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Os Curtos Contos de Terror

Os Curtos Contos de Terror

James Nungo

5.0
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1.3K
Leituras
12
Capítulo

Seja bem vindo a coletânea de contos de terror de gelar a espinha, onde em cada capítulo você será apresentado um diferente tipo de terror que vai desde os fantasmas até aos demônios. São contos que vão lhe assustar, então prepare o seu sofá, café e pipocas para ler os contos mais assustadores já escritos.

Capítulo 1
O RELATO ASSOMBRADO

Obrigado por ter clicado no botão.

Gravando, repito gravando. Este relato é para quem quiser e estiver para ouvir, pois tem muitas coisas inacreditáveis. Juro que eu também não acreditaria em uma coisa assim, mas como fiz parte disto quero lhe fazer ouvir. Eu sei que pode não ser útil, porém achei necessário gravar pelas razões que vou passar a citar. Espero que escute com atenção.

Tudo mudou na minha vida desde que fui para a cidade de Orge em 1999, visitar a minha avó que já se foi durante o acontecido que estou prestes a contar.

Pedi a um policial que mesmo não acreditando em mim, violou as regras e me deu este gravador para eu fazer o áudio e enviar para minha família, diria que também seria muito útil para o meu advogado, mas já fui julgada e condenada. No dia do julgamento usei as mesmas palavras que vou usar aqui, mas não fui clara na narração, pois ainda estava nervosa e sem... você sabe quando alguém está numa situação complicada, então foi isso que aconteceu comigo.

A polícia não acreditou e até agora não acredita, estou aqui atrás das grades, no entanto aquilo foi legítima defesa. A minha vida se tornou num inferno aqui onde estou, mas ainda tenho esperança de ser visitada por alguém que pertença à minha família. Todos acham que de fato assassinei a avó Amélia, as minhas amigas e o gentil empregado doméstico, Lorken.

Sou Isabel Koupy Hazwel, tenho 18 anos de idade, nasci aqui em Moamba. Meu falecido pai era Moambiano e minha falecida mãe era Moçambicana. Fiquei muito tempo sem conhecer a cidade de Orge, a capital de Moamba, no entanto eu queria muito viajar até lá para ver a minha maravilhosa avó que sempre vinha nos visitar. Também queria conhecer a Torre de Orge que gostei só por ver, na verdade ler no livro ASHLEM - O CAÇADOR, fiquei apaixonada. Na TV falavam sobre ela, mas era muito diferente da descrição do livro, talvez porque o livro contava na perspectiva futurista, mas mesmo assim o desejo de ver a torre de perto era enorme.

Meu pai foi o primeiro a partir entre os dois, depois veio a minha mãe de uma forma repentina. Acho que fora por conta da minha prisão porque ela era muito ligada a mim e se não foi isso talvez tenha sido por outra coisa, todavia a minha prisão também contribuiu e muito.

Fui até Orge com as minhas amigas e colegas do colégio de Khedie, um dos melhores colégios da cidade de Khedie. Natália foi a responsável por convencer a minha mãe a aceitar que nós fôssemos até avó Amélia. Natália tinha 16 anos de idade, mas parecia que ela era a mais velha do grupo, muito extrovertida e esperta; uma combinação perfeita para o desastre.

Após muito tempo de insistência finalmente a minha mãe aceitou. Ulteriormente, decidiu nos contar uma história que a chamamos de " história para assustar crianças" antes de contar disse que a a mesma era real e ela nos contaria para o nosso bem, especialmente o meu.

Lembro-me como se fosse hoje o que ela contou, ela tinha razão. Sinto muita falta dela, ainda mais que não tive como participar do seu velório. Ela sabia de toda a verdade.

Minha mãe naquela noite que Natália conseguiu a convencer sobre nós irmos a cidade de Orge, sentou no banco do parque do colégio com os seus olhos distantes, perdidos. Vestindo um vestido preto, talvez fosse um sinal de algo ruím.

— Minhas filhas tenho que vos contar o que escondo por muito tempo, na verdade eu queria contar a ti, Isabel - disse apontando a mim - minha filha.

Você não deve ir até lá, porque... Há muitos anos atrás na grande casa da sua avó Amélia, antes de ser reabilitada e pertencer a ela, morava - ela pausou com assombro nos olhos, mas eu não acreditei e nem a Natália - um grupo de pessoas provinientes daqui, Khedie, porém elas mexiam muito com coisas satânicas, como rituais macabros, sacrifícios humanos, pactos com diabo e muita coisa do além.

Eu e Natália olhamos uma para outra com total descrença. Hoje me arrependo profundamente.

Ela continuou:

— O grupo fez seus pactos e sei lá mais o quê, e tudo ficou ali. Tudo. Numa das suas sessões, o grupo amarrou uma jovem virgem nua dos seus 20 anos numa mesa especial, ao seu redor colocaram velas acesas banhadas em sangue de um touro. Os participantes tinham como vestimentas roupas vermelhas e cada um com um capuz cobrindo a cabeça. - ela pausou engolindo a saliva e continuou após ajeitar o seu cabelo liso. - Houve gritos que pareceram eternos que depois permaneceram na casa e o seu avô - disse olhando para mim - antes de morrer tinha pesadelos... com os gritos da jovem nua. Ele ouvia os mesmos, mesmo se estivesse acordado.

— E porquê a avó Amélia continua lá? — perguntei.

— Boa pergunta filha... Por causa do seu avô.

— Se já faleceu há muito tempo — disse eu sem entender.

— É por isso que ela continua lá, ela amava muito o seu avô, com todo o coração dela, acho que talvez ela precisa de uma terapia. Já tentei lhe convencer a sair dali. Ela está completamente apegada àquela casa porque o avô Lorf morreu ali e gostava bastante de estar na grande casa... A sua morte não foi natural. As tribulação continuam naquela casa.

— O que quer dizer senhora Carlota com "as tribulações"? — perguntou Natália.

— Quero dizer que há muitas coisas estranhas, perturbadoras que acontecem durante as noites. Só nas noites.

— Que coisa tão pesada — disse Natália sem nenhuma crença na voz.

— Vamos combinar uma coisa mãe.

— O quê?

— Eu vou até lá e lhe convenço a sair e vir morar conosco. O que acha?

— E você vai conseguir a convencer? — ela perguntou e pude ver uma gota de alegria nos seus olhos, ela gostava da sua mãe assim como eu gostava dela. Eu disse aquilo sem me importar com a história por ela narrada, mas se fosse verdade não ia nos atingir, pois lhe convenceria antes do cair da noite.

"Coisa que não aconteceu".

— Eu também, posso ajudar — disse Natália entusiasmada como se aquilo fosse divertido.

Visto o meu vestido branco que vesti no dia em que "assassinei" a minha própria avó, as minhas companheiras e o gentil empregado doméstico. Sou uma "psicopata", isso é o que todos acham de mim, na verdade eles têm certeza que eu sou o que eu sei que não sou; psicopata.

O caso que estou prestes a narrar é inacreditável para muitos, acredito que para si também. Odeio a cor branca, talvez seja um trauma, pois esta cor esteve muito presente no cenário em que vivi, perante...

Os detalhes passo a contar agora.

Na tarde de 25 de Junho de 1999, eu, Natália, Lídia e Joana decidimos ir até Orge com a permissão dos nossos pais com o intuito de passar férias, pois os dias tinham chegado e minha mãe sempre prometia que eu visitaria juntamente com as minhas colegas de classe a avó Amélia. Viajamos de ônibus, levamos uma hora e meia de tempo para chegar até lá porque morávamos em Khedie, uma das cidades mais próximas de Orge.

Durante o nosso trajeto para o local que há muito desejávamos ir, o céu apresentava nuvens negras que chamavam a chuva que por muito tempo não beijava o solo de Moamba. Eu apreciava a beleza dos edifícios que pareciam correr aos meus olhos e as minhas amigas também faziam o mesmo, a ansiedade era enorme.

— Olhem, olhem é a famosa Torre de Orge — disse Natália apontando pela janela a grande torre da cidade de Orge.

Natália conseguia ser insuportável quando quisesse falar sobre romances melosos, coisa que eu não gostava. Eu gostava de fantasia, comédia e ação. Lembrei-me daquilo quando ela usou aquela intonação de voz que só ela sabe fazer.

— É sim, a Torre que aparece no conto que li ontem, o conto de James Nungo. Não sabia que era real — disse Lídia.

— De certeza que na tua casa não há TV. Todas nós sabemos que a torre existe, mas nunca tínhamos tido a oportunidade de ver de perto - disse Joana.

— Nem é tão de perto assim — disse eu num tom de gozação. — Mas depois de ficar um pouco na casa da avó Amélia vamos voltar para ver a torre verdadeiramente de perto.

— Oba! — a alegria pulou delas em simultâneo.

Chegamos na cidade, eu tinha pedido para a avó Amélia que nos esperasse no ponto de ônibus e ela o fez.

Encontrámos avó Amélia vestindo uma roupa lindíssima com rendas, a sua indumentária tinha como cor predominante o branco. Com os fios de cabelo denunciando a sua idade avançada, a pele também já anunciava a chegada do fim, mas ela continuava linda.

— Oi avó — disse eu abraçando-a muito firme.

— Minha neta — ela disse.

— Quem são essas três lindas meninas? - ela me perguntou.

— Elas são as minhas amigas que falei. Essa clara é Joana — disse eu apalpando o ombro dela — essa é a Natália e essa chocolate é a Lídia — disse eu abraçando-as.

— Oi, Senhora Amélia! — disseram elas em coro.

— Prazer em vos conhecer minhas filhas. Gostei da vossa indumentária. Mas que maravilha dessa cor branca.

— O prazer é todo nosso. Combinamos nos vestirmos assim — elas disseram.

— Até parecia que sabiam que eu estaria de branco também.

Avó Amélia gostava muito de moda, eu percebi nos dias que sempre ia nos visitar lá em Khedie logo depois da morte do meu pai. Ele morreu de uma forma cruel, tive o azar de presenciar aquilo, foi algo que me marcou como criança, mas a terapia me ajudou significativamente a superar o trauma, mas ainda restam as imagens. Faço de tudo para apagar o que houve naquele dia de uma vez por todas, porém parece impossível, talvez apenas a morte conseguirá apagar, pois vou continuar nesta cela por muito tempo.

Meu querido pai trabalhava na empresa que transportava produtos químicos que nem conheço os nomes, então ele andava de caminhão, sempre ia e vinha da cidade de Khrumier, mas numa tarde de domingo bem quente ele me ligou para eu ir ao encontro dele. Quando cheguei lá ao invés de encontrar o meu pai, encontrei um corpo esmagado com os membros totalmente convertidos em uma carne moída e os ossos fora da carne, a cabeça dividida ao meio, o caminhão amassado e prestes a explodir. Não sei como aconteceu e nem quero saber, foi a cena mais... ou melhor foi chocante igual a o que quero que você analise.

É melhor eu continuar narrando a história sem interrupção desta vez. E aqui vou eu.

Avó Amélia com os seus cabelos brancos nos levou e caminhamos por apenas 10 minutos. Assim quando estávamos a três minutos da casa, pudemos ver uma mansão enorme com a cor branca brilhando com toda a intensidade, nem parecia mais que estivesse prestes a chover.

— Uau, que casa linda — ficou impressionada a Lídia.

Nós todas ficamos impressionadas com a beleza e o tamanho da casa, aquilo era uma mansão.

Ela nos convidou para entrarmos, mas no momento que entrávamos a Natália começou a sentir-se mal, ela disse que de repente estava a sentir uma dor de cabeça, porém graças a Deus não foi nada grave.

Entrámos na linda casa decorada com detalhes femininos, a avó Amélia deu um comprimido a Natália. Fomos recebidos com um almoço muito bem organizado, já eram 17 horas e poucos minutos.

Sentamos numa mesa enorme cheia de comida, aquilo nem parecia que era para apenas quatro pessoas. Eu não sabia que a minha avó tinha muito dinheiro daquele jeito, sempre pensei que fosse como nós lá em casa.

— Sirvam-se minhas meninas. — disse ela em seguida sorrindo.

Sem demora começamos a atacar a comida, a fome era enorme e eu tentava organizar as palavras para conseguir lhe persuadir a sair dali. Vendo aquela maravilha, não vi o motivo de eu juntamente com as minhas amigas lhe tirarmos dali.

— Senhora Amélia... uh, como... qual é a sensação de morar sozinha? - hesitante avançou Natália antes do meu sinal.

Avó Amélia com calma ergueu o pedaço de carne de vaca até a boca, mas não depositou no interior antes de responder.

— Não moro sozinha minha querida. — disse e continuou com o pedaço, agora mastigando com todo cuidado. - Moro com o Lorken.

— Quem Lorken? — perguntei-a.

— É o meu empregado doméstico e amigo. - disse ela olhando ao homem gentil.

Após o almoço fomos assistir um filme de terror com o título "Sexta - feira 13". Foi escolha da Joana, pois gostava muito daquele tipo de filme. A ideia dela era da gente assistir a noite, mas ninguém concordou com a ideia dela, então ela preferiu assistir naquela tarde, mesmo não combinando muito. Estávamos assistindo, mas não estávamos nos divertindo, apenas Joana se divertia e comentava em cenas que não lhe deixavam com a boca fechada. Em seguida quando vimos por fim o término do filme saímos até ao pátio e apreciamos o belo jardim atrás da casa e uma pedra de longe que parecia um sinal bem usado em cemitérios, porém quando me aproximei era apenas uma normal pedra pintada para ornamentar o local.

Nos divertimos, conversámos, gargalhámos. O homem gentil também estava conosco e pude ver que os dois estavam felizes. A minha ideia de a convencer a largar tudo aquilo e morar comigo e mamãe em Khedie já estava morrendo. Até aquele momento eu não tinha visto nada de estranho.

Quando íamos para dentro da mansão eu perguntei:

— Vovó...

— Sim querida.

— Você alguma vez viu algo de estranho aqui na casa ou...

— O que quer dizer com isso? Se tenho visto alguns vultos? — ela me interrompeu e olhou para Lorken. — Claro que tenho visto e tenho certeza que é o meu marido me visitando, a poucos meses atrás eu falava com ele.

As meninas como se estivessem combinado, lançaram os seus olhares surpresos em minha direção.

Eu juro que fiquei arrepiada com a resposta, mas deixei pra lá, como muitos dizem, o arrependimento vem depois. Mas porquê eu fiz aquilo, porquê? Desculpa se estou interrompendo o relato novamente, me desculpa, é que não consigo me segurar. Calma Isabel, calma. Ok vamos continuar.

Depois da nossa diversão e a declaração da minha avó, entramos na mansão e continuamos conversando e não demorou que algo estranho acontecesse. Quando eu ia ao banheiro vi uma pegada de uma mão que em seguida desapareceu aos meus olhos, senti um arrepio quando algo passou correndo rapidamente, foi isso que me pareceu, mas como sempre eu deslexei.

Conto tudo isto em lágrimas e dor. A mansão precisa de um exorcista.

Já era noite e o jantar estava prestes a ser servido.

Avó Amélia estava sentada bem pensativa e nem se apercebeu da nossa chegada, tinha uma foto na mão, porém logo que nos viu tratou de escondé-la.

— Já estão aí? — ela perguntou. — Sentem meninas.

— Avó Amélia, mãe me contou sobre a história desta casa.

— De certeza que não acreditou.

Todas nós tivemos receio de responder, então ela nos surpreendeu dizendo:

— Nem eu. Eu sei que o que dizem sobre esta casa não é verdade. Eu nunca vi algo estranho aqui além de aparição do meu esposo.

Com cautela eu lhe perguntei:

— Mas e si não for o avô Lurf?

Todas olharam para ela ansiosas pela resposta dela, pude ver na cara delas.

— Eu tenho certeza que é ele eu sinto, toda vez quando ele está aqui. É ele e ponto. — ela disse com felicidade na sua voz e na sua expressão facial.

O senhor gentil começou a pôr a mesa de um modo bem rápido. Ele fazia o seu trabalho, mas parecia que os seus ouvidos estavam lá na nossa conversa.

— Vamos fazer uma oração antes de comer. —disse avó Amélia se preparando para fechar os olhos. — Alguém se candidata?

Oramos e começámos a deliciar a comida preparada pelo Lorken, já eram 20 horas e 30 minutos.

As meninas já estavam exaustas então eu fui fazer a cama para elas. Era para elas dormirem no mesmo quarto, no entanto esse quarto era grande e tinha quatro camas, os outros quartos estavam trancados por razões não explicadas por avó Amélia. Depois de sair daquele quarto fui até a sala para assistir.

Assisti até que deram 21:36 no sofá. Ouvi um som de passos de pessoas, talvez duas ou três. Eu me sentia bem cansada e já necessitava de dormir, cabeceava e voltava a postura inicial assistindo aquele filme de comédia, outras vezes voltava a cabecear. De repente vi uma pessoa correndo rapidamente em frente ao televisor e dormi no sofá sem ter me apercebido.

Senti o meu corpo se congelando de um modo lento e arrepios passaram a circular pela minha espinha. Algo do abismo estava me observando, senti isso enquanto um abraço muito forte me asfixiava, parecia uma cobra me fazendo companhia desagradável. Começou a circular um cheiro de enxofre. Senti os meus pêlos ganhando arrepios, um clima bem pesado e frio. Tentei com todas as minhas forças me mover para fugir da situação, no entanto quanto mais eu me esforçava mais sem ar ficava. Só conseguia mexer os meus dedos dos membros superiores, e inferiores também o pescoço e durante um movimento leve vi o sangue banhando o sofá e alguém parecia estar ali, pois senti pela respiração ofegante perto de mim. O meu coração martelava em desespero. Tentei gritar, porém a voz não quis andar pelos caminhos da garganta para depois pular para fora pelo orifício bocal. Tentei novamente e mais e mais e nada.

O sangue provinha de uma moça totalmente nua e com olhos retirados, de certeza com uma força dos infernos. Dos dois orifícios saía sangue negro que escorria até ao sofá. O abdômen dela tinha um corte profundo e estava prestes a revelar as suas entranhas. A vontade de vomitar veio com uma velocidade de um carro veloz conduzido por alguém prestes a se suicidar, no entanto não vomitei. Ela começou a chorar, porém, infelizmente sem lágrimas, mas sim com sangue. Apareceram dois homens, um com um livro e o outro com um facão.

Enquanto o homem com o livro pronunciava palavras por mim desconhecidas o outro afiava o facão numa coisa que parecia uma pedra, era prateada.

Eu continuava na minha luta contra a invisível força que me dominava. O choque grande foi quando o homem com o facão após ter terminado de organizar a arma como se estivesse prestes a preparar uma carne animal, depositou um golpe certeiro no seio da nua jovem que deixou escapar um grito que até hoje soa no meu subconsciente, depositou o outro na coxa, outro no braço, outro e outro... até completar quase todo o corpo.

O outro homem com o livro pronunciou um conjunto de palavras que compreendi, e meu Deus, que coisa tão...

— Sim, venha Zamboio. Eu te ofereço esta alma inteira e intacta.

Tudo que acontecia ali eu apenas assistia e parecia que ninguém deles me via, mas outra coisa que me aterrorizou foi quando a moça recebeu o último golpe no pescoço, disse:

— Por favor... salve-me. — o sangue jorrou, bem torrencial antes dela cair no chão sem vida.

A casa passou a tremer com pujança. As paredes ostentaram frestas e fissuras. De repente houve silêncio.

Repentinamente a moça golpeada com o facão levantou-se e de imediato agradeceu com uma voz grotesca dos infernos:

— Obrigado por terem me invocado. — em seguida gargalhou.

Os dois homens estavam bem sérios e impressionados perante a entidade.

Eu tentava sempre em cada horrorosa cena fechar os olhos, porém em nada adiantava, pois mesmo com os olhos fechados eu conseguia ver tudo.

— Não gostei deste corpo, mas era necessário para a invocação.

Se aproximou do homem com o livro, de um modo súbito lhe agarrou pelo pescoço e lhe carregou apertando com uma força que equivalia a toneladas e houve um som dos ossos sendo esmagados. O outro homem tencionou fugir, todavia durante a sua corrida Zamboio o congelou, então este caiu e soltou o facão. A entidade abaixou-se e apanhou a arma cortante.

— Vocês humanos são patéticos. - disse brincando com o objeto. — Mais almas para mim. — passou o metal pela língua, lambendo o líquido viscoso e vermelho.

Arrancou a cabeça do homem pelo pescoço com o facão e o sangue jorrou banhando a superfície, depois virou na minha direção com um sorriso cínico e diabólico em simultâneo.

Acordei num inopino movimento, ofegante, suando e com o coração funcionando a mil.

— Natália!!! Natália!!!

Escutei um barulho, na verdade era o grito das meninas, dava para se sentir que elas estavam apavoradas, então fui até ao quarto onde elas estavam hospedadas e encontrei-as em desespero, a Natália estava...

Morta... Morta...

Em todo corpo recebera vários golpes de facão.

— O que houve aqui? — perguntei-as e as lágrimas brotaram das minhas órbitas.

— Não sabemos, a encontramos nesse estado — disse a Lídia tendo as lágrimas na ponta dos olhos.

— Nós estávamos lá no pátio, porque não conseguíamos dormir e quando voltamos a encontramos nesse estado - disse Joana.

Como não consegui ouvir os gritos? Como não acordei durante a ação? Ah... aquele som dos passos na sala, eram elas saindo. Oh, não.

— Onde é que está avó Amélia? — perguntei-as.

— Ela entrou na casa nos deixando lá no pátio. — disse Lídia.

— Temos que sair daqui rapidamente, minha mãe tinha razão, aqui tá havendo muitas coisas estranhas.

Quando acabei de pronunciar aquele conjunto de palavras senti algo bem robusto atingindo a minha nuca e apaguei.

Quando a minha consciência voltou, vi o relógio na mesa marcando 23:00, as minhas amigas estavam todas mortas, com os mesmos sinais da moça que apareceu no meu pesadelo. Os membros de cada uma estavam espalhados pelo chão, as vísceras ostentavam um aspecto que chamava um vómito num grito dos infernos. O meu coração batucou loucamente quando ainda apreciava o cenário, o sangue ainda jorrava do pescoço da Lídia que parecia olhar para mim.

Levantei e vi um par de olhos amarelos fitando-me, era ela, a minha avó Amélia com um facão na mão direita. Ela se aproximava com um sorriso demoníaco na boca.

— Vovó não.

— Cala boca filha da puta a sua avó não está aqui, ela está no inferno.

— Quem és tu?

— Eu sou o dono desta merda, você não pertence a este lugar puta. Eu quero mais almas - A coisa disse com aquela voz medonha, aquela voz grotesca.

Então ela, aliás aquela coisa que possuía o corpo da minha avó veio em minha direção voando, flutuando com um facão na mão. A pele dela havia mudado para uma aparência de alguém literalmente podre. Não sei porquê vi daquela forma, ou talvez a minha mente estivesse a me pregar partidas, mas eu vi uma pele ferida e nojenta. Foi a mesmíssima descrição da minha mãe. Que arrependimento meu Deus.

Tentei correr, mas parecia que eu apenas caminhava lentamente como se de sonho, ou melhor, pesadelo se tratasse. O meu coração martelava com toneladas de medo e confusão na mente. O que estava havendo ali? Bem que mamãe me advertiu acerca daquilo, eu não quis ouvir, digo, não quisemos ouvir.

De repente sem ninguém manuseando os facões atravessaram a porta vindo em minha direção, era a minha morte. Quando estas vinham com uma velocidade absurda eu já estava convencida que não havia escapatória, era a minha morte.

Me protegi com as mãos e todas as facas rasgaram os meus braços, a criatura se aproximava de mim, enquanto o sangue escorria com intensidade.

Ergui os meus olhos. Ela segurava o seu facão pela mão direita que estava por cima da minha cabeça.

Somei o que restava da minha coragem, desenterrei um dos facões do meu braço esquerdo e tentei atingir a coisa que gozava de muita força, mas sem sucesso. Ela me mordeu e arrancando os meus dois dedos, indicador e máximo assim deixei o facão cair. Gritei de dor, tive certeza que o meu som foi tão forte que chegou em locais que nunca imaginei.

— NÃO — gritei sem esperança.

A coisa olhou para mim com o seu rosto desenterrado dos infernos e agora não havia nenhum vestígio de riso. O que vinha era algo cruel, foi isso que senti no interior de mim.

Bem forte senti o chute da coisa agredindo o meu rosto que logo caí desmaiada.

Quando abri os olhos o homem gentil que nos servira a comida, estava enfrentando a minha avó, ou melhor aquela coisa. A voz da mesma era grotesca. Lorken tinha uma arma tipo pistola e se preparava para disparar, porém por conta da força da coisa ele não conseguia.

Eu assistia a cena ainda no chão sem forças para levantar.

Lorken recebeu uma mordida no pescoço, tão forte que pareceu uma de um animal selvagem ou digno de ser obra de filmes de gore, o sangue jorrou molhando a coisa que a minha avó havia se transformado. Ele caiu, mas o cano da sua arma apontava na direção da entidade. Não conseguiu atirar, assim caindo em seguida sem fôlego.

— Ha, ha, ha — a coisa dos olhos amarelos gargalhou virando e em seguida indo em minha direção.

— Nãooooo — o meu grito foi seguido por um tiro que atingiu a minha avó na nuca, ela caiu.

O homem gentil continuava com a arma erguida, porém por pouco tempo. Levantei-me e fui levar a pistola da sua mão. Ele agora estava morto. Eu não tinha certeza que aquela coisa havia morrido. Apontei na sua direção com a mão esquerda.

De repente o sino soou anunciando a meia noite.

A coisa de imediato levantou com uma força imparável, com fúria nos olhos e com determinação nos seus movimentos. Eu segurava a arma tentando acertar o alvo enquanto isso de uma forma bem superficial ouvia o som da sirene da polícia.

A coisa demoníaca avançou e eu não pensei duas vezes, atirei repetidas vezes e de repente alguém arrombou a porta no mesmo instante que eu enfiava a última bala que derrubou o corpo já sem vida e com os olhos tendo voltado ao normal.

— Mãos para cima. — disse o policial. — você está presa.

Senti as algemas agredindo os meus pulsos e duas lágrimas bem mornas saltaram das minhas órbitas sem nenhuma oportunidade de escorrer pelo meu rosto. Quando virei superficialmente vi a fotografia que avó Amélia segurava no momento do jantar. Na imagem estava ela ao lado de uma criatura com olhos amarelos, pele em putrefação e um sorriso diabólico nos lábios. Pestanejei uma vez e a entidade não mais estava na imagem.

— Vamos moça, vamos. — disse o policial me tirando dali, entrou uma policial com luvas e levou a fotografia que eu fitara.

Fim da gravação.

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