiente pra ninguém perguntar mais nada. Funciona quase sempre. Funcionou com a minha mãe, que só perguntou se eu ia usar protetor solar. Funcionou com a Beatriz, minha melhor amiga, que ergueu uma sobrancelha, decidiu não brigar comigo numa terça-feira, e mandou um emoji de barco.
Não funcionou comigo. Mas isso eu só fui perceber depois.
***
A parte engraçada - e olha que eu digo "engraçada" já sabendo o que vem - é que eu sou uma pessoa que se orgulha de tomar decisões pensadas. Sou analista de marketing. Faço planilha até pra decidir o que vou assistir na sexta-feira. Tenho uma pasta no computador chamada "decisões importantes" com subpastas organizadas por ano, o que é ridículo e eu sei que é ridículo, mas nunca deletei porque isso implicaria admitir que sou o tipo de pessoa que faz isso.
E ali estava eu, comprando uma passagem de mil e duzentos dólares pra passar sete dias com gente que nasceu depois do Orkut morrer, sem consultar a pasta, sem fazer planilha, sem nem terminar de processar por que estava fazendo aquilo.
Eu sabia - sei - que "está passando de fase" é uma frase que eu uso sobre o mercado de trabalho quando o que eu quero dizer é sobre mim. Sei que "as pessoas hoje em dia são de outro mundo" é uma forma educada de dizer "eu não entendo mais o mundo e isso me apavora". Sei disso do mesmo jeito que sei que deveria comer mais fibra: intelectualmente, sem que isso mude nenhum comportamento na prática.
O aniversário de trinta e cinco tinha virado, na minha cabeça, uma linha divisória arbitrária entre "ainda dá tempo" e "já era". Ninguém me disse isso. Não tem estatística, não tem lei, não tem nem uma piada de internet que confirme essa fronteira - eu inventei ela sozinha, com material de primeira qualidade: comparação, insegurança e um scroll de duas horas no Instagram vendo gente com vinte e poucos anos fazendo coisas que, tecnicamente, eu também podia fazer, só que escolhia não fazer, e agora estava reescrevendo essa escolha como incapacidade.
Isso é uma engenharia impressionante de autossabotagem, se você parar pra pensar. Eu paro. Foi basicamente o meu hobby daquele mês.
***
Fiz as malas na véspera - coisa que nunca faço, sou do tipo que separa roupa com uma semana de antecedência, dobrada, numerada mentalmente por ocasião. Dessa vez, joguei tudo numa mala pequena, decidida a viajar leve no sentido literal, já que no sentido figurado estava carregando o equivalente a um contêiner.
Não sei de onde achei que a metáfora não se aplicava a mim.
Separei três vestidos que a vendedora da loja chamou de "despojados" - palavra que, decodificada, significa "jovem", que por sua vez significa "não é bem a sua cara, mas vai que". Separei um tênis branco que comprei especificamente pra essa viagem, ainda com aquele cheiro de loja que não sai nem depois de três lavagens. Separei protetor solar, porque minha mãe ia perguntar de qualquer forma e eu queria poder responder com a consciência limpa em pelo menos um aspecto da minha vida.
Não separei, porque não sabia que precisaria, nenhuma resposta pronta para a pergunta "quantos anos você tem?", que ia aparecer antes do que eu gostaria.
***
Na manhã do embarque, tomei café sozinha na cozinha, olhando pra passagem impressa em cima da mesa - sim, impressa, eu sei, ninguém mais faz isso, mas alguma parte de mim ainda acredita que papel é mais real que tela, e naquele momento eu precisava que aquilo fosse real.
Fiquei uns minutos só olhando pra faixa etária escrita ali, pequena, no canto: 21-29. Já tinha visto aquilo antes, claro. Vi quando comprei, vi quando recebi a confirmação, vi quando imprimi. Mas ali, com café esfriando e mala pronta do lado da porta, foi a primeira vez que aquilo pareceu concreto.
Eu ia entrar num navio cheio de gente dez, doze, quatorze anos mais nova que eu. Ia ser, estatisticamente falando, a mãe de alguém ali.
Pensei em cancelar. Cheguei a abrir o aplicativo, dedo pairando em cima do botão vermelho que provavelmente dizia "cancelar reserva" - não me lembro exatamente do texto, e aqui eu preciso ser honesta com você: talvez esteja reescrevendo esse momento pra parecer mais dramático do que foi. Talvez eu só tenha olhado pro celular por três segundos e voltado a tomar café. A memória é assim, generosa com quem conta a história. Eu era a que contava, então acho que o dedo pairou, sim. Vamos com essa versão.
O fato é que não cancelei.
Não porque tive uma epifania de coragem, nem porque uma voz interior sábia me disse "vai, você merece". Não cancelei porque, no fundo, cancelar significava admitir que a viagem inteira tinha sido um erro pensado errado desde o começo - e eu não estava pronta pra admitir isso ainda. Prefiro, historicamente, descobrir que uma decisão foi ruim vivendo ela até o fim, não abortando na largada. É menos eficiente. É bem mais eu.
Terminei o café. Peguei a mala pequena com trinta e cinco anos de bagagem dentro dela, de um jeito que nenhuma companhia aérea jamais vai cobrar excesso de peso porque não é esse tipo de peso.
E fui pro navio.
***
No táxi, a caminho do porto, mandei uma mensagem pra Beatriz: "Vou. Não me julga."
Ela respondeu na hora, porque Beatriz sempre responde na hora, é uma das qualidades dela que eu mais invejo e menos pratico: "Eu nunca te julgo. Só reservo o direito de rir muito quando você me contar depois."
Guardei o celular. Olhei pela janela pro trânsito de terça-feira de manhã, gente indo trabalhar num mundo que ia continuar girando perfeitamente bem sem eu estar nele por uma semana - o que devia ser reconfortante e, por algum motivo que eu ainda não sabia nomear, doeu um pouco.
O navio apareceu no fim da avenida, branco e enorme, parecendo menos um meio de transporte e mais uma declaração de intenções.
Eu não fazia ideia do tamanho da coisa que estava prestes a embarcar.
Fingir Até Acontecer
Cadu Mello
Romance
Capítulo 1 A decisão questionável
08/08/2026
Capítulo 2 O embarque
08/08/2026
Capítulo 3 Tomás, o outro infiltrado
08/08/2026
Capítulo 4 A gíria errada
08/08/2026
Capítulo 5 Isabela
08/08/2026
Capítulo 6 O grupo
08/08/2026
Capítulo 7 O cansaço que não devia estar ali
08/08/2026
Capítulo 8 Fechando o Ato 1
08/08/2026
Capítulo 9 A aula de dança
08/08/2026
Capítulo 10 O vídeo
08/08/2026
Capítulo 11 Tomás e a gaveta
08/08/2026
Capítulo 12 Mari, a mais honesta
11/08/2026
Capítulo 13 A ressaca emocional
11/08/2026
Capítulo 14 A ilha
12/08/2026
Capítulo 15 Rafa e a generosidade mal-entendida
13/08/2026
Capítulo 16 Isabela por trás da máscara
13/08/2026